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O céu de todos e de cada um Giuliana Capello - 04/05/2010 às 12:17
Já faz um tempo que tento me religar a um ritmo mais natural, o das fases da lua, das estações do ano, do dia e da noite, enfim. Para mim, boa parte do nosso afastamento da natureza pousa no fato de que estamos (nós, urbanóides), boa parte do tempo, em ambientes fechados, herméticos, com ar-condicionado e pouca paisagem externa. Raros são os escritórios que têm luz natural, ventilação natural. Há aqueles que até têm grandes painéis de vidro, mas estes são quase sempre ligeiramente escuros, de modo que modificam as cores do lado de fora e, assim, distanciam o observador da coisa vista. Triste.
Lá fora, chove, faz sol, formam-se nuvens, o vento altera a sensação de temperatura, os cheiros da cidade mudam e, no entanto, nada disso é sentido por aqueles que passam o dia enfurnados num prédio em que tudo é sempre igual. Quando penso nisso, sinto-me feliz pelo privilégio de trabalhar mais em casa, com o escritório voltado para o pequeno jardim da casa, e com minha cachorra invariavelmente aos meus pés, indicando a passagem do tempo: depois de um cochilo, ela se levanta e dá uma boa espreguiçada. Para mim, também é hora de levantar um pouco, esticar as pernas, fazer um café e sentir por dois ou três minutos, no quintal, o calor manso do sol de outono.
Em março, uma amiga muito querida me convocou para um evento-surpresa. Passou-me um endereço e pediu que eu fosse até lá no dia e hora marcados. Fui. Era um ritual da lua cheia da Páscoa, momento de celebrar, sentir a influência da lua, pedir forças, observá-la. Foi delicioso. No meio da efervescência de São Paulo, achei fantástico estar numa casa com um grupo de mulheres (naquele dia, os homens não apareceram), trocando saberes e rituais esquecidos no tempo e nas tecnologias.
Gosto de saber em que fase a lua se encontra, e fico chateada quando alguém, por algum motivo, me pergunta e eu não sei a resposta. Sinto-me desligada da natureza, fora do eixo. Gosto, por exemplo, de sentir que quando estou mais tranqüila, mas sintonizada, minha menstruação segue direitinho o ciclo de 28 dias da lua. Tudo flui de maneira mais leve, sinto-me mais integrada ao planeta, sei lá.
É engraçado como essas coisas, para muita gente, soam tecnologia ultrapassada, desnecessária, dispensável. Discordo. Ontem, coincidentemente, reli um conto do Caio Fernando Abreu chamado O dia que Urano entrou em Escorpião (do livro Morangos Mofados). Não vou contar a história porque a leitura vale muito mais, mas queria apenas citar o trecho em que um jovem provoca enorme estranheza quando entra na sala agitado e diz aos amigos que Urano estava entrando em Escorpião. Talvez não tivessem entendido direito, ou não quisessem entender. Ou não estivessem dispostos a interromper a leitura, sair da janela ou parar de comer a perna de galinha para prestar atenção em qualquer outra coisa, principalmente se essa coisa fosse Urano entrando em Escorpião, ou mesmo Júpiter saindo de Aquário.
Realmente, pouca gente ainda hoje se liga no céu, nos astros e estrelas. Uma pena. Domingo passado estive no Planetário do Ibirapuera. Que experiência deliciosa! Desde a infância que não pisava ali. Estava mais uma vez com a amiga que me levara à lua cheia de março. Desta vez, com a filhinha dela. Para mim, a cena mais impactante foi ver o verdadeiro céu da cidade, com milhares e milhares de estrelas. Um impacto que chegou a me emocionar por, caetaneando, ter sempre estado oculto quando terá sido óbvio, escondido nas luzes dos prédios, das ruas, dos carros. Poluição luminosa.
Outra coisa que me fascinou foi perceber o interesse da pequena por tudo que ela via. O que é isso, mamãe? foi a pergunta que ouvi, pelo menos, umas vinte vezes, já que me sentei ao lado dela. Naquele instante, senti que essa distância que estabelecemos do céu vem com o tempo e as mixarias do cotidiano que ofuscam as coisas que realmente têm importância na vida. Olhar para o céu afaga a alma, expande o horizonte, deixa os problemas menores ou no mínimo – do tamanho que eles têm de verdade.
Para terminar, deixo aqui uma sugestão para os paulistanos. Entre no site dos planetários de São Paulo e consulte a programação deliciosa gratuita e/ou com preços bem acessíveis. Tem aula de astronomia, sessões de observação do céu, banho de lua, atividades infantis e muito mais. No limite, se você mora numa cidade que não tem um planetário, tudo bem. Para ver o céu, com ou sem a ajuda de telescópios, basta olhar para o alto, ainda que de vez em quando.
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07/05/2010 às 23:03 Anonymous - diz:
LADY DELL(consultora esoterica) – diz:Adorei td que vc falou e comentou..de fato cada vez mais parece q estamos confinados a deixar de lado os nossos sonhos..A lua e o sonho…suas fases..cada uma fazendo o seu papel…feminina…corretissima…pena que nem tds se guíam por ela…mas…a natureza reage..firme e forte..por bem ou por mal…iremos olhar pro ceu…ou pro calendario …na marra!!..abraçolady dell
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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