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Sobre as boas tradições Giuliana Capello - 13/07/2010 às 12:59
Fui para a ecovila no feriado e levei comigo uma intenção: a de me desintoxicar, física e emocionalmente. Assumi um compromisso comigo de falar menos, comer menos, fazer mais yoga, respirar mais conscientemente, observar mais a natureza, enfim, estar mais em contato comigo e com a natureza.
Tive algumas dificuldades, é claro, especialmente no que se refere à alimentação porque a comida na ecovila é sempre muito gostosa e acaba sendo um exercício árduo manter-me longe das guloseimas que os amigos preparam a toda hora…
Ainda assim, consegui prestar mais atenção a uma série de situações de que gosto muito e me fazem bem. Um exemplo é sentar com os amigos ao redor de uma fogueira. Isso já é praticamente uma tradição na ecovila. Depois do anoitecer, acendemos uma fogueira e ficamos conversando e observando o céu, sempre tão inspirador. Lua nova, então, é uma maravilha. Dá para ver a Via Láctea e milhares de estrelas. Os bichos também costumam aparecer, fazem uma trilha sonora encantadora. No domingo à noite tinha uma coruja falante na árvore, bem pertinho da gente.
Por que será que a fogueira mexe tanto comigo? Aliás, não só comigo. Todos que estavam lá pareciam hipnotizados pelo fogo. Quando percebi isso, comecei a imaginar nossos ancestrais mais distantes, distantes de verdade, e que já se reuniam em torno de fogueiras. Essa é uma tradição muito antiga, talvez por isso tenha tamanha força e expressão. Gosto muito quando estou diante de uma situação que parece me conectar com milhares de gerações humanas que já passaram por nosso planeta. É quase um ritual religioso, no sentido do religare, da reintegração e conexão com os povos antigos e com a natureza.
Observar o céu segue pela mesma trilha. Tradição de povos antigos, que se orientavam pelos astros e estrelas, sonhavam, previam o futuro, celebravam as forças da natureza. É um ato simples que tem uma força incrível. Algumas árvores que vivem centenas de anos também conservam essa força. Recentemente, entrevistei um designer de móveis que cria peças a partir de toras de pequi que ele encontra no sul da Bahia, ou caídas ou já mortas. Durante a conversa, ele me disse que o pequi é uma árvore que chega a viver 1200 anos e que, por isso, boa parte da madeira que ele emprega em seu trabalho havia presenciado a chegada dos portugueses na costa brasileira, mais de 500 anos atrás. Fiquei muito intrigada com aquilo. E agora, escrevendo para você, lembrei-me de uma cena linda do filme Avatar (pode?), quando o povo da floresta vai até a árvore dos ancestrais para ouvir o que eles têm a dizer…
É mais ou menos por aí. Se pararmos para observar, veremos que a natureza e suas forças estão por toda parte indicando caminhos, dando sinais, pedindo a nossa atenção. Árvores contam histórias, bichos se comunicam a todo instante, a chuva e o vento trazem recados, a lua, o fogo, os alimentos cultivados de forma orgânica, o passar das estações e seus descompassos atuais, a paisagem inconstante, as sementes, tudo nos traz informações. Só é preciso estar atento para ler e sentir as mensagens.
Cada vez mais estamos imersos num mundo com excesso de informação. Mas isso não significa necessariamente conhecimento. Filtrar o que queremos receber é fundamental para não entupir nossos canais de percepção do mundo. Ouvir a natureza é uma boa maneira de aprender a selecionar as informações que chegam até nós. E, por fim, acredito que é mais importante aprender a ouvir a natureza e os recados emitidos 24 horas por dia pelo planeta em que vivemos do que estar com a leitura dos jornais em dia (que me perdoem os jornalistas e todos que se sentem desinformados quando perdem o telejornal da noite ou passam um dia sem abrir o email)…
ver este postcomente
09/08/2010 às 09:51 Anonymous - diz:
Michel – diz:Tudo a ver! Devemos lembrar que sabedoria não é conhecimento. Sabedoria é intuição e sensibilidade. O sábio caminha o caminho oposto ao do conhecedor.Em breve nos encontramos em um fogueira.http://michelcantagalo.blogspot.com/
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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