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Um dia sem telas Giuliana Capello - 12/07/2011 às 14:40


Pode parecer bem estranho, mas apesar de eu ser blogueira, minha relação com a tecnologia está longe de ser íntima. Na verdade, ela se restringe ao estritamente necessário. E o fato de trabalhar na frente do computador reduz ainda mais minha vontade de ficar navegando por redes sociais ou coisas do gênero. Seria um tempo extra diante da tela iluminada artificialmente, e menos tempo para todo o resto (que é muito, acredite!). Quando termino o que preciso fazer no dia, é hora de ver horizonte de verdade, de pisar na terra, de curtir o som dos passarinhos, de ficar sem fazer nada, olhar para o mundo sem a mediação de uma tela, sem um editor que selecione (ou seja, que decida por mim) o que é digno de estar nas manchetes do dia.

Não sei dizer se é caso patológico, de resistência ou simplesmente opção. Mas o fato é que, em casa, nem tv por assinatura tem vez – o que significa dizer que o aparelho passa a maior parte do tempo desligado, mais reservado aos filmes em DVD. E isso não torna minha vida mais sem graça, tenho certeza. Também não tenho iPod, nem iPhone, muito menos iPad. E, por enquanto, realmente nada disso me faz falta. Perfil no Twitter? Que nada. Orkut? Está igualzinho há anos, intacto, esquecido. Facebook? Criei um recentemente, com um apelido discreto que só os amigos mais próximos identificam, só para eu poder entrar, ver o que acontece por lá e entender minimamente o que significa “curtir” algo, “comentar”, “compartilhar”, essas coisas. Na verdade, fiquei curiosa para saber por que isso tudo faz tanto sucesso. Descobri que, até aqui, minha vida continua numa boa depois que desligo o laptop e o celular…

Desconectada, eu? Conexão, para mim, tem mais a ver com trocas de olhares, com o barulhinho de folhas ao vento, com interagir com os bichos (estes, sim, grandes mestres na arte de viver o presente…), com aroma de chuva chegando, sol na pele. Conectada com a natureza, com as coisas vivas da Terra, com o pulsar de corações que moram bem ao meu lado. (Convenhamos, não dá para comparar o riso de um amigo com o “rs” que recebemos depois de uma piadinha qualquer via web, não é verdade?)

Ao contrário, quando estou diante do computador ou da tela de algum aparato tecnológico, é como se parte de mim virasse máquina, ficasse por uns instantes (ou horas, dependendo do caso) sem vida própria… Exagero? Quantas vezes você já perdeu a noção do tempo na frente de um computador, ou esqueceu-se de almoçar, tomar água, até de ir ao banheiro? A gente não para o relógio ou a ampulheta da própria vida quando abre nossa caixa postal. É por isso que não dá para assistir à passagem do tempo, se perder entre spams, ofertas que parecem incríveis e uma ou outra mensagem – nos dias de sorte – que realmente vale a pena.

Desculpe-me, não quero radicalizar. As redes sociais até que têm um bom potencial para unir pessoas, mobilizar pequenas multidões. O problema é que, na prática, não é bem isso que ocorre, pelo menos não na maioria das vezes. Mais comum mesmo é gente se viciando, achando normal trocar encontros presenciais por mensagens curtíssimas, jogos sem sentido, aplicativos prá lá de inúteis… Resumir a vida a isso – lamento – não me parece nada bom.

Que tal um Dia sem Telas? Seria como uma dessas campanhas, hum… de redução de danos. Algo do tipo: segunda sem carne ou dia sem carro. Pelo menos um dia na semana sem computador, celular, iPad etc. Você suportaria? Ou teria arritmias cardíacas, crises de abstinência? Pense nisso.

Hoje mesmo soube da saga de Susan Maushart, que passou seis meses com os três filhos adolescentes completamente desplugados. A experiência virou livro: “The Winter of Our Disconnect”, algo como “O Inverno de Nossa Desconexão”. E sabe o que é mais incrível? O resultado da “privação digital” surpreendeu a todos. Livros, jogos de tabuleiro, conversas à mesa do jantar e outras coisas simples, banais, ganharam espaço na família. Nem tudo foi fácil, especialmente para a filha mais nova, que chegou a passar uns dias na casa do pai para retomar seus contatos em redes sociais…

É preciso observar nossos hábitos e avaliar o grau de escravidão voluntária a que nos submetemos em troca das dezenas de amigos quase desconhecidos que adicionamos aos nossos perfis diariamente. Entendo que não dá para negar ou se safar 100% do mundo digital – nem acho que isso seria a solução. A questão é saber dosar, sempre. Porque nossa vida já tem tantas tarefas, compromissos, horários, checklists intermináveis, que eu pergunto: vale a pena incluir mais e mais coisinhas no nosso dia a dia? Se o tempo é escasso – e valiosíssimo – como você prefere administrá-lo, na frente de uma tela em sem “tempo livre” ou caminhando pela cidade, descobrindo pequenos tesouros- como esta  jabuticabeira que, por mais que seja linda também na foto, só pode ser compreendida de perto, frente a frente?

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Comentários

13/07/2011 às 09:11 Anonymous - diz:

Michel! – diz:Isso ae!

15/07/2011 às 10:43 Anonymous - diz:

.Gabiru – diz:Linda alma! Me identifiquei demais com seus pensamentos.”Se tu no fostes casada, preparava uma escada pra ir no céu te buscar.”

15/07/2011 às 16:32 Anonymous - diz:

Alexandre – diz:Giuliana,Vc nunca fez nenhum post sobre esportes na ecovila… vcs praticam esportes lá? rolam jogos ou ginástica? ou a atividade física é apenas a de lidar com a terra???

22/07/2011 às 23:57 Anonymous - diz:

GUSTAVO QUEIROZ – diz:O “no impact man” se desplugou tbm…experiencia incrível.

22/07/2011 às 23:58 Anonymous - diz:

GUSTAVO QUEIROZ – diz:Link do Trailer do NO IMPACT MAN:http://www.youtube.com/watch?v=Z9Ctt7FGFBo

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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