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Dias de mudança (e desapego) Giuliana Capello - 09/11/2010 às 19:34
Ontem tive uma experiência como catadora de papel que me trouxe uma série de reflexões. Vou explicar. Minha avó está de mudança marcada para o litoral e eu e meu marido nos dispusemos a ajudá-la a encaixotar as coisas, já que ela, no auge de seus 74 anos, teria sérias dificuldades em cuidar de tudo sozinha. Pois bem, o problema começou quando descobrimos que ela não tinha caixas o bastante para tal.
Até uns tempos atrás, era só ir a um supermercado, conversar com um funcionário e sair de lá com o carro abarrotado de caixas de papelão. Mas, com a (boa) onda da reciclagem se espalhando por todo lugar, a coisa já não é bem assim. Para dizer a verdade, aqui no meu bairro, nem cheguei a tentar, porque a maioria é loja de grande rede, que já tem um esquema para enviar esse tipo de material para cooperativas ou mesmo direto para indústrias recicladoras.
Então, resolvemos pesquisar preços em lojas de embalagem. A primeira descoberta não demorou a chegar: muitas lojas de embalagens viraram, na verdade, lojas de plásticos. Eles dominaram tudo! Quando, enfim, encontramos um lugar que vendia as tais caixas, quase caímos para trás. Sabe quanto custa uma caixa de papelão grande? Quase 4 reais. (E minha avó iria precisar de umas 50 delas!) O que isso tem a nos dizer? Algumas suposições: um material, antes abundante e sem valor comercial, agora é cobiçadíssimo e, claro, por isso tem seu preço. Outra coisa: já existem produtos no mercado fabricados com papelão reciclado, o que muda a categoria do material de lixo para matéria-prima. Uma evolução, não?
Para não atrasar o processo, comprei 5 caixas (rosnando um pouco, é verdade, porque ainda queria dar um jeito de reaproveitar caixas descartadas) e fui para a casa da minha avó. De lá, fomos até um supermercado de bairro, onde conversei com dois funcionários do estoque. Diante da pilha de caixas prestes a serem jogadas fora, eles me disseram: o que temos está aí. Pode levar o que quiser, dona. Não pensei duas vezes. Minha avó achou meio estranho ver a neta catando papelão na porta do mercado. Mas eu nem me preocupei. Não vivo dizendo para um monte de gente que ser catador de recicláveis é trabalho digno e importantíssimo para a sociedade? Pois então! Vivi um pouquinho dessa experiência… Lotei o carro de caixas de papelão, todas grátis, e fiquei feliz da vida por evitar que fossem parar em aterros sanitários e pela economia gerada com o reaproveitamento.
Ok, resolvida a questão das caixas, outro desafio teve de ser encarado: ter paciência de monja para separar montanhas de materiais recicláveis acumulados sabe-se-lá-como pela minha avó durante anos e anos. Isso merece uma explicação: ela é costureira há décadas e, por isso, todo retalho de tecido é guardado para futuro uso em alguma de suas criações. São armários, prateleiras e sacos de pedacinhos e cortes de todo tipo de tecido que, obviamente, ocupam um enorme espaço. E o pior: esse hábito, com o tempo, acabou incluindo outros materiais que, da mesma forma, ela acumula em casa: sacos plásticos para fazer artesanato ou embalar objetos e roupas, revistas antigas, equipamentos eletrônicos, brinquedos que as netas foram deixando pelo caminho com a saída da infância (e que ela ficou de um dia doar para alguma instituição), roupas e acessórios da família inteira que ela pegou para reformar e muito, muito mais.
Resumo da ópera (que serve como dica para quem for mudar de endereço): mais ou menos tudo ao mesmo tempo, começamos a triar o que seria destinado à reciclagem, o que seria doado a entidades (aí entram, basicamente livros, brinquedos, roupas e sapatos), o que ela gostaria de doar para familiares e amigos e o que – depois de se cogitar outras possibilidades – teria de ir para o lixo comum mesmo.
Foi uma saga que envolveu muito trabalho, tempo e compaixão. Tem muita gente que acha que a opinião dos idosos, quando começam a perder parte da autonomia, não tem mais de ser considerada. Discordo, acho falta de respeito. Antes de jogar algo fora, ainda que estivesse caindo aos pedaços, eu perguntava: vó, posso jogar fora ou esse objeto tem algum valor afetivo para a senhora? Com isso, ouvi algumas histórias e aprendi um pouco mais sobre minha família. Ah, não joga não, eu queria levar [um espanador pequenininho] porque foi a única coisa que comprei na porta de casa e me deu sorte.
Toda mudança, ainda que desejada e planejada, é um grande exercício de desapego. E olha que, no fim, ela conseguiu doar armários (inclusive para mim), estantes, um fogão, vasos de plantas, máquinas de costura e outras mil coisas! Eu, de minha parte, achei até que minha avó superou as expectativas. Imaginei que para ela, deixar para trás a casa onde morou boa parte de sua vida, teve seus filhos, criou as netas, trabalhou, cultivou um casamento de décadas e viu o marido envelhecer e morrer de um câncer já estava de bom tamanho. Exigir mais do que isso seria pedir demais para ela…
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13/11/2010 às 15:28 Anonymous - diz:
Marise Monteiro – diz:Olá, Giuliana!Não sei se hoje estou especialmente sensível, mas o fato é que este seu texto me deixou emocionada. Por algumas razões que vou enumerar, por questão didática, pois não são necessariamente nesta ordem. 1 – Começa o texto falando em mudança e de sua avó, que tem 74 anos. Minha mãe tem 80.2 – Depois sobre caixas de papelão, reciclagem, mundanças de hábitos.3 – Fala de humanidade, respeito aos mais velhos, aos seus desejos e vontades, suas lembranças e o valor delas.4 – E o exercício de desapego, que devemos fazer em qualquer época de mudança, mesmo que não seja de residência.Parabéns!Marise Monteiro;)
13/11/2010 às 16:43 Anonymous - diz:
Jaqueline – diz:Mudança e desapego… Isso me fez bem. Há um ano me casei e mudei da casa de meus pais para o nosso apartamento. Deixei tanta coisa pra trás, que acabei descobrindo que nunca tiveram ou há muito tempo não tinham utilidade para mim, mas que eu insistia em conservar por algum motivo que nem eu sei. Separei também vários materiais recicláveis. Usei para mudança, as caixas de cesta básica que meu esposo recebe, caixa do microondas que ganhamos, caixa de um impressora que meu irmão havia comprado. Me identifiquei muito com este post.
15/11/2010 às 12:31 Anonymous - diz:
Neusa Ribeiro Santos – diz:PARABÉNS PESSOAL!!!!!!!!!!!!!!Educação gera conhecimento,conhecimento gera sabedoria,e, só um povo sábio pode mudar seu destino.
15/11/2010 às 13:28 Anonymous - diz:
Ciro R. Rolli – diz:Mudar o destino…precisa mudar HÁBITOS?Certamente que sim!Na sua família em histórico com diabetes;mais voce adora comer chocolate e doces…deu pra entender?!A perigo na zona de conforto!!!Os hábitos arraigados,suplantam a razão.Há SEMPRE necessidade de reflexionarmos nossas ações cotidianas.Parabéns a Giuliana!!
15/11/2010 às 21:16 Anonymous - diz:
Leticia Sodré – diz:Oi Giuliana, boa noite!Gostei muito do seu texto, assim como o blog.Parabéns!Eu faço parte de uma ong chamada Instituto Baraeté que vai oferecer daqui a pouco uma oficina de customização de roupas e vamos precisar de uma boa quantidade de retalhos e aviamentos. Os que você se referiu no post ainda estão disponíveis?Agradeço muitíssimo a atenção e demonstro aqui meu interesse por receber a doação.Um grande abraço,Leticia Sodré11 5561-6047 | 8347-6045
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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