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Despedida na ecovila Giuliana Capello - 16/02/2010 às 16:28
Uma comunidade é feita de gente que vem e vai. Desde que estou na Ecovila Clareando, há quase quatro anos, muitas famílias chegaram e algumas, poucas, foram embora. Os que chegam, carregam sonhos de uma vida melhor, mais tranquila, mais plena, compartilhada no trabalho comunitário e no desejo comum de viver mais em harmonia com a natureza. Vêm com um sorriso no rosto, um jeito de quem não sabe muito bem como começar, o que fazer. Mas a vontade e o entusiasmo estão estampados em cada gesto, latentes.
Aos poucos, dia após dia, os novatos e os da velha-guarda vão se reconhecendo, estreitando laços, descobrindo afinidades ou, por outro lado, encarando o fato de que, de repente, não têm muita coisa em comum. É natural. Não dá para imaginar que todos nasceram destinados a serem amigos-do-coração. Sempre tem aqueles que sintonizam com a gente mais espontaneamente, que provocam saudade antecipada no abraço de despedida. Estranho seria acreditar que eu pudesse ser profundamente amiga de todos, indistintamente. Querer bem é uma coisa; ser amiga-confidente é outra bem diferente…
Nessas idas e vindas, tento aprender a entender os motivos pessoais que levam alguns a desistir do projeto da ecovila. E vejo que a decisão fora sempre resultado de uma reflexão de muito tempo, lapidada, sofrida até. Normalmente, entendo, dou razão e me desapego, para deixá-los ir em paz, seguir a vida no seu próprio fluxo.
Mas, pela primeira vez, estou realmente tocada pela saída de uma família muito querida. Eles foram os pioneiros, os que abriram caminho para muitos outros que vieram depois. Foram a primeira família com filhos a se mudar de verdade para a ecovila; não apenas para os fins de semana, mas também para os dias de tempestade, de lama na estrada, de falta de energia, de frio intenso no caminho da escola, sem internet, telefone ou vizinhos com quem pudessem dividir os contratempos. Eles encararam desafios após desafios por acreditar que seriam mais felizes na ecovila. Até que uma somatória de acontecimentos pessoais e conflitos interpessoais na ecovila fizeram transbordar o copo dágua que, gota a gota, ia dando sinais de saturação.
Quando soube da decisão, foi como se uma parte da minha família estivesse se separando de mim. Senti um rasgo no peito, uma vontade de chorar e pedir que reconsiderassem a questão. A saída deles soou como a primeira derrota de um projeto coletivo. Abandonaram o barco, pensei. E vivi dias de tristeza, de vontade de ficar quieta, como se o silêncio pudesse me dar alguma explicação ou mudar o rumo dessa história. Meu marido, também muito ligado nesses amigos, me dizia: Não podemos pedir que eles fiquem. Do jeito que estão, a saída vai ser melhor para eles. Se somos amigos de verdade, temos que apoiá-los e deixar o egoísmo de lado, porque pedir que fiquem seria olhar somente para nós. Palavras bonitas, mas difíceis.
O reencontro com eles teve sabor de montanha-russa: alegre, triste, amedrontador, surpreendente. No fim, peito aberto, alívio e pernas bambas. Quanto sentimento! E que vontade de poder recomeçar de outro jeito. Mas o tempo não volta atrás e a impermanência é uma das poucas certezas da vida. Por isso, vê-los bem, felizes pela decisão tão difícil, foi uma bênção. Fazia tempo que não ríamos tanto, que não tínhamos momentos tão bons.
A noite estava estrelada e, nos fundos da casa deles, perto de uma fileira de araucárias que emolduravam o horizonte, estendemos cobertores para deitar na grama e olhar para o céu. Ficamos ali durante horas. Contamos histórias uns aos outros, trocamos confidências e desabafos entre uma e outra estrela-cadente que fazia brilhar um sentimento profundo de gratidão. Naquele instante, éramos apenas humanos, errantes e cheios de incertezas e emoções. E que gostoso poder sentir o coração bater forte! Ali, sob o céu maravilhosamente estrelado, tive uma sensação que me reconfortou dos pés à cabeça. Olhando daqui da Terra, as estrelas pareciam estar juntas, lado a lado, embora tivessem entre si bilhões de quilômetros de separação. Da mesma forma, pude sentir que a amizade de verdade não tem fronteiras nem distâncias que não possam ser vencidas pela vontade de dividir nosso bem mais precioso: a vida.
(aos amigos Sônia, Luiz, Raíssa e Santiago)
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17/02/2010 às 11:26 Anonymous - diz:
Carolina Silveira – diz:Amigos! São tão importantes em nossas vidas, não é? Mas alguns amigos ausentes são mais importantes que muitos que estão perto e presentes. Amigos são aqueles que estão no nosso coração e não ao nosso lado!
17/02/2010 às 14:22 Anonymous - diz:
Cá – diz:Giu, faço minhas as palavras da Carolina, que escreveu este lindo e-mail…é pura verdade! Eu e o Durán que o diga! Por exemplo, vocês são amigos de coração, e cê não sabe como aperta a saudade, às vezes, mas foram muito sábias mesmo as palavras do Edilson…sabe Giu, fico pensando na Manu e no Kikico, um dia eles criarão asas, e sendo criados com a liberdade que têm, criarão poderosas asas, e quem poderá contê-los, não é? E que bonito vai ser ver isso acontecer, vai doer o peito, mas saberemos que estarao buscando seus caminhos, e sempre vão voltar prá nos contar suas histórias, dar um abraço forte, um sorriso, enfim, não é fácil mesmo, uma grande amizade é uma grande amizade…emoção muito bonita e gostosa de se viver! Bom, não vou casar nunca de dizer que amo vocês, de peito aberto, e que vocês vão crescer muito com todas estas emoções, tanto com a de construir seu canto, quanto a de construir amizades!Nós.
17/02/2010 às 16:32 Anonymous - diz:
Blog Kampa – diz:Enquanto isso na maioria dos bairros das grande cidades as pessoas tem “preguiça” de atravessar a rua para conhecer o vizinho.www.kampa.com.br/blog
20/02/2010 às 08:28 Anonymous - diz:
sonia britto – diz:Oi Giuler seu depoimento fez parte da minha terapia de lágrimas suaves, para curar uma conjuntivite que vem se arrastando desde novembro. Quando anoitece vejo tudo meio nublado e preciso descansar meus olhos. Para mim isso é simbólico- preciso estar na luz sair das trevas ou do lusco fusco, além de exercitar o discernimento das formas e dos fatosHá um ditado que diz que o pior cego é aquele que não quer ver e no momento quero muito ver o que é real, sincero e verdadeiro como a amizade por vcs, a unidade da minha famÃlia nessa decisão, o apoio de pessoas sinceras que convivem conosco no Clareando como a Adriana, Silvan,reconhecimentos inesperados e visões de outros ângulos. Certamente uma experiência muito rica e cheia de propósitos que aproveitaremos muito. Grata pela terapia!Sonia
20/02/2010 às 11:46 Anonymous - diz:
luiz – diz:…palavras pequenas palavras apenas palavras…Só que as suas são sempre carregadas de atributos!!!Sinto que fiz exaustivamente a minha parte tanto no contexto famÃlia no exercÃcio diário de indas e vindas,p.ex. 160 km para ir buscar o Licio para almoçar num domingo qualquer, ou num pequeno esquecimento de algo importante e ter que voltar.Lama, poeira, buracos, interdição etc’s e tais.No que concerne a”comunidade” ela ainda não existe, e sinceramente como já comentei com seu dignÃssimo esposo, de coração não quero nem saber se um dia….contudo fiz meu papel de denunciar aquilo tudo que ao meu ver nunca construirá uma comuna; excesso de regras de caretice impedindo a leveza de ser, foi e ainda por mais um tempinho, uma experiência a mais nessa vida que o que se leva é a vida que se leva,o resto bobagens.
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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