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A conta de gasolina na ecovila Giuliana Capello - 02/03/2010 às 23:34


Era uma vez um grupo que queria criar uma comunidade sustentável, num lugar bonito, com natureza preservada, sem poluição, longe do barulho e da ansiedade da cidade grande. Na mente, tudo funciona, as pessoas se dão bem, os problemas são contornados em grupo e o tempo trabalha a favor de todos: cada novo amanhecer traz mais amadurecimento, mais conhecimento, mais experiência, mais sonhos transformados em casas, hortas e espaços para as artes. Mas como é que as pessoas se deslocam lá dentro e para fora da ecovila? De carro? Como é tratada a questão da mobilidade por lá? O autor dessas interrogações foi o amigo Thiago Guimarães, “blogueiro-vizinho” do Pra Lá e Pra Cá e especialista no assunto. Ele me escreveu dia desses perguntando sobre essas coisas e, por isso, resolvi compartilhar um pouco dessa história com vocês.

A área onde está nascendo a ecovila foi comprada porque contemplava uma série de quesitos importantes à proposta que se pretendia implantar ali: tem cinco nascentes de água puríssima, terra boa para plantar, áreas de antigo pasto para a construção de casas (que poderiam ser erguidas sem impactar a vegetação), uma pequena mata remanescente, ótima qualidade do ar, leis ambientais que restringem a implantação de indústrias na região, enfim, condições bastante atraentes para quem buscava um lugar para uma utopia.

Na época da fundação da ecovila, pouco se pensou a respeito da mobilidade, é verdade. Isso viria com o tempo e as pessoas. Hoje, quando penso nisso, me deparo com uma dura realidade: ainda vou continuar dependendo do carro para me deslocar quando estiver morando na ecovila. É triste, mas é real. Estamos a 15 km da cidade, sendo que metade do caminho é de estrada de terra. A maior parte do percurso tem relevo bastante acidentado e vencê-lo de bicicleta, no dia a dia, seria absolutamente inviável.

Vamos por partes: internamente, a ecovila tem cinco ruas, construídas de acordo com a lei do município para loteamentos urbanos. (Sim, apesar de estarmos na zona rural, a ecovila é classificada como loteamento urbano por conta do tamanho dos lotes individuais, de cerca de apenas mil m².) Por conta disso, as ruas internas tiveram de seguir um padrão da prefeitura. E que padrão é esse? Ruas largas o bastante para que carros possam circular em sentidos opostos simultaneamente. O velho e ruim urbanismo que privilegia carros e não pessoas. Tudo bem que lá temos poucos carros circulando, já que muita gente se desloca a pé. Mas nos dias de frio e chuva, ou de muito trabalho pesado no pomar ou em alguma construção, o carro acaba sendo mais prático e menos cansativo. Minha casa, por exemplo, fica na rua mais alta da ecovila. Uma subida e tanto desde a entrada da comunidade. Não é sempre que dá para fazer a pé – e de bicicleta é preciso ter fôlego e uma certa habilidade para contornar os pedriscos.

Para ir até a cidade, a única opção de transporte motorizado é o carro. Não existe transporte público para a ecovila – pelo menos, por enquanto. No máximo, uma perua escolar que passa por perto. Já pensamos em comprar uma charrete ou um cavalo para circular entre a ecovila e a cidade. Algumas pessoas chamam isso de delírio. Não sei.
Imagino que quando tivermos mais famílias morando lá será possível criar um sistema de caronas solidárias e, quem sabe, um sistema de car sharing, em que uma quantidade menor de carros (e de toneladas de CO2 para a atmosfera) supriria a demanda de mais famílias. Isso acontece bastante nas ecovilas mais antigas e estruturadas. Já vi até escala semanal para uso de carro: fulana usa na segunda-feira pela manhã, beltrano na segunda à tarde, e assim por diante.

De toda essa história, o que sinto é que não dá para ser 100% ecológico. Infelizmente. E desistir do projeto por conta disso seria insano. O jeito é tentar compensar o uso do carro de outras formas. Imagino que meu cotidiano será mais simples, com pouco consumo, pouco gasto com energia elétrica e mais trabalho na terra mesmo. Plantar parte do meu cardápio, por exemplo, será uma forma de descontar o CO2 que vem embutido nos nossos alimentos. Já parou para pensar nos quilômetros que tudo o que você põe no prato percorreu antes de chegar até você? E aquelas bugigangas chinesas que, cada vez mais, invadem os mercados e shopping centers? São viajantes vorazes!

Além disso, meu lugar de trabalho, como jornalista, será o escritório da minha casa, basicamente – como, aliás, já é atualmente. Não terei deslocamentos diários para ir e vir do trabalho, nem rush para gastar gasolina sem sair do lugar. Enfim, enquanto escrevo isso me vejo buscando um jeito de compensar o que não pode ser perfeito. Ou você acha que isso não me incomoda? Incomoda sim, e bastante. Mas se esse é o preço para ter uma vida mais tranquila e, apesar do CO2, menos impactante para o planeta, estou disposta a pagar. E vou torcer para que tecnologias e combustíveis mais limpos vençam logo a guerra do deixa-disso-que-assim-tá-bom, antes que minha consciência perturbe demais meu sono.

Foto: BedZed, nos arredores de Londres, é uma espécie de ecovila ou empreendimento sustentável em que a criculação de carros fica restrita a alguns bolsões de estacionamento. Somente alguns veículos movidos a energia elétrica podem circular internamente. Ai, ai, se em Piracaia pudesse ser assim…

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Comentários

03/03/2010 às 14:37 Anonymous - diz:

Claudia – diz:Oi, Giu. Acho que uma alternativa seria o GÁS NATURAL. Ele polui muito menos, pelo o que eu li. Têm algumas desvantagens para as pessoas, mas para o meio ambiente, pelo jeito, têm menos. Quanto ao CAVALO e charrete, se vcs optarem por esse método, apenas tem que ter cuidado em saber como tratar o animal para que não seja um trabalho abusivo a ele, como jornada curta de trabalho, acessórios adequados, amor, carinho, dedicação, abrigo e saúde – principalmente pq vc disse q lá na vila têm áreas de difícil acesso e ele pode cansar rápido e até se machucar. Vcs podem encontar algumas informações sobre cavalos no site http://www.anjodoscavalos.org.br e saber dos direitos e necessidades desses lindos animais! Beijos e parabéns pelo blog.

03/03/2010 às 16:37 Anonymous - diz:

Claudia – diz:Ah, outra coisa: nesse mesmo site http://www.anjodoscavalos.org.br vcs podem adotar cavalos. Adotar é sempre melhor que comprar, né, e é isso que faz a sua história com a Sophia ser tão especial! E não só adotar 1 como, se possível, adotar 2, de preferência um casal (castrado), pois os animais vivem muito melhor se conviverem com outro(s) animal(s) da mesma espécie. É isso aí! Beijo grande!

04/03/2010 às 13:07 Anonymous - diz:

Ludmila – diz:Bicicleta elétrica não seria uma boa? o custo é de 1 centavo por km e após a carga tem muita autonomia, até porque ela soma o movimento feito pela nossa energia com o movimento elétrico, o ideal é acionar o motor nas subidas e trechos mais difíceis.eu e meu marido estamos pensando nesta opção em São Paulo, enquanto moramos aqui…existem modelos com valores acessíveis!um bjoLudmilaJornalista

07/03/2010 às 20:37 Anonymous - diz:

– diz:Giu,Sabe, se a idéia for ter filho, saiba que as necessidades com certeza se modificam, e o carro, ainda mais sendo o local escolhido de difícil acesso, se torna no mínimo obrigatório, e aí a realidade é que entra em jogo…experiência própria! (Tenho certeza que muitos podem discordar, mas quando se vira pai e mãe, a coisa muda muito de figura…)Beijos!Cá.

08/03/2010 às 09:56 Anonymous - diz:

Hernando – diz:Giuliana, como faço para enviar uma sugestão de tema para você?

09/03/2010 às 11:56 Anonymous - diz:

Giuliana – diz:Olá, Claudia, adorei seus comentários e vou pesquisar sobre a adoção de cavalos. Adorei! Não conhecia nada sobre isso. E pode ficar tranquila quanto ao bem-estar dos animais. É condição fundamental! Ludmila, obrigada pela sugestão. Vou pesquisar sobre bicicletas elétricas. Cá, concordo com você, viu! Tem hora que não dá para escolher… Hernando, vou enviar um email pra vc. Assim, mantemos contato e vc me conta sua sugestão, que tal? Abraço grande a todo(a)s!

09/03/2010 às 13:05 Anonymous - diz:

Thays Amanda Ferreira Bastos – diz:Boa tarde Giuliana, sou estudante do último ano do curso de jornalismo.Estou desenvolvendo projetos de Programas de Rádio, TV, Mídia Impressa e Mídia On line.Voltado aos microempresários de 28 à 60 anos.Li o seu blog, achei muito interessante e gostaria de convidá-la a participar de um dos meus projetos como fonte de construção sustentável.Estudo na Faculdade UNINOVE, e desde já lhe asseguro que tudo será dentro dos conformes(entrevistas com direito de imagem), ou por telefone caso o entrevistado prefira.Espero que possa me retornar me dizendo que se interessou pelo projeto e que possamos ter um contato mais próximo.Aguardo seu retorno.Agradeço desde já sua atenção.Thays Amanda

09/03/2010 às 17:23 Anonymous - diz:

Hernando – diz:Giuliana, obrigado pela atenção. Estarei aguardando o seu contato.

16/03/2010 às 15:31 Anonymous - diz:

Giuliana – diz:Olá, Thays, será um prazer se eu puder ajudá-la em seu projeto. Vou escrever para você. Assim, estabelecemos contato, ok? Hernando, recebeu meu e-mail? Abraços, Giuliana

26/03/2010 às 00:06 Anonymous - diz:

Claudia – diz:Oi, Giu! Fico imensamente feliz que vc tenha gostado do que eu escrevi a respeito dos cavalos. Sou uma ativista pelos animais e me alegra muito saber que outras pessoas também se preocupam pelo bem-estar deles. Já que vc disse não conhecer muito sobre adoção de cavalos, imaginei que vc acharia interessante saber sobre outras adoções. Existem ongs de adoção para praticamente todas as espécies animais: galinhas considerads defeituosas pelos criadores que seriam jogadas no lixo (literalmente)são resgatadas e doadas; coelhos e ratinhos de laboratório que passam por testes cruéis e desumanos também são resgatados e vão para adoção, porcos, cavalos, passarinhos, gatos, cães…tem ong para tudo!!As pessoas acreditam que só conseguem ter um animal, mesmo cachorro ou gato, se os comprarem…eu mesma pensava isso antes de ser ativista. Então, sempre que precisar de um animal, lembre-se que não precisa comprá-lo! Grande beijo!

26/03/2010 às 00:08 Anonymous - diz:

Claudia – diz:Oi, Giu! Fico imensamente feliz que vc tenha gostado do que eu escrevi a respeito dos cavalos. Sou uma ativista pelos animais e me alegra muito saber que outras pessoas também se preocupam pelo bem-estar deles. Já que vc disse não conhecer muito sobre adoção de cavalos, imaginei que vc acharia interessante saber sobre outras adoções. Existem ongs de adoção para praticamente todas as espécies animais: galinhas considerads defeituosas pelos criadores que seriam jogadas no lixo (literalmente)são resgatadas e doadas; coelhos e ratinhos de laboratório que passam por testes cruéis e desumanos também são resgatados e vão para adoção, porcos, cavalos, passarinhos, gatos, cães…tem ong para tudo!!As pessoas acreditam que só conseguem ter um animal, mesmo cachorro ou gato, se os comprarem…eu mesma pensava isso antes de ser ativista. Então, sempre que precisar de um animal, lembre-se que não precisa comprá-lo! Grande beijo!

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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