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Dez anos de um sonho Giuliana Capello - 11/10/2011 às 14:51
Em 2011, a ecovila Clareando completa dez anos de vida. A data refere-se à compra da terra pelo casal de fundadores da comunidade, Sandra e Hiroshi, que cultivavam o sonho de viver em grupo com o ideal de simplicidade e respeito pela natureza.
Da compra da terra ao que a ecovila é hoje, o caminho é longo, cheio de pedras, flores e muito aprendizado. Com o parcelamento da terra em lotes privados, áreas comunitárias e zonas de reflorestamento, a ecovila constituiu-se juridicamente como um loteamento, já que não existe a figura de ecovila em cartórios de imóveis no Brasil…
Aos poucos, a proposta do casal foi sendo compartilhada com outras famílias que, acreditando na viabilidade do sonho, resolviam adquirir um lote e participar ativamente das ações de construção da comunidade – já que pouca coisa foi entregue pronta pelos empreendedores dessa experiência, que desejavam, na verdade, construir o sonho de maneira coletiva.
Assim, apareceram os primeiros integrantes da ecovila, ainda quando mal tínhamos as ruas de terra acertadas, a água encanada até os lotes e os postes de distribuição de energia elétrica. A área ainda tinha uma cara de pasto ralo, com poucas árvores para fornecer sombra durante as caminhadas. A opção pelo antigo pasto tem explicação: com a retirada do gado, o simples fato de deixar a pastagem crescer já traria um impacto positivo para a região – mais do que se os fundadores tivessem escolhido uma área de mata nativa para fazer nascer a ecovila…
Com os mutirões de reflorestamento e plantio de pomares, a paisagem não demorou a se transformar. A chegada das primeiras moradias também alterou o horizonte e nos deixou mais atentos e esperançosos.
O grupo, que no começo não passava de dez famílias, hoje está composto por cerca de 60 famílias, e com uma diversidade cultural, espiritual e de interesses também bastante grande. Isso nos trouxe uma série de conflitos que, aos poucos, aprendemos a administrar e a dissolver. Também a gestão precisou ser discutida, pois o crescimento do grupo foi deixando as tomadas de decisões cada vez mais complicadas e lentas.
Inspirados pela experiência de outras ecovilas e conscientes de que teríamos sempre de criar soluções locais – não há fórmulas prontas para quase nada quando se trata de vida em ecovila – criamos um sistema de gestão compartilhada que respeita os diferentes graus de comprometimento e envolvimento com os assuntos comunitários (temos aqui donos de lotes, gente que está construindo casa para morar e, claro, moradores efetivos). Na hora de decidir questões do dia a dia, como estratégias para evitar que o gado do vizinho invada nossas hortas, a urgência dos moradores é e sempre será maior do que qualquer ponderação de um integrante da comunidade que nos visita uma vez a cada três meses.
Criatividade, nessa hora, é palavra-chave. É ela que nos ajuda na criação de ferramentas que possam, ao mesmo tempo, contemplar o interesse de todos e respeitar os diferentes níveis de demanda e expectativa.
No último domingo, promovemos um encontro/curso sobre como criar comunidades sustentáveis, baseando-nos na experiência da Ecovila Clareando. Diz a Rede Mundial de Ecovilas (GEN) que 90% das iniciativas de ecovilas falham e acabam se desintegrando pelo caminho por conta de dois importantes problemas: a não definição de um modelo de propriedade da terra e a falta de acordos comunitários claros e legítimos.
A Clareando, nesses dez anos de jornada, tem se empenhado em desenvolver e aprimorar as ferramentas de tomada de decisões, bem como os acordos comunitários. Temos até aqui um contrato de compra e venda que garante a propriedade privada da terra, ao mesmo tempo em que nos assegura o interesse de garantir momentos e espaços comunitários. Também desenvolvemos regras para o uso da propriedade privada, a fim de manter nossa “cola” na Agenda 21. Em outras palavras, as famílias que entram sabem que temos regras a serem seguidas na construção das casas e na manutenção da paisagem e da flora e fauna locais.
Além desses documentos, criamos um design institucional ou modelo de gestão compartilhada que vai além da democracia direta (mas deixarei os detalhes para um próximo post, quem sabe). Este ano, aprovamos um manual de acordos comunitários, que ajuda a prevenir conflitos e nos dá ferramentas para resolvê-los.
Nem por isso posso dizer que a Clareando é um conjunto de regras fechadas, herméticas, excessivas. Acredito que elas são importantes nesse momento de formação do grupo e lapidação dos interesses e da convivência em grupo. No futuro, penso, elas serão menos necessárias e poderão, por fim, deixar de existir, pelo simples fato de já terem se tornado naturais, incorporadas definitiva e confortavelmente por todos.
Compartilho com você um pouco dessa história para dizer que sei das dificuldades e desafios que temos pela frente, mas que também me alegro (e me sinto grata) ao olhar para trás e sentir profundamente o quanto já avançamos nessa jornada por um modelo de assentamento humano que possa inspirar mais e mais pessoas neste que é o século definitivo para todos nós.
Foto: pomar comunitário implantado sobre antiga área de pasto. Crédito: Thiago Mota
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13/10/2011 às 00:38 Rodrigo - diz:
Oi Giulianna,
Parabéns pela iniciativa! Eu e minha esposa temos esse sonho brotando tb e seus relatos são ótimos, adoramos! É a primeira vez que comento e realmente são mto inspiradores, esse de agora, principalmente!
Esperamos um dia, quem sabe, conhecer a Clareando!
Parabéns e muita paz pra vocês!
Abs,
Rodrigo
13/10/2011 às 16:04 Zé Mauro - diz:
É o paraíso ao nosso alcance. É o velho sonho se transformando em realidade. Quem quiser fazer uma ecovila na praia da Baleia junte-se a nós, já temos um sitio a 2 km da praia e procuramos amigos para fundarmos uma comunidade ecológica e vivermos em paz.
14/10/2011 às 19:26 Maria Elisa Galvão Menezes - diz:
Giuliana, tivemos a felicidade e o prazer de conhecer Hiroshi há uns 15 anos. E temos acompanhado o movimento dele e de mais algumas pessoas, em contato direto ou por noticias. Fico muito feliz por vcs terem caminhado estes 10 anos, no Clareando. Na ocasião da criação do Clareando, tinhamos os meninos pequenos e a vida mais direcionada na região daqui de Itu, então não compramos lotes. Hoje estamos tentando andar com um projeto noss, Ingá Sustentavel, q pretende ser um centro de praticas sustentaveis, passando por tudo o q diz respeito a isso. Temos um blog, hoje ele está parado por alguns desafios q passamos, mas irá pra frente com certeza e irá agregar a pessoas como vcs, q pensam como nós, que o ser tem q ser mais humano, para criar um futuro mais feliz para ele mesmo e para assim, poder expandir-se como criatura divina. Parabens a voces! E se precisarem de alguma ajuda em projetos, o Hiroshi sabe q Luis Cesar meu marido, pode colaborar muito como especialista na area. Estamos a disposição pra ajuda-los! Beijos a todos!
10/11/2011 às 02:21 Adriana cefali - diz:
Gostaria de saber se posso conhecer o projeto e como faço contato.
10/11/2011 às 17:08 Giuliana Capello - diz:
Olá, Adriana, tudo bem? Para saber mais sobre a ecovila, visite o site http://www.clareando.com.br. Você pode enviar um email para receber informações sobre a programação para visitantes. Seja bem-vinda. Um abraço, Giuliana
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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