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E viva o decrescimento Giuliana Capello - 20/09/2011 às 13:06

[vimeo]http://vimeo.com/3938064[/vimeo]

Imagine um ano em que, por alguma razão, o número de acidentes de carro no país aumentou muito. O que acontece do ponto de vista da economia? Pessoas foram atendidas em hospitais, consumindo remédios e cirurgias, carros tiveram que ser consertados, seguros foram pagos. Isso tudo gerou uma demanda por produtos e serviços e a economia… cresceu.

Agora imagine um Natal em que, por alguma razão desconhecida, aqueles bonecos de Papai Noel que dançam quando percebem algum som no ambiente (uma batida de palmas, por exemplo) entraram de novo na moda e foram vendidos aos milhares. Mais petróleo foi gasto para produzir plástico e tintas, e para transportar as tranqueiras. Mais embalagens e mais pilhas foram vendidas e, no dia 04 de janeiro, uma montanha de lixo esperava para ser levada a algum aterro (se bem que uma parte, infelizmente, acabou poluindo rios, córregos, nascentes…). E a economia? Cresceu!

Os dois exemplos não tão fictícios mostram como o crescimento econômico nem sempre tem a ver com a qualidade de vida da população, e menos ainda com saúde, bem-estar ou felicidade. São apenas números que podem estar mascarando uma realidade de desperdício, consumismo, insegurança e violência contra o meio ambiente.

Para reverter esse quadro, economistas e ativistas europeus – e alguns poucos na América Latina, é verdade – estão apostando em uma ideia radical: o decrescimento. A ideia do movimento é romper com o produtivismo, mecanismo que induz a avaliação do ritmo econômico por números que precisam sempre apontar para uma curva ascendente: mais empregos, mais carros fabricados, mais eletrodomésticos vendidos, mais celulares, mais computadores, mais cosméticos, mais, mais, mais… (E isso tudo sempre no mesmo planeta, cujos recursos não crescem nem se multiplicam. São apenas consumidos cada vez mais rapidamente.)

É por isso que os adeptos do decrescimento acabam flertando claramente com o movimento socioambiental. No fim de semana assisti ao documentário francês Simplicidade Voluntária e Decrescimento (vale a pena reservar um tempinho para ver e refletir!), em que um pensador do assunto dizia que “o desenvolvimento sustentável é um mecanismo criado para fazer com que possamos poluir menos para poluir por mais tempo”. É radical, sim, mas às vezes é preciso ir ao extremo para entender os problemas daquilo que aparentemente nos soa confortável, tranquilo, correto.

O decrescimento é a redução voluntária da atividade econômica. A ideia é “cortar as gorduras” tanto da produção quanto do trabalho, para que as pessoas possam viver bem, com menos. Mais tempo livre para realizar as coisas que são realmente importantes na vida (como brincar, contemplar a natureza, fazer arte, conviver com as pessoas ou simplesmente viver sem pressão) e menos energia e recursos naturais para fabricar coisas que são, no fundo, inúteis.

Uma das “frentes de batalha” do movimento é o combate à obsolecência programada, ou seja: aquilo que nós produzimos deve ser feito para durar e não para virar lixo rapidamente e gerar demanda por um novo produto. Outra é a simplicidade voluntária. Mas acho que o mais importante é simplesmente acordarmos para o fato de que a vida industrial se tornou um ciclo vicioso: algumas pessoas trabalham muito, normalmente em empregos que detestam, apenas para conseguir pagar a conta das coisas desnecessárias que compram e logo são descartadas. No fundo, em última instância, trabalhamos para transformar recursos naturais em lixo. Claro que isso não pode dar certo indefinidamente.

Decrescer não é diminuir, regredir ou deprimir… É aumentar a vida. É trocar os números vazios da economia por sorrisos, prazer, arte e convivência. De quebra, diminuímos a pressão sobre os recursos naturais e produzimos menos lixo. Pode parecer um sonho distante, mas, diante da crise ambiental e da escassez de recursos, não temos muitas opções. Uma coisa é certa: abaixo o Papai Noel dançante!

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Comentários

22/09/2011 às 00:37 Hernando - diz:

Parabéns pela forma clara, objetiva e convincente que o assunto foi tratado.

06/10/2011 às 13:46 mary jane - diz:

Orgulho-me em estarmos na msm sintonia vibratória. Parabéns pela matéria agradável e convicente !!!!
Bjs

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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