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O descaso com o lixo orgânico Giuliana Capello - 26/04/2011 às 15:19
Toda vez que assisto a uma discussão ou diálogo sobre o desafio do lixo urbano, algo me chama atenção: quase nunca se fala dos resíduos orgânicos. A coleta seletiva ou reciclagem (como muitos dizem) ainda é muito precária na maior parte do Brasil e, no entanto, costuma ser usada como palavrinha mágica para tapar um buraco que é, na verdade, bem mais fundo. Assimilada por poucos como algo restrito às quatro cores das lixeiras destinadas à separação dos resíduos, a ideia da reciclagem que reina no país ainda é bastante frágil: basta destinar plásticos, metais, vidros e papéis nas tais lixeiras coloridas e nossa parte já terá sido feita. Isso é pouco, acredite, muito pouco.Em primeiro lugar, imagino que um percentual considerável dos resíduos que chegam a ser separados pela população acaba em lixões e, quando muito, em aterros sanitários e não em cooperativas ou empresas de reciclagem. A logística de coleta e destinação correta desses materiais recicláveis, ainda hoje, é mais marketing e política de boa imagem de uns poucos bons moços do que propriamente um sistema organizado para resolver, de fato, o problema do lixo urbano. Em outras palavras, sua atitude de separar os resíduos em casa pode não surtir efeito positivo, dependendo da cidade onde você mora ou da estrutura de que ela dispõe para encaminhar corretamente esse tipo de lixo.
Assim, mais do que separar os recicláveis (atenção, não estou querendo desestimular ninguém!), resolver o destino dos resíduos orgânicos pode ser mais eficaz, ao menos por enquanto. E já que quase não existem políticas públicas para tal lixo, o jeito e a sugestão é cuidarmos dele em casa mesmo. Por que não? É mais fácil do que parece. Quem mora em casa ou na zona rural pode fazer uma composteira no quintal ou na área de serviço. Já aqueles que vivem em apartamentos e não acreditam em composteiras que não cheiram mal, uma alternativa pode ser manter um minhocário: alguns modelos são bem compactos, práticos e simples de manejar.
Com uma composteira ou minhocário em casa, você não precisará mais colocar o lixo para fora de sua casa eu não faço isso há uns seis anos, pelo menos. Os resíduos orgânicos serão transformados em adubo para as suas plantas, que você também poderá doar a amigos e vizinhos caso seja do tipo que só tem cactos em casa… Na prática, essa é uma maneira efetiva de ajudar sua cidade e o planeta a dispensarem menos tempo, dinheiro e outros recursos com a gestão do lixo urbano.
Acho muito ruim ficarmos apenas culpando o poder público. Imagine se toda a população de São Paulo parasse de terceirizar a gestão de seus resíduos orgânicos? Os impactos viriam em escala, em efeito dominó: teríamos menos pragas urbanas e doenças relacionadas à poluição do solo e da água (por acúmulo de detritos em locais inadequados); as prefeituras gastariam menos com a gestão do lixo e poderiam investir o dinheiro economizado (ah, se isso pudesse ser real mesmo…) em outras áreas, como educação ou transporte público; reduziríamos as viagens incontáveis que o lixo faz de um lado para outro da cidade até chegar ao aterro ou lixão a céu aberto; com isso, consumiríamos menos petróleo, colaboraríamos com o trânsito, evitaríamos a procura incessante por novos locais de depósito para o lixo; deixaríamos de assistir a acidentes como o que ocorreu esta semana em Itaquaquecetuba, SP, em que uma montanha de lixo urbano desabou sobre uma estrada próxima, afetando os moradores, espalhando contaminação e interrompendo o serviço de recebimento do lixo de outras prefeituras da região.
Em geral, sempre que se tenta concentrar um serviço ambiental e/ou de saúde pública em poucos e grandes espaços (um aterro sanitário para sete cidades ou uma estação de tratamento de esgoto para todo o município, por exemplo), os gastos com manutenção e logística tendem a ser compatíveis com o tamanho do empreendimento. Por que essa mania de grandiloquência? Melhor seria se as cidades tivessem pontos específicos para receber os restos de comida e podas de jardim. Penso sempre na ideia de aproveitar as escolas públicas para isso: elas receberiam os resíduos da comunidade, fariam a compostagem e usariam o adubo na horta que complementa a merenda das crianças. Um círculo virtuoso em que não somente os alunos aprendem, mas toda a população.
Se as cidades são abastecidas com produtos alimentícios de seus cinturões verdes, por que não devolver aos produtores os restos na forma de composto? Assim, em vez de termos cidades rodeadas por aterros e lixões clandestinos, teríamos um cinturão de agricultura com mais espaço e solo de boa qualidade para produzir – e não um cinturão de lixo. Sonho? Chamo isso de urgência, de necessidade. Imagine se cada habitante fizesse sua parte cuidando do seu lixo orgânico! Cerca de metade de todo o lixo urbano estaria resolvida, sem dezenas de caminhões circulando, sem a contaminação de áreas para despejo, sem afetar os moradores das áreas do entorno, sem contaminar os cursos dágua, enfim, sem todos os impactos inerentes ao serviço de coleta de lixo.
Na grande maioria dos lares brasileiros, o volume de resíduos orgânicos é maior do que o de resíduos gerados com embalagens plásticas, papel e latinhas de alumínio. Isso se explica porque, em geral, o poder de consumo da população está diretamente ligado à quantidade de lixo produzido por uma família. Quem tem menos, produz menos lixo, por razões óbvias. Está na hora de olharmos para o desafio do lixo urbano com mais seriedade e visão de futuro. A solução não cairá do céu. Será preciso mudar hábitos e antigos paternalismos. Comecemos, então, dentro de casa.
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Para ter uma composteira caseira
Foto: Pulpolux / Creative Commons
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14/09/2011 às 01:59 Blaze - diz:
At last, smnoeoe comes up with the “right” answer!
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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