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De onde vem a água que nos abastece? Giuliana Capello - 18/12/2012 às 12:16

Aqui em Piracaia, SP, depois de vários dias de chuva, a represa continua com um nível muito baixo de água. A ponte sobre um dos braços da represapor onde passo para chegar à cidade, que fica a 15 km da minha casa – virou, na verdade, um viaduto. Não há água o bastante nem para cobrir os pés das enormes colunas que sustentam a “ponte”. Essa situação me traz uma questão, que lanço agora a você: já parou para pensar de onde vem a água que abastece sua casa, sua cidade? Pois se ainda não fez isso, está feito o convite.

Muito se fala sobre o problema de escassez que se acirra dia após dia, em inúmeros países, microrregiões, bacias inteiras. A questão é que, para nós, o ato de abrirmos a torneira e termos acesso imediato a esse recurso essencial mascara uma condição bastante preocupante, e retarda a busca por soluções e estratégias para uma gestão mais sustentável.

Talvez você saiba, mas vale a pena lembrar, que apenas 2,5% de toda a água do planeta é doce e, desse percentual, mais da metade está “presa” nas calotas polares. Em outras palavras, somente 1% ou menos do total de água doce está disponível para consumo humano. Sobre isso, podemos até pensar que o Brasil está em posição privilegiada, em razão da aparente abundância do recurso – em números, estima-se que 12% de toda a água doce da Terra está concentrada em nosso país.

Mas, quando olhamos para esses dados com um pouquinho de espírito crítico logo descobrimos que, além dos desafios ligados à gestão do recurso, há ainda a questão da distribuição desigual de oferta e demanda do recurso. Cerca de 80% da água doce brasileira está na Amazônia, região que tem a menor densidade populacional do país. Isso explica, em parte, os motivos que levam a região metropolitana de São Paulo, por exemplo, onde moram 20 milhões de pessoas, a importar de outras bacias (situadas no interior e até em Minas Gerais) mais da metade da água que abastece sua população.

Esse sequestro de água de outras regiões, segundo especialistas, tende a aumentar cada vez mais, já que os sistemas locais produtores de água potável estão muito perto do limite de sua capacidade. Entram ainda nessa história o problema do desperdício, da má gestão, da poluição das fontes locais, do crescimento populacional, do aumento da demanda etc. etc. etc.

Voltando à minha cidade, essa demanda crescente por água na região metropolitana aumenta a necessidade de envio de água daqui para a capital e outras cidades. Nesses lugares, essa brincadeira de ‘escravos de Jó’ (“tira, põe, deixa ficar”…) faz de tudo para que os moradores não fiquem sem água. Mas e aqui, o que acontece? Há histórias de pessoas da zona rural que estão sentindo a falta de água, que estão cavando poços cada vez mais profundos para encontrar água, mesmo na estação que deveria ser a mais chuvosa do ano.

Grosso modo, a regra é clara: problemas ambientais atingem primeiramente as populações mais pobres, vulneráveis, sem força política. Isso ocorre porque quem define as políticas públicas e as regras do jogo corporativo tem uma visão colonialista de desenvolvimento, que se abastece a partir de saques e da exploração de outros territórios, vizinhos ou distantes milhares de quilômetros, não importa. Pense nos refugiados ambientais. Quem são eles? Há ricos e pessoas do “mundo desenvolvido” entre eles?

É urgente pensarmos em cidades mais sustentáveis, cidades que tenham condições de serem mais autossuficientes em termos de água (e também de energia e produção de alimentos). Enquanto houver vizinhos dispostos a ceder recursos, populações inteiras continuarão a ser abastecidas com água importada. Mas e quando isso acabar? E se os povos “saqueados” resolverem se manifestar contra essa cessão de um bem tão essencial? Quando passo pela represa de Piracaia e a vejo seca, penso logo nas pessoas que lavam suas calçadas diariamente com vassouras de água que vem daqui. E nas empresas que desperdiçam, e no agronegócio que tem uma fantástica pegada hídrica

Sim, não há fronteiras para os problemas socioambientais. Mas é mais do que necessário agirmos localmente. Aqui na ecovila, por exemplo, todas as casas são obrigadas a armazenar água da chuva para fins não potáveis. Minha casa só tem água potável em uma das torneiras da cozinha. O restante vem das cisternas de água da chuva: bacia sanitária, chuveiros, pias, lavanderia, tudo. Por quê? Porque estamos pensando em sustentabilidade, em um bom uso das nossas fontes locais de abastecimento (nascentes e poço artesiano). É preciso saber usar, valorizar a água que temos, não poluir, combater desperdícios.

Se todos fizerem o mesmo, teremos água por mais tempo. Se continuarmos nesse caminho de faz-de-conta, que camufla o problema com a importação de água de outros locais, a solução talvez ultrapasse o ponto de retorno possível para um cenário menos tenebroso. A escolha é de todos e de cada um de nós.

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Comentários

18/12/2012 às 17:39 Kleber - diz:

Olá Giuliana,

Semana passada tive a grande alegria de ajudar a proteger uma mina em um sítio da região onde moro.

É uma grande Emoção ir cuidadosamente retirando a argila daquele pequeno veio-dágua e aos poucos chegar nas pedras de onde ela flui Generosamente…

É necessário que ajudemos a proteger as nascentes… o trabalho é simples e o investimento é mínimo.

Grande abraço !!!

21/12/2012 às 17:30 Benedito Braga e os desafios da gestão da água em 2013 | Planeta em Perigo - diz:

[...] Quer um exemplo? São Paulo vai buscar água em quantidades enormes e cada vez mais longe (leiaDe onde vem a água que nos abastece, no blog Gaiatos e Gaianos). É preciso achar um riacho, fazer uma barragem ou um poço de água [...]

02/01/2013 às 10:13 Benedito Braga e os desafios da gestão da água em 2013 - diz:

[...] Quer um exemplo? São Paulo vai buscar água em quantidades enormes e cada vez mais longe (leiaDe onde vem a água que nos abastece, no blog Gaiatos e Gaianos). É preciso achar um riacho, fazer uma barragem ou um poço de água [...]

02/01/2013 às 14:09 Benedito Braga e os desafios da gestão da água em 2013 | Revista Ecoenergia - diz:

[...] Quer um exemplo? São Paulo vai buscar água em quantidades enormes e cada vez mais longe (leiaDe onde vem a água que nos abastece, no blog Gaiatos e Gaianos). É preciso achar um riacho, fazer uma barragem ou um poço de água [...]

12/09/2014 às 06:16 Gabi - diz:

Cuidando da água viveremos com um mundo bem melhor

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GIULIANA CAPELLO

é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque, permacultora e autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Senac São Paulo). É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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