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Uma casa para abrigar nossos sonhos Giuliana Capello - 15/09/2009 às 15:18


Agora que minha casa na ecovila já tem paredes o bastante para só permitir a entrada pelas portas, olho para trás um pouquinho e me lembro do tempo em que ela era só um rabisco num pedaço de papel. Eu e meu companheiro passamos noites e noites pensando sobre como queríamos a casa, que tipo de atividades ela poderia estimular, quantos quartos teríamos e para quem (um bebê, por exemplo?), de que materiais ela seria, enfim. Sonhos desenhados com lápis e canetas coloridas no verso de papéis reservados para servirem de ‘rascunhos’.

A diferença era que estávamos falando de sonhos que nasciam com a intenção de pousar na realidade. Então, era curioso notar como muitas vezes sonhávamos com coisas que pareciam importantes, mas com o tempo e o refletir tornavam-se caprichos, inutilidades, bobagens de quem nunca havia parado para pensar tão seriamente sobre o que realmente é importante para a sua vida. Uma banheira na varanda? Não, definitivamente não. Podia até ser divertido imaginar um banho de imersão em meio a uma paisagem fantástica, mas isso não representava o cerne da nossa proposta. Queríamos a chance de erguer paredes de terra, preparar o barro com os pés numa roda de amigos, olhar para a casa no fim de um dia inteiro de trabalho e poder dizer: “ficou linda”.

Quando chamamos uma amiga arquiteta para transformar nossos desenhos em projeto técnico, tínhamos uma prioridade clara. Pedimos a ela uma estrutura de madeira de reflorestamento que pudesse receber nas paredes as mais diversas técnicas de bioconstrução. Em outros termos, desejávamos flexibilidade para vedar as paredes com o que tivéssemos à disposição e, sempre que possível, de maneira experimental. Foi assim que ela nos entregou um ‘paliteiro’ de eucalipto citriodora que comportaria qualquer tipo de parede, já com telhado pronto, metade verde, metade com telhas cerâmicas. Tínhamos em mãos um grande brinquedo de gente grande, um misto de Lego e massinha de modelar. Irresistível.

Tanta flexibilidade, porém, nos fez pensar e repensar muitas vezes sobre cada parede. Eram tantas as possibilidades que, em alguns momentos, ficava difícil decidir qual delas adotar: uma parede de adobe, COB, pau-a-pique, solo-cimento, pedras, toquinhos de madeira, garrafas de vidro, cruzetas ou ainda outro material? Talvez por isso, intimamente, apelidamos a construção de patchwork. É bem isso mesmo. Ela tem um pouquinho de cada coisa, retalhos e histórias que se emendam para dar vida aos nossos sonhos.

Sim, os sonhos. Eles mais uma vez apareciam para nos ajudar a priorizar aquilo que era mais importante: contratar uma equipe grande de mão-de-obra para terminar a casa o mais depressa possível, escolher materiais fáceis de usar e mais baratos ou deixar um pouco o relógio do tempo de lado e curtir todas as fases da obra, imprimindo nossa energia em cada pedacinho novo que surgia? Embora a ansiedade, às vezes, tomasse conta de nossos propósitos, a última opção sempre prevalecia e ainda hoje rege nossas escolhas para a casa.

É como se a cada semana a casa se transformasse, de acordo com o estado de espírito dos futuros moradores. Quando estamos mais ousados, lá vêm as experiências mais malucas, como fazer uma suíte com banheiro seco (compostável) ou resolver criar uma praça no meio da sala, com direito a bancos de madeira, flores e bambu mossô. Nos dias nublados e mais introspectivos, lá íamos nós lamentar a demora da obra, vacilando entre contratar pedreiros ou adotar logo alguma técnica mais convencional e rápida de executar.  Sem falar nos momentos de crise (que todo casal tem) que pareciam entristecer a casa, abandonada por dias e dias no alto da ecovila…

Agora, no entanto, a primavera desponta no horizonte. E com ela a vontade de florir, de deixar germinar, de abrir-se para o novo, de ver brotar da terra o fruto do trabalho. Não por acaso as duas últimas semanas foram muito produtivas na minha casa. Quando entramos em sintonia com os ciclos da natureza, esses períodos de turbulência e tranquilidade, trabalho e hibernação, entusiasmo e preguiça parecem nos desequilibrar menos. Afinal, sentimos cada um deles como apenas mais um ciclo, que vai passar, mais cedo ou mais tarde. Aceitar esses momentos e buscar dançar conforme a música é um aprendizado para toda a vida – que, aliás, pode começar hoje.

Ainda há muito trabalho pela frente. Duas paredes internas, todo o piso da casa, elétrica e hidráulica. Em obras convencionais, costuma-se dizer que esta é a fase mais cara. Para nós, no entanto, que não pretendemos usar mármore carrara nem qualquer outro material que carregue uma extensa lista de rastros danosos ao meio ambiente, a aposta é outra. Já temos tacos de peroba de demolição (doados por um amigo) para os dois quartos e outras pequenas sobras de construções da ecovila que, gentilmente, nos foram cedidas por vizinhos queridos. Mais uma vez, a ideia do patchwork deve servir de inspiração para os acabamentos da casa.

Temos muitos sonhos para esta primavera. Sobras de ladrilhos hidráulicos para a cozinha, mosaicos de cerâmica para a entrada da casa, paredes de toquinhos da madeira que sobrou da estrutura, tinta de terra e cal para clarear a casa de maneira saudável. A cada novidade, uma nova semente plantada nesse imenso jardim de ideias que, muito em breve – antes mesmo do outono – será o meu lar. 

 

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Comentários

15/09/2009 às 16:50 Anonymous - diz:

Mariana – diz:oi, Giuliana! sempre venho aqui e acompanho de longe-perto o que você escreve. muitas vezes sorri junto! mas esse post em especial fez meu coração encher de alegria e esperança de que um dia eu chego lá. tenho sonhos parecidos, sem expectativa cronológica de concretizar, mas que através de você vejo como é possível! imagino o quanto seu coração tá transbordando de felicidade, de realização, e agora que tá tudo mais perto que longe deve dá uma certeza de estar no caminho certo. parabéns! boas energias pra vocês e pro lar-ecológico-doce-lar.

15/09/2009 às 17:36 Anonymous - diz:

– diz:oiê, deixei um recadinho procê no outro texto…beijos e muito amor e sorte prá vocês!

15/09/2009 às 20:04 Anonymous - diz:

Vera Lucy – diz:Olá, Giuliana ! Adorei ler essa trajetória de vocês. Também tenho vontade de fazer uma casa que cresça organicamente… com a energia das nossas mãos e a dos amigos… seguindo o caminho do coração…Um abraço.

17/09/2009 às 09:01 Anonymous - diz:

Carlos Pittella Leite – diz:Que bela casa! Que belo sonho de casa!Seu modo de escrever releva o verdadeiro sentido de “Ecologia” = o estudo da Casa.Isso é: se tornamos nossa casa ecológica, nós nos tornamos ecológicos e, por conseguinte, o mundo. Parabéns pelo sonho, coragem e realização!

17/09/2009 às 09:04 Anonymous - diz:

Carlos Pittella Leite – diz:Que bela casa! Que belo sonho de casa!Seu modo de escrever releva o verdadeiro sentido de “Ecologia” = o estudo da Casa.Isso é: se tornamos nossa casa ecológica, nós nos tornamos ecológicos e, por conseguinte, o mundo. Parabéns pelo sonho, coragem e realização!

18/09/2009 às 23:37 Anonymous - diz:

Cláudia Mello – diz:Giuliana, estou tão emocionada lendo tudo isso!Sou carioca, mas moro em São Lourenço (Sul de Minas) há 16 anos. O marido veio do Rio tb, há 4 anos. Estamos neste exato momento com todas as interrogações na cabeça (e pouco dinheiro para gastar) dando os primeiros passos no planejamento da nossa casa.Muitos suspiros, desenhos, pesquisas na internet, contato com pessoas mais experientes e aquela velha pergunta: o que uma ex-jornalista e um ex-analista de crédito entendem de meter a mão na massa e construir sua própria casa? Nada, né? Mas de sonho a gente entende bem e estamos sonhando com a nossa casa.O mais fácil? O mais fácil é continuar no aluguel, na casa onde moramos, que é clara, espaçosa, bem localizada e ainda tem um espacinho de terra que nos rende couve, agrião, pepino, capim-limão, muitas amoras e bananas e mais um monte de ervas aromáticas. na verdade, alguns amigos nos consideram loucos! Pois queremos construir em um local de área rural (São Lourenço praticamente não tem área rural), num bairro pobre, bioconstruída, com cara de casinha de fada e com nossas mãos.Devemos ser loucos mesmo…rsrsrsQue bom!!!!Vc me inspirou contando a sua história.beijo carinhosoCláudia

19/09/2009 às 12:58 Anonymous - diz:

penha vallim – diz:Tambem tive um sonho, realizei e me chamam de maluquinha, não ligo, sou feliz,meu sorriso é constante. Continue assim.Chegue aos 70 como eu, aprendendo a alhar para tras e valorizando cada respiraçao nesta felicidade. Muitos beijos.No meu sonho não existia ECOVILA e sim AMOR E CABANA. Valeu mesmo.Recreio dos Bandeirantes-condominio Maramar

22/09/2009 às 09:51 Anonymous - diz:

Giuliana – diz:Penha, Cláudia, Carlos,Vera, Cá e Mariana: agradeço de coração pelas palavras gentis de vocês, que me dão força para seguir adiante, passo a passo. Sentir que não estou só me ajuda a manter o entusiasmo. E mais: adoro quando contam um pouco de vocês. É como se estivéssemos um pouquinho mais perto, mais íntimos até. Essa troca é sempre muito rica – e vocês também me inspiram, podem crer. De coração, um grande abraço, com gratidão e muita energia boa para motivar a realização dos seus sonhos!

01/10/2009 às 19:35 Anonymous - diz:

Rosaria – diz: Você poderia me indicar a onde eu obtenho informações de como se constrói um banheiro compostável. Nós compramos uma chacara e gostaríamos de ter um. Obrigada. Rosária

05/10/2009 às 11:14 Anonymous - diz:

Giuliana – diz:Olá, Rosaria, escrevi sobre banheiro compostável aqui no blog. Tem algumas informações lá no texto. Se quiser ler, entre no link http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/gaiatos/63863_post.shtml. Você também pode entrar em contato com o pessoal do IPEC de Goiás. O site deles é http://www.ecocentro.org. Muito bacana a sua iniciativa. Boa sorte! Um abraço, Giuliana

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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