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Aqui e agora Giuliana Capello - 27/04/2010 às 11:31

É difícil confessar aqui no blog algumas coisas. Mas acho que chegou a hora. E preciso disso. Passei os últimos quatro anos me dedicando ao sonho de construir minha casa na ecovila Clareando, em Piracaia, SP, e a todas as mudanças e ajustes que isso envolve, desde o trabalho – que se transformou num home office e tomou caminho próprio – até os critérios de compras, relação com os amigos e familiares.

Nesse período, vivenciei e aprendi inúmeras lições importantes que vou levar para o resto da vida. Uma delas: numa comunidade, a parte mais fácil é a das tecnologias sustentáveis, que já existem aos montes e estão à nossa disposição (com a aplicação de mais ou menos recursos, é claro). O difícil, isso sim, é lidar com as pessoas, ajustar sonhos e visões de mundo diferentes, confiar na diversidade e navegar com leveza por ela.

Não foram poucas as ocasiões em que me decepcionei com as pessoas da ecovila. Olhando em perspectiva, vejo que sempre tive uma visão minoritária do que poderia vir a ser essa comunidade. Talvez por causa da empolgação com outras experiências que pude conhecer e com a possibilidade de criar algo novo, sempre acreditei que iríamos mergulhar de cabeça numa série de novidades, mudanças de hábitos, descobertas e experiências ricas de sustentabilidade. Mas o grupo, no entanto, manteve-se heterogêneo o bastante para termos entre nós pessoas pouco dispostas a mudar uma única vírgula de lugar – sair da zona de conforto não é fácil mesmo, sei disso. Para mim também não é fácil, muitas e muitas vezes.

Durante muito e muito tempo pensei que pudesse contornar, transpor e viver bem apesar dessas diferenças. E, por um grande equívoco, cerrei os olhos para muitas coisas que não me agradavam. Fiz de conta não ver abalos importantes na comunidade, discordâncias que me angustiavam. Até que comecei a perceber que esses problemas eram maiores do que minha capacidade e energia (neste momento, pelo menos) de seguir adiante.

Afastei-me por um tempo de todos. Entrei num casulo a fim de procurar a mim mesma, rever planos e expectativas. Não foi nada fácil. Nos últimos meses – ai, que difícil dizer isso! – não senti muita vontade de ficar na ecovila. Tinha dores de cabeça, sentia um aperto no peito, uma sensação de vazio e solidão, pouca disposição para discussões coletivas. Acredita nisso?

Ao mesmo tempo, em São Paulo, não via muita graça em nada, até que decidi tentar mudar a lente que me fazia enxergar o mundo. Ainda estou nesse processo. Mas já vejo muita coisa boa bem diante do meu nariz. Como na última quarta-feira, feriado de Tiradentes, quando os vizinhos da casa 2, da vila onde moro na capital, convidaram os demais moradores para ajudar na pintura do portão da entrada. Um gesto simples (um bilhete singelo e simpático deixado na porta das casas) que se revelou importante e intenso para mim. Passamos parte da manhã trabalhando juntos, com a ajuda de vizinhos que apenas trocavam cumprimentos rápidos, mas estavam ali sorrindo e se divertindo. Descobrimos juntos que podemos construir um lugar mais bonito e gostoso para viver, mesmo aqui nessa selva de pedra – e gente. E gente, como dizem os grandes viajantes, é igual em todo lugar do planeta.

Aqui, vale um parênteses: Gabriel e José, dois meninos de cinco anos de idade que moram na vila, são o símbolo do que ainda sonho para meu mundo – que é o seu também. Eles são amigos de verdade e criaram uma relação linda que certamente marcará suas vidas. Um mora na casa dois, outro na casa 7. Mas isso é apenas um detalhe. Enquanto brincavam de trabalhar na pintura do portão, foram abordados por um catador de recicláveis que, a poucos metros deles, vasculhava as lixeiras na entrada da vila como quem busca tesouros. “Os dois são seus filhos, dona?”, ele me perguntou. Ao que respondi, com um sorriso: “Não, mas poderiam ser”. E ele, então, lançou aos meninos: “Mas vocês são irmãos, né?” E os dois, em uníssono, disseram: “Somos!”.

É com essas delicadezas e verdades que quero alimentar minha alma. E, já que é assim, pondero hoje minhas expectativas em relação à ecovila, sem saber se farei a mudança total para lá nos próximos meses, ainda que a casa esteja pronta. Por quê? Porque a casa não é o suficiente para quem imaginava viver numa comunidade, com trocas e saberes compartilhados entre amigos-vizinhos. Mas também porque na vida tudo muda, nada é para sempre. E porque a sustentabilidade e a poesia que move a vida não têm lugar certo para acontecer, podem e precisam estar em todos os cantos. Aqui e agora.

Ainda carrego comigo a utopia da vida comunitária, mais atenta às necessidades do outro, mais ligada na cooperação do que na competição. Só não concentro mais minhas forças num único lugar – a ecovila, no caso. Quando as máscaras caíram, me vi diante do espelho que não reflete mais do que esta coisa chamada realidade. Um choque de realidade foi o que senti… É assim que as coisas são. Respiro fundo agora para encarar o fato de que talvez meu sonho de comunidade não esteja mais – ao menos, por enquanto – na ecovila. Não desisti, mas diversifiquei o rumo para lá e cá (será a mesma coisa?). A casa continua lá, à espera dos últimos acabamentos e também de um novo destino. Qual será? Ainda não sei.

Minha nova resolução interna – que, como toda resolução, precisa da prática para nascer de verdade – consiste em tentar destruir os muros que me separam da vida vivida e da vida levada com a barriga. Em outras palavras, não quero mais viver meus ideias de sustentabilidade apenas na ecovila. Quero, mais que tudo, acreditar que é possível vivê-los em qualquer lugar, onde quer que eu esteja, e com quem estiver ao meu lado. Só por hoje, vou viver assim.

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Comentários

27/04/2010 às 16:08 Anonymous - diz:

Daniel – diz:Giuliana, boa tarde!Apesar do tom tristonho do seu post, fico feliz por você ter tido a oportunidade de “enxergar a verdade”, tem muita gente que não tem essa chance. Não sei se é apropriado dizer mas a impressão que tive ao visitar a Ecovila é de que ela é apenas um empreendimento imobiliário com uma roupagem ecológica, o que é muito legal e tem seu valor mas no fim o que conta mesmo são as pessoas que lá vivem e os ideais que as unem…..minha esposa acabou de voltar do IPEC de um curso de Permacultura e ela teve a mesma impressão do pessoal que participava do curso… a intenção das pessoas era boa, mas os motivos errados. E por conta disso ela está com muito medo de viver em comunidade…eu discordo….eu acho que é fácil, basta respeitar e ser respeitado….o resto nada que uma boa conversa não resolva. Nossa família está passando por um momento de transição parecido. Aproveitando, gostaria de convidar você e seu esposo para um jantar em nosso apto. em Pinheiros. Adoraria trocar figurinhas com vocês. Minha mulher cozinha muito bem….se aceitar nosso convite apenas avise quando seria mais apropriado para vocês.Abraços Daniel

27/04/2010 às 16:29 Anonymous - diz:

Diana Gilli – diz:A questão aqui é bem simples: vale a pena ainda?Se no fundo ainda há um espacinho de esperança é porque ainda dá para investir. Nunca é tarde para se sonhar.As pessoas são irritantes?Muitas delas são sim. É difícil aguentá-las?Sim, com toda a certeza. Mas aí pergunto novamente. Ainda há esperança do tamanho de uma semente de mostarda?Então continue na caminhada e combata o bom combate!

27/04/2010 às 16:32 Anonymous - diz:

Marilani – diz:Lindo teu depp…parabéns pela sinceridade!!!hj está tão raro encontrar pessoas senceras, qto achar um rio limpo!Tuas palavras são encorajadoras.Apesar e além das dificuldades, é a nós q compete agir diferente. bjjjooosss

28/04/2010 às 09:38 Anonymous - diz:

Anxelo – diz:Oi Giu, nossas atitudes são tomadas no momento de explosão, digo em nome de todos os homens. Uma conversa serena e com os ouvidos abertos é nossa busca, temos muito trabalho ainda até chegar no ponto em acatar a opinião do irmão. Nós só temos essa paciência quando quem nos aconselha ou sugere algo é pessoa de infinita confiança e proximidade astral… Coisa que sinto por vc e pelo Edilson entre outros da vila, porém aquilo que exercitamos é acolher as opiniões e críticas de todos com a sabedoria dos anciões. No compromisso em apresentar uma tarefa cumprida com a habilidade que supomos ser nossa maior virtude, nós homens não suportamos uma faísca de crítica. Nossa culpa! As gônadas ou aquilo que queríamos que todas as garotas pensassem a nosso respeito não permitem a nós homens a crítica, palpite, sugestão ou uma retificação… Somos inflexíveis, não vergamos pois quem se dobra é o fraco! Num segundo momento, vamos considerar o tempo, aquele que não falha. Uma discussão não perde sua importância com o tempo, acho que se encorpa com aquilo que interessa e torna mais claro aquilo que não importa. Apenas um impulso negativo num momento crítico é capaz de detonar uma sensação de mal estar. Mas ainda não é um sentimento mau. Só não deixar o tempo trabalhar nesse sentido.Saudade de vcs.

28/04/2010 às 11:53 Anonymous - diz:

Léia – diz:Giuliana, o que mais gosto de tudo o que você escreveu é você aceitar as mudanças que estão surgindo na sua vida. A gente é mesmo assim, reluta muito diante das mudanças, mas elas acontecem a todo tempo, somos feitos delas. Importa menos se vc vai estar lá ou cá. O imprescindível mesmo é vc estar com vc mesma.Um grande beijo da sua amiga e irmã de alma,Léia.

28/04/2010 às 15:14 Anonymous - diz:

Paula de Jesus – diz:Estive na Ecovila, conheço os donos e conheço ex-moradores, um casal e seus filhos, que foram expulsos de lá porque seu cachorro matou o cachorro do vizinho. Fiquei completamente abismada com tamanha falta de compreensão, em especial para uma vila com objetivos sociais, além de ecológicos. Não sei como a vila está agora, mas não acredito que precisamos nos isolar para ter mais consciência e sustentabilidade. Na minha casa, por exemplo, somos todos vegetarianos, não usamos mais sacolas plásticas e separamos o lixo. Tudo que é orgânico é levado para uma vizinha, que tem horta e faz compostagem. Quando a colheita é boa, ela sempre traz verduras e frutas fresquinhas e orgânicas pra gente. Outra vizinha vende tofu e nós compramos dela. Outra, que não mora muito perto, mas quase no mesmo bairro, é culinarista e está sempre em casa compartilhando receitas e fazendo pratos ótimos. Precisamos começar alguma coisa. Mas se a energia das pessoas não estiver na sua sintonia, parta para outro caminho. Vale a pena.

28/04/2010 às 18:35 Anonymous - diz:

Flávia – diz:GiuUtopia ou não. vc já fez a diferença, transformou seu sonho em realidade. O mais importante e achar essa coêrencia entre o que pensamos e fazemos e isso não tem lugar para colocar em prática, vc tem isso muito claro e seja na ecovila ou aqui na cidade vc fará o que deve ser feito.Em qualquer lugar, se quiser viver em comunidade terá que lidar com o ingrediente mais complexo do universo, a humanidade, pessoas são diferentes, mais ou menos complicadas e estão em toda a parte, quando não temos expectativas, as decepções são menores. Em algum livro de Yogananda, li que temos que viver nossa missão no lugar onde Deus nos colocou e executando muito bem qualquer que sejam nossas tarefas (as boas é claro).Deixa seu refúgio lá e vai vivendo um final de semana de cada vez mesmo, sem pressa…

28/04/2010 às 21:47 Anonymous - diz:

Léia – diz:Queria responder à Paula de Jesus que não é verdade que o casal e seus filhos foram expulsos da ecovila. Se houve (ou há) problemas de relacionamento lá, todos devem tomar para si a sua parcela de responsabilidade. Considero a ecovila um lugar muito especial, com pessoas bem corajosas para encarar o desafio tão grande que é criar uma comunidade com tanta diversidade como aquela. Que ela seja sempre iluminada!

29/04/2010 às 10:15 Anonymous - diz:

Paula de Jesus – diz:Léia, não tive a oportunidade de escutar outra versão. Sei que todos devemos fazer a nossa parte para vivermos em sociedade e, claro, em comunidade. Principalmente quando este é o maior objetivo, como na Ecovila. Então, por favor, conte o que motivou o pedido para que a família em questão se retirasse da ecovila. Até onde soube, eles tiveram que alugar uma casa e deixar a que construíram lá. E tudo isso em 2 semanas. Aguardo retorno.

29/04/2010 às 11:09 Anonymous - diz:

Giuliana – diz:Olá a todos, agradeço pelos comentários ponderados, de apoio. Sempre vou torcer para que a ecovila prospere muito, independentemente de eu estar lá como visitante de fim de semana ou como moradora. À Paula de Jesus gostaria de dizer que talvez este não seja o melhor lugar para esmiuçar uma situação que diz respeito a uma família que deixou a ecovila. Eles são meus amigos, estão felizes agora e tiveram vários motivos para tomar essa decisão (que foi deles e jamais do grupo). Em fevereiro, escrevi um post sobre o assunto, que talvez possa ajudá-la a olhar a questão sob outro ponto de vista. Segue o link para a leitura do texto Despedida na ecovila: http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/gaiatos/despedida-ecovila-220248_pos t.shtml. Um abraço forte a todos vocês, Giuliana

24/05/2010 às 11:30 Anonymous - diz:

Paulo Eduardo – diz:Giu, é no desequilíbrio que avançamos, não na tranquilidade… Muito importante a sua descoberta de que o sonho te pertence e tambem a sua reflexão sobre ele… se é utopia ou não é o que menos importa… o que importa é o movimento que vem do seu desejo e também da sua decepção, são esses movimentos que vão construir a eco vila que você quer na sua vida, e consequentemente no planeta.Boa sorte!Bjs,Paulo

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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