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É primavera em mim Giuliana Capello - 27/09/2011 às 20:29
Sexta-feira passada foi um dia especial. Desde o momento em que me levantei, tive a sensação de que o dia merecia algum tipo de celebração. É engraçado, mas a maioria de nós acorda e vai dormir sem ter parado uns poucos instantes para observar o dia, a luz do sol desenhando sombras delicadas por entre as árvores, a brisa fresca carregando folhas e sementes, o som dos pássaros, a terra seca há semanas, pedindo chuva…
Já fazia uns dias que eu vinha contemplando o fim do inverno, despedindo-me dele, ao mesmo tempo em que agradecia à estação do recolhimento, da introspecção, das reflexões. Por isso, o primeiro pensamento que tive naquela sexta-feira foi: hoje começa a Primavera! Oba!
E tive, então, vontade de agradecer, de comemorar, de sair contando a todo mundo. Até fiz isso com uma ou outra pessoa, mas ninguém pareceu dar muita importância… Mas para mim era diferente. Não sei explicar muito bem, mas senti de repente uma conexão profunda com o planeta e com os pássaros que me visitaram no quintal, cantando mais do que de costume.
Havia, sim, uma luz diferente no céu. Tudo parecia mais iluminado, colorido. Foi então que um vento forte começou a soprar na cidade e, em poucos minutos, a paisagem era outra: o céu estava nublado e havia nuvens escuras, carregadas.
Esperei pela chuva na varanda e, quando ela chegou, descobri de imediato como celebraria a chegada da Primavera… Fui para o quintal e tomei um delicioso banho com a primeira chuva da estação, acompanhada da minha cachorra Sofia que, correndo prá lá e prá cá, parecia entender que era hora de celebrar.
Talvez você ache este post meio banal. Mas para mim, que nos últimos anos fiz uma série de mudanças de ritmo para poder curtir mais a natureza, entender seus ciclos e a influência que eles têm em mim, poder simplesmente parar numa tarde de sexta-feira para tomar chuva é incrível, maravilhoso, impagável.
No fundo, todas as escolhas que fiz (e continuo fazendo) para reduzir meu impacto sobre a Terra (trabalhar em casa, mudar de cidade, morar numa ecovila, comer em casa, fazer compostagem etc.) levam a um caminho que só agora me dou conta, mais plenamente: sincronicidade com os ritmos da natureza.
Quando estamos na cidade grande, trabalhando num escritório com ar-condicionado e luz artificial o tempo todo, o que acontece fora do prédio parece não nos tocar. Na hora do almoço ou na saída, a chuva, o vento gelado ou o calor forte são sempre um problema. Dificilmente conseguimos notar as novas flores de ipê, a grama mais verdinha ou o cheiro de terra úmida.
As estações entram e saem despercebidas e, em geral, somente são notadas quando algo de muito estranho acontece, como um veranico em julho ou um dezembro muito seco. (Se bem que agora tudo é pretensamente explicado como mais um fenômeno das mudanças climáticas…)
Não precisa ser assim. Mais do que técnicas e soluções mirabolantes, se o caminho que você anda trilhando aponta para uma vida mais sustentável, aos poucos você irá perceber mais e mais – e com todos os sentidos – cada uma das quatro estações. Primavera é tempo de florescer, de plantar, de brincar, de se renovar. É mais um tempo dentro do tempo da gente, de noites e dias, de luas novas e cheias, de pensar e agir, dormir e acordar, rir e chorar, menstruar, amar, envelhecer. Permita-se sentir a primavera dentro de você!
Crédito da imagem: Valdinei Calvento
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30/09/2011 às 20:39 Léia - diz:
Venho aprendendo que os momentos mais especiais da nossa existência são esses, Giuliana: quando a gente simplesmente é. Não existe nada de banal nisso; ao contrário esse é o nosso verdadeiro tesouro.
08/10/2011 às 22:10 Martin Winter - diz:
Prometi que, durante os domingos, vou acordar cedo e caminhar pelas estradas rurais do município onde moro. E assim tenho feito.
É impressionante como uma prática tão simples pode ser algo tão prazeroso. E, ainda por cima, não gasto nada; é a beleza da simplicidade.
25/10/2011 às 00:32 Maria Lygia Gonçalves Daflon - diz:
Sentir e saborear as coisas simples da vida nos proporciona vivenciar a eternidade do instante e o encantamento que traz o sentido da existência.
Giuliana, seu texto flui deliciomente e traz o frescor da simplicidade.
com afeto,
Lygia, estive com vcs no sábado em El Nagual.
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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