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Belo Monte, Rachel Carson e minhas velas artesanais Giuliana Capello - 29/11/2011 às 19:34
Tão longe, tão perto. Não é por estar numa ecovila rural que questões cruciais como a construção da hidrelétrica no Pará não me dizem respeito. Pelo contrário. Fazer parte de um projeto de vida em comunidade, com foco em caminhos mais sustentáveis, parece-me bom pretexto para ficar sempre de olho no que acontece fora de nossas fronteiras físicas – fora em termos, né, porque quando o assunto é meio ambiente as teias invisíveis ligam tudo e todos, inevitavelmente.
Ontem mesmo eu estava fazendo umas velas artesanais (com parafina reciclada de velas antigas, para iluminar a casa de forma mais orgânica e gastando menos energia), e fiquei pensando sobre meus gastos energéticos. São pensamentos que chegam de fininho para me lembrar que todo o mundo de botõezinhos que aperto (sem nenhum esforço) para ligar aparelhos, acender lâmpadas ou usar o chuveiro custa caro ao planeta. E como custa.
Belo Monte é exemplo morto-vivo dessa contabilidade sem lastro, de futuro sombrio. Pelo princípio da prevenção, constituinte de muitas leis ambientais, “na dúvida, é melhor não fazer”. Mas não. Querem fazer apesar da polêmica, dos laudos técnicos que provam ser absolutamente indesejável construir a usina, dos bilhões de reais envolvidos, das populações atingidas, dos animais e da flora que serão afetados, enfim, da lista imensa de razões para desistir enquanto é tempo.
Aqui na ecovila, como estamos na zona rural, a 15 km da cidade (que fica, por sua vez, a 100 km de São Paulo), energia elétrica não chega a ser um bem óbvio. Muitos sítios vizinhos ainda não têm luz, nem telefone, nem internet… O consumo é baixo e bastaria uma pequena central de energia solar ou eólica, por exemplo, para dar conta do pedaço, de forma descentralizada e com mais autonomia para a população. Várias pequenas usinas, espalhadas por nosso território-continente seriam mais eficientes do que poucas estruturas megalomaníacas (e, ainda por cima, ineficientes, em muitos casos).
Soma-se a isso o fato de que são muitos os brasileiros que vivem em condições semelhantes ao meu entorno. E isso me faz relembrar um dado que poucos notam no dia a dia: não é a população a responsável pelo clima que se criou no país de constante medo de um apagão – algo que pudesse, nas entrelinhas, justificar parte da opção teimosa e equivocada por Belo Monte.
Só uma porção relativamente pequena da energia consumida no Brasil corresponde aos gastos energéticos referentes às residências – e isso inclui os condomínios de cinco torres de 30 andares que as construtoras vendem como supra-sumo da qualidade de vida. Os grandes ‘vilões’ da demanda energética em curva ascendente são as grandes indústrias transformadoras de matérias-primas que, míopes acerca da finitude dos recursos naturais, insistem em estipular metas malucas de crescimento da produção de alumínio, cimento, ferro-gusa etc.
Crescer, crescer, crescer… Será que o Brasil só tem olhos para isso?!?
Em 1962, a cientista americana Rachel Carson publicou Primavera Silenciosa, livro que denunciava os impactos provocados pelo uso do DDT, que estava exterminando a águia considerada símbolo dos EUA – além de contaminar pessoas e poluir a água, a terra e o ar. Na época, a repercussão da obra gerou uma pressão popular sobre o governo, que acabou por proibir a aplicação do defensivo agrícola. Rachel afirmava que a obrigação de conviver com o produto gerava na população o direito de saber seus efeitos.
Traçando um paralelo entre o pensamento de Rachel e a teimosia asquerosa de Belo Monte, vem a indignação de sentir poucos avanços em tantas décadas. E é por isso que o tema central de seu livro continua atualíssimo: decisões tomadas de cima para baixo, sem ligar para as gerações futuras, de olhos vendados para soluções alternativas e sem escutar a população (está no Aurélio: escutar significa estar atento para ouvir, prestar atenção para ouvir alguma coisa).
Sob essa perspectiva, encaro Belo Monte com muita indignação. Alguém pode dizer: “essa obra não vai me afetar, não tenho nada com isso”. Engano. Mentira. Alienação do tal espírito do tempo. Belo Monte é símbolo de um país que se rendeu, mas que ainda pode se inspirar na história de Rachel para fazer desta uma primavera de gente que cansou de ficar calada, de vozes que protestam e pedem mudanças. E quando sinto isso, daqui do meu canto, entre velas e uma instalação elétrica feita pelo meu marido (que pensou no mínimo, no mais simples), vejo o quanto ainda preciso aprimorar minha parte nessa história e, quem sabe, com sorte, dar uma mãozinha para incentivar outros a assumirem o mesmo compromisso – sim, porque não quero ser parte desse silêncio frustrado e acho que você também não quer.
ver este postcomente
30/11/2011 às 13:31 DIANA - diz:
Então quer dizer que o País só pensa em Crescer, crescer e crescer… Quantas pessoas vivem em áreas de risco? qtas pessoas estão passando fome? Não precisa falar de nordeste, aposto que bem próx a sua casa tem uma criança desnutrida, um sem teto… Convenhamos, alguns “ambientalistas” não sabem o que falam… o Brasil tem um déficit em infraestrutura e moradia mto grande… E precisa sim de mais energia.. A tem a eólica, a solar… Mas peraí… De quantos painéis solares precisaria? Qual a área p instalação destes painéis? E o ruído que a eólica produz???… O Brasil precisa crescer!!! E os ambientalistas precisam crescer juntos…
ABRA S SUA MENTE…
30/11/2011 às 13:33 Luanna Oliveira - diz:
Fantastico o texto. Eu nao quero fazer parte desse silencio, nao quero ser a responsavel por deslocar tribos indigenas de seu habitat, nao quero ser a responsavel por mais degradacao ambiental e nao quero ver a corrupcao correndo solta na construcao e ficar calada. Sao muitos outros aspectos, que temos que abrir os olhos e dizer nao a belo monte!
30/11/2011 às 22:02 Janete Canteri - diz:
Giuliana,
Devemos assinar o movimento contra a construção da usina de Belo Monte.
Abraços.
30/11/2011 às 23:19 Shadik - diz:
Concordo com vc q a autossuficiência energética é possível, principalmente descentralizando os sistemas de geração e buscando alternativas de geração solar, eólica, energia produzida pelas ondas do mar, biomassa… Meu sonho é aplicar todo esse conhecimento num lugar que seja auto sustentável energeticamente.
Ótimo texto.
01/12/2011 às 12:10 Giuliana Capello - diz:
Diana, agradeço por ter postado seu ponto de vista. Discordo, porém, que crescimento caminhe junto com melhorias na qualidade de vida da população. Isso nem sempre é verdade. Mais do que crescer, precisamos distribuir melhor a renda, reduzir a desigualdade social. Do mesmo modo, o país precisa saber aproveitar melhor a energia de que já dispõe (sem perder eficiência com o tempo), e colocar a população – e não as corporações – no foco de suas prioridades de ação. Lembro-me de um estudo técnico sobre energia solar que dizia que se a área inundada de Itaipu fosse coberta por placas fotovoltaicas, geraríamos o dobro de energia – e sem precisar perder áreas de florestas, sem matar animais, sem deslocar populações inteiras de suas terras… Precisamos discutir mais e mais sobre nossa plataforma energética. Sim! Dialogar, participar mais, abrir os olhos. Mais do que a mente, é preciso abrir o coração.
02/12/2011 às 11:20 Martin Winter - diz:
Do ponto de vista ecológico, uma cidade grande não acrescenta nada, no meu entender.
06/12/2011 às 00:50 Thiago Silva - diz:
Diana, se me permite uma sugestão, procure e tente assistir a um filme chamado Mindwalk (O Ponto de Mutação, no Brasil). É um tanto antigo e difícil de encontrar, mas creio que ele poderá lhe proporcionar momentos de reflexão interessantes. Caso não encontre, outra opção bacana para pensar melhor no assunto é o filme The Story of Stuff (disponível gratuitamente em http://www.storyofstuff.org/movies-all/story-of-stuff/). Você acabará percebendo que a questão não é mais sobre “capitalistas x ambientalistas”: ela passou a envolver esferas muito maiores. Abraços!
14/12/2011 às 16:14 Vanessa Gomes - diz:
Mais impressionante do que este magnífico texto, são alguns comentários a respeito dele que se seguem. Me entristece ter a possibilidade de observar a carência de percepção e valores humanos que estamos vivendo…
21/12/2011 às 13:45 Hanna - diz:
Ainda tenho muitas dúvidas a respeito de Belo Monte, e confesso, ainda não ter uma posição definida. Mas, como poderemos interfirir em um país onde o dinheiro fala mais alto? Onde a corrupção toma conta de todo nosso sistema político?
Penso que Belo Monte é mais uma forma de arrancar dinheiro e lesar o povo.
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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