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Ecovila: no pasto ou na mata nativa? Giuliana Capello - 10/05/2011 às 17:39
Você já notou a quantidade de empreendimentos imobiliários que saem por aí dizendo ao mundo que são ecológicos? Tem até quem se autodenomine eco só porque é vizinho de um parque municipal ou de um pequeno remanescente de Mata Atlântica. Eles são especialistas em criar selos próprios (sem a avaliação de terceiros) para estampar um perfil verde na propaganda. Na verdade, nem é preciso dizer que não basta ter um pedacinho de área verde para virar sustentável, muito menos da noite para o dia. O curioso é que alguns empreendedores fazem isso de maneira consciente, com a intenção de tirar proveito de uma moda em que cool é ser ecológico. Mal sabem eles que, muitas vezes, é justamente essa proximidade que pode tornar a construção bem pouco ecológica…Hoje em dia, para mim, considero mais interessante e sustentável quando o empreendimento escolhe uma área degradada para se instalar, e cria práticas capazes de melhorar aquele ambiente: um bom plantio ou reflorestamento de árvores nativas, por exemplo, ou um sistema ecológico de tratamento de esgoto ou até ações de mitigação de passivos ambientais.
Quando o casal Sandra e Hiroshi (fundadores da Ecovila Clareando) estava em busca de uma terra para criar uma comunidade sustentável, não havia o desejo de comprar uma área preservada, de mata fechada e tal. Ao contrário. Eles escolheram um local que era um antigo pasto, com poucas árvores de grande porte, mas com muitas nascentes de água puríssima e solo livre de agrotóxicos – já que a região nunca teve histórico de atividade agrícola, por conta do relevo acidentado.
De lá para cá, a chegada dos moradores e das famílias que estão começando a construir trouxe mais benefícios do que prejuízos ao lugar. Com os mutirões feitos para aumentar a área de mata nativa, implantar grandes pomares comunitários e arborizar as ruas da ecovila, já é possível ver uma vegetação mais densa, mais colorida e rica em biodiversidade. O antigo pasto, onde o capim-braquiária era rei absoluto, agora cede espaço para aroeiras, ipês, jacarandás, cedros, manacás, araucárias… É lindo de ver, e fica ainda mais bonito quando minha memória nota a diferença que já fizemos no lugar. É claro que as construções geram um impacto, assim como qualquer atividade humana. O segredo está em reduzir os impactos negativos e avançar nos impactos positivos, um pouquinho mais a cada dia.
Certa vez, um especialista em construção sustentável e certificação ambiental me disse: ainda que todos os novos prédios sejam construídos a partir de agora seguindo uma cartilha de sustentabilidade, o impacto que eles irão gerar no planeta não será suficiente para reverter as previsões pessimistas referentes às mudanças climáticas e outros desafios socioambientais. Segundo ele, será preciso investir nos prédios existentes, ou seja, pensar em reformas (retrofit) que possam reduzir os danos causados pelo consumo de água, energia, combustíveis fósseis, infraestrutura urbana etc. Em outras palavras, reformar, remodelar, repensar e reinventar são verbos mais alinhados às necessidades do planeta do que a nossa fúria por prédios novinhos em folha, ainda com cheiro de tinta fresca.
O que a ecovila no pasto tem a ver com isso? Ora, a lógica para a implantação de empreendimentos na cidade poderia muito bem seguir o mesmo caminho. Projetos que nascem com o objetivo de revitalizar uma área degradada, por exemplo, são mais sustentáveis do que aqueles que se instalam em locais que já não suportam mais tanta gente, tantos carros, tanto solo impermeabilizado. Saber onde se instalar e como é o primeiro e definitivo passo para fazer do caminho uma ação consciente ou uma aposta incerta no tempo.
Mesmo entre as ecovilas, já vi iniciativas se gabarem do fato de estar em áreas protegidas ou altamente preservadas. Mas pense comigo: se o lugar é preservado, como fazer para construir as casas e os prédios comunitários? Não seria melhor destinar a área para atividades menos impactantes? Em São Paulo, a especulação imobiliária fez horrores na Serra da Cantareira, área de parque estadual importante, responsável por parte significativa do cinturão verde da cidade. Quantos empreendimentos irregulares já se instalaram na região? Incontáveis. E muitos deles ainda se dizem ecológicos…
Transformar um lixão em parque, descontaminar uma área para construir um prédio público ou reflorestar uma mata ciliar de córrego urbano vale muito. E ser vizinho dessas transformações é mais sustentável também. Mais importante do que morar ao lado de um parque ou mata nativa é conseguir trazer de volta a mata até você. Ajude a revitalizar e a esverdear sua cidade!
Foto: Pomar comunitário da ecovila, criado pelos moradores e integrantes da comunidade. A árvore em primeiro plano é um jacarandá que ficava isolado no antigo pasto – e hoje já divide espaço com limoeiros, goiabeiras, amoreiras, pés de caju, tamarindo, jaboticaba, laranja, pitanga, acerola…
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12/05/2011 às 19:57 Anonymous - diz:
Léia. – diz:Infelizmente os bairros de Sampa continuam recebendo novos prédios, apesar de saturados, como o de Pinheiros. No verão, sofremos com as constantes enchentes, mas quem se preocupa com isso? Agora… lá na ecovila… entre os lotes, plantamos Sapucaia, Pau-Formiga, Eritrina Mulungu, Araçá, Estífia, Abio, Ipê amarelo, Ipê roxo, Quaresmeira rosa, Quaresmeira roxa, Feijoa, e muitas outras. Vish… ! Uma belezura! bjs.
22/05/2011 às 14:04 Anonymous - diz:
Martin Winter – diz:Olá, Giuliana!Conheci seu blog – e com ele a ecovila Clareando – há algumas semanas e fiquei encantado. Na verdade, durante alguns dias quase pirei pensando no que o Hiroshi falou sobre simplicidade em um vídeo cujo link começava com um texto seu. Aquilo é a essência de tudo, é impressionante!Bem, eu tenho uma casa inacabada, e embora tivesse pensado em construí-la de forma alternativa há dez anos, quando compramos um terreno em Bananal, no vale do Paraíba paulista, a construção acabou sendo (quase) erguida da forma tradicional. Agora, diante de algumas dificuldades, e depois de conhecer a proposta das acovilas, acabei inserindo algumas técnicas de construção tradicionais, como o barro, por exemplo, ao mesmo tempo em que estou extinguindo o cimento.Eu sempre fui apaixonado por construções antigas, tanto que, quando penso em uma casa, só conseguia imaginar aquela casinha simples de telha e pau-a-pique que a gente via abandonada no meio de uma roça.Pois, agora, descobri que posso de fato morar em um lugar assim, basta construí-la de forma tradicional e respeitando a natureza.Já assisti aos 14 vídeos do site da ecovila – espero que outros sejam disponibilizados -, ao mesmo tempo em que já me considero amigo seu, do Edilson, do Hiroshi, da Sandra… de tanto que tenho gostado do assunto.No porão da minha casa, onde tenho uma pequena serigrafia, além do chão batido, que era o meu xodó, agora tenho móveis feitos por mim e uma bela parede “rebocada” com terra e esterco de cavalo, uma maravilha!Abraços,Martinwww.martinwinter.blogspot.com
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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