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Doze metros de muita história Giuliana Capello - 02/08/2011 às 11:03

Um 3×4 deliciosamente construído, e subitamente transformado em pedaço de um lar que, aos poucos, vai se tornando palpável a todos os meus sentidos. É assim que vejo – e sinto – o primeiro quarto pronto da minha casa na ecovila, agora não mais com cara de obra… Ufa!

São pouco mais de doze metros quadrados de muita experimentação e aprendizado. Para você ter uma ideia, cada uma das quatro paredes foi construída com uma técnica diferente de bioconstrução. Ao Leste, os primeiros raios de sol da manhã entram pela grande janela comprada numa loja de materiais de demolição, e instalada na parede de superadobe (com sacos de ráfia preenchidos com terra e empilhados como se fossem enormes tijolos). Essa técnica oferece excelente conforto térmico e permite que a parede “respire”, ou seja, troque ar com o ambiente externo, de forma a garantir também um espaço mais saudável. O amigo Bruno foi quem levantou a estrutura, que depois de pronta recebeu reboco natural de terra.

Ao Sul, para nos proteger do frio, usamos tijolos de adobe feitos com terra local pelo amigo Hiroshi, que nos doou o pequeno lote que sobrou de sua casa. Dessa vez, foi meu marido quem se arriscou a levantar a parede. Deu certo. Os tijolos foram assentados com argamassa de terra e um pouquinho de areia. Por fora, o cimento entrou apenas no reboco das primeiras fieiras, mais expostas à chuva. A parte superior recebeu baba de cacto-palma curtida em água por uma semana, um hidrorrepelente (não impermeabilizante) natural e bastante eficiente.

A parede voltada para o Oeste divide o quarto do banheiro. Por conta da umidade, optamos por utilizar tijolo de solo-cimento (95% terra e 5% cimento), que sofre menos nesse tipo de ambiente do que as versões de terra crua. A vantagem desse material é dispensar argamassa, já que funciona como uma espécie de Lego (lembra desse brinquedo?), em que somente é preciso encaixar peça sobre peça. Para finalizar, uma camada de pintura a cal ajudou a clarear o ambiente, sem nos expor aos compostos orgânicos voláteis, presentes nas tintas látex à base de solvente ou água.

Por último, a face Norte, que separa o quarto da sala: aqui aproveitamos restos da madeira usada na estrutura da casa (eucalipto citriodora de reflorestamento) para compor uma parede com a técnica chamada Cord Wood, ou parede de toquinhos. Até eu entrei na dança e participei bastante dessa estapa, ajudando meu marido a empilhar as pequenas toras, ajeitando-as na massa preparada com terra, serragem curtida, cal, areia, água e um décimo de cimento. O resultado é uma espécie de mosaico de madeira, com 25 cm de espessura, que garante bastante conforto térmico em qualquer estação do ano.

Para que o quarto não ficasse esquisito com tantas paredes diferentes, fizemos um acabamento interno com pintura a cal, para dar certa uniformidade visual, sem deixar o lugar com “muita informação”. Ah, sim, o piso! Outra experiência que funcionou: usamos os taquinhos de madeira da antiga casa comunitária da ecovila, reformada recentemente. Depois de aplicados, eles foram lixados e receberam uma camada de verniz que deixou tudo novinho em folha.

O resultado, digo sem modéstia, ficou ótimo. Mas o mais interessante é justamente aquilo que está muito além do que se pode ver hoje, já pronto. Foram meses e meses burilando maneiras de reaproveitar materiais que acabariam virando entulho, resgatando técnicas tradicionais antigas (mas longe de serem ultrapassadas!), testando receitas de argamassa natural, que dispensasse o cimento e não diminuísse a qualidade do ar interno. Além disso, tivemos a ajuda de vários amigos, que apareciam durante o trabalho e acabavam imprimindo as mãos em nossas paredes, investindo energia, tempo e afeto. Sorrimos muito juntos. Aprendemos muito também.

Aprendemos, sobretudo, a acreditar que podemos ser mais independentes das regras de mercado, que insistem em nos dizer, a todo instante, que é preciso comprar absolutamente tudo, mandar fazer, pagar pelo trabalho de terceiros. Não. O barato da minha casa é exatamente essa possibilidade de testar o quanto podemos ir mais longe, o quanto temos dentro de nós habilidades que só precisam de uma oportunidade para florescer e nos surpreender. Isso faz cada centímetro valer mais, ter mais sentido.

Descobrir que podemos erguer nossa própria casa nos deu um sentido maior e novo para aquilo que vem a ser construir um lar. Minhas mãos estão impressas em cada canto daquele quarto, ainda sem destino, é verdade, mas já cheio de horizontes: poderá ser o quarto de meu futuro filho (ou filha), um cantinho para receber os amigos ou a família, não importa. Ele sempre será um espaço que me fará repensar o valor das coisas, o significado da palavra amizade, a força da autonomia e dos sonhos levados a sério.

Foto: tudo bem, sei que é só minha mão alisando o reboco de terra na parede de adobe, e você talvez quisesse ver o quarto inteiro… Mas ainda não fiz fotos novas. Domingo, o trabalho terminou no finalzinho do dia, quando já não havia luz natural o bastante para fotografar… Prometo que publico aqui algumas imagens assim que puder, combinado?

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Comentários

02/08/2011 às 17:14 Anonymous - diz:

Daniela B. Silva – diz:Parabéns, Giu! Muito lindo acompanhar essa história desde o comecinho. Sempre fico feliz de ver seu blog no Planeta :) Beijos,Dani

02/08/2011 às 21:29 Anonymous - diz:

Raphael Rodrigues – diz:Seus textos me fazem querer sair correndo pra Ecovila.São um alento para uma alma cansada da vida apressada da cidade grande…Parabéns pela casa, deve ter ficado linda. Quero ver as fotos!Bjs

03/08/2011 às 09:38 Anonymous - diz:

Daniel – diz:Parabéns…QUERO VER AS FOTOS…Abraços

03/08/2011 às 14:03 Anonymous - diz:

Janete Canteri – diz:Lindo e verdadeiro, como tudo o que você escreve.Aguardo ansiosamente para ver as fotos.Abraços!

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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