Gaiatos e Gaianos

Publique
o selo
no seu blog

Água de chuva, muita chuva… Giuliana Capello - 04/01/2011 às 11:57

Já devo ter comentado por aqui um princípio da permacultura que diz que o problema é a solução. Estranho, não? No início, sim. Mas depois que começamos a entender a lógica da permacultura (que vem das palavras permanente e agricultura, e também da ideia de cultura permanente) tudo fica mais fácil. Esse sistema de design trata essencialmente das relações que podemos estabelecer entre os diferentes elementos que compõem um determinado terreno, sítio, casa ou mesmo um apartamento. Elementos podem ser naturais (vento, água, sol, vegetação, animais etc.) mas também construídos pelo homem, como edificações, tecnologias, lavouras e por aí vai. Em resumo, a permacultura busca trabalhar com a natureza (ou seja, com tudo aquilo que ela nos oferece num determinado local) – e não contra ela.

Pois bem. O verão mal começou e muitas regiões já estão sofrendo com enchentes, deslizamentos de terra, interrupções de estradas. Na ecovila, por exemplo, os acessos estão bastante difíceis (só mesmo veículos 4×4 conseguem atravessar a lama). O uso do solo no entorno da comunidade explica parte do problema: historicamente, a terra tem sido usada para pastagem de gado (o que aumenta a incidência de erosão e voçorocas, especialmente por conta do relevo montanhoso) e cultivo de eucalipto, o que também desgasta o solo consideravelmente. Aí vêm as chuvas e literalmente “lavam” a terra, levando embora não apenas os nutrientes da terra como também pequenas pontes e a tranquilidade dos moradores.

Tudo poderia ser diferente se (de novo), desde o começo, a população tivesse trabalhado com a natureza e não contra ela. Para construir uma estrada, por exemplo, o melhor é respeitar as curvas de nível e não simplesmente atravessá-las na perpendicular, como acontece muitas vezes. Isso é ir contra a natureza do lugar. Quem corre na perpendicular é água, não carros! Óbvio, não? Em São Paulo há inúmeros casos de descompasso com a natureza: o Vale do Anhangabaú não tem esse nome à toa. Vales, em geral, abrigam rios, lagos, nascentes, enfim, água que escorre de regiões mais altas. Abrir avenidas em caminhos de águas é estabelecer um conflito claro e direto com as forças naturais…

Ok, mas e aquele papo de o problema ser a solução? Vamos lá: a permacultura procura encarar cada elemento presente no sistema como recurso para um design sustentável. Ter muita água, então, é riqueza, fonte de vida, oportunidades para o cultivo de animais e plantas – e, portanto, oportunidade de maior autossuficiência. O sucesso, é claro, vai depender de como lidamos com essa água, de como trabalhamos com ela. Se, numa região com alto índice pluviométrico, impermeabilizamos o solo com asfalto, concreto e muitas construções, para onde a água irá escorrer? E mais: não é interessante que ela simplesmente atravesse o terreno, mas sim que ela seja captada e armazenada para os períodos de estiagem e para os usos não potáveis, de forma a economizar um recurso que parece abundante num determinado período, mas que fará falta mais adiante. Deu para entender?

É preciso pensar nos ciclos para projetar sistemas eficientes, que funcionem durante o ano todo. Criar reservatórios para armazenar a água da chuva é um jeito de evitar enchentes durante o verão e combater doenças como a leptospirose e a dengue, mas é também uma estratégia de contenção da escassez na época da seca.

Dá para fazer muita coisa com água de chuva, dependendo do tamanho e das necessidades do local em que você vive. Uma casa pode captar água da chuva pelas calhas do telhado e armazená-la em cisternas para usos mais simples, como irrigar o jardim, limpar a residência e lavar o carro, até usos que exigem alterações na hidráulica da casa, como destiná-la para as descargas sanitárias e chuveiros.

Quase um sexto da população mundial (ou seja, um bilhão de pessoas) sofre com a falta de água e as perspectivas da ONU para os próximos anos não são nada animadoras. Da mesma forma, sabemos que as alterações no clima estão mexendo cada vez mais com o regime de chuvas, inclusive aqui no Brasil – as secas na Amazônia e as enchentes no Sudeste são apenas sinais do problema.

Então, já que o problema é a água, que tal olhá-la como solução? Que tal começarmos a dar um uso mais inteligente para um recurso que nos é fundamental? É possível criar valas de infiltração, agroflorestas, laguinhos, fontes, tanques de peixes, usar potes de água para criar pequenos ecossistemas com peixes, sapos, insetos e plantas aquáticas. Dá para usar água na construção de sistemas mais ecológicos de tratamento de esgoto e sistemas de refrigeração por espelhos d’água que resfriam o ar antes que ele entre numa edificação, enfim, há um mundo de possibilidades de enxergar o problema como oportunidade de mudança de valores e atitudes.

O mais difícil é acreditar e começar a agir, aos poucos, um pouquinho de cada vez. Por isso, faço aqui um convite: na próxima chuva, saia de casa ou do escritório para observar um pouco as águas que caem do céu. Procure olhar para a chuva como um presente da natureza, um bem sem o qual não haveria vida nesse planeta. Contemple a chuva em seus detalhes, seus caminhos, sons, cheiros, desenhos. Se puder, tome um banho de chuva para lavar a alma, deixar antigas crenças para trás e começar 2011 com novos horizontes, novas possibilidades. Peça à chuva para levar embora o que já não lhe serve mais, o que já não cabe neste século, conceitos que precisam ser transpostos para que todos, sem exceção, tenham a chance de restabelecer um ritmo mais harmonioso com a Terra, um olhar mais delicado e sensível capaz de perceber – tal qual os astronautas pioneiros – que nosso planeta, na verdade é azul, de alma e águas.

ver este postcomente
Comentários

05/01/2011 às 11:12 Anonymous - diz:

Juliana Cristina de Mello Gomes – diz:Giuliana, conheci seu blog a alguns dias e de lá pra cá, já li todos os posts e espero todo dia por um novo. Fiquei sua fã, de perceber que uma pessoa tão bem resolvida toma atitudes que para os que estão ao meu redor são atitudes no mínimo impensáveis. Creio que vc entenda o que quero dizer, o novo é sempre diferente e visto com estranheza e nem sempre é tão novo assim. Tenho uma amiga que fez um curso de permacultura e foi a primeira vez que ouvi esse nome, soou meio estranho e pensei que fosse algo novo e pouco conhecido, e depois de ver seu currículo percebi que eu que estou defasada. Depois de conhecer a Ecovila Clareando pela internet e através de vc, tenho sonhado com um lugar assim pra mim todos os dias. Parabéns e continue plantando idéias em nossas mentes e corações.

Deixe aqui seu comentário: Preencha os campos abaixo para comentar, solicitar ou acrescentar informações. Participe!

Enviar

Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

Posts anteriores

• Eu, você e o fim do mundo

• Esterco, palha e felicidade

• No compasso da natureza

• A simplicidade e a crise de imaginário

• Criança precisa de natureza

• Dias de mudança e gentilezas!

• Mudança para a ecovila!

• Meio ambiente: por que custo e não investimento?

• A lição básica do lixo

• Discurso sustentável tem limite

• A cidade, o campo e a estrela Sinhá

• A mágica das trocas de saberes

• Carnaval em comunidade

• Ideias para esverdear a construção

• Teste drive do banheiro seco

• O planeta numa bandeja (de isopor)?

• Reflexões sobre o slow life e a internet

• A face feia dos cosméticos

• Vasos para melhorar o trânsito

• Primeira virada em casa!

• 2012: ano para entender o planeta

• Pratique a observação!

• Greenbuilding para pássaros

• Belo Monte, Rachel Carson e minhas velas artesanais

• O caipira e a mobilidade urbana

• O que dar a alguém que já tem “tudo”?

• Pela volta do fogo doméstico

• O empurrãozinho que faltava…

• Um lugar em você chamado Ahimsa

• RPPN El Nagual: cooperação, amizade e inspiração

• Dez anos de um sonho

• Você quer ser bom ou justo?

• É primavera em mim

• E viva o decrescimento

• Um guarda-chuva para dois verões

• E quando não há rede de esgoto?

• Quem casa quer casa (ecológica!)

• Se não é divertido, não é sustentável

• Lunática com muito orgulho

• Secador solar e generosidade

• Doze metros de muita história

• Velhice x terceira idade

• Infância desplastificada

• Um dia sem telas

• Um luxo chamado Tempo

• Horta de fundo de quintal

• Liberdade anda junto com sustentabilidade

• Produtos que não deveriam existir

• Lixo é uma questão topológica

• Celebração de blogueira

• Você e o fim da sacolinha em SP

• A lição do Ubuntu ancestral

• Ecovila: no pasto ou na mata nativa?

• Cada um com seu entulho

• O descaso com o lixo orgânico

• Espiritualidade e vida comunitária

• Produzir ou consumir cultura?

• Fukushima e você

• Trocas solidárias que enriquecem

• Lavar roupas sem sabão!

• Acordos comunitários para a ecovila

• O valor de uma árvore

• A chegada de uma nova vida

• Por que o simples é tão complicado?

• Impressões do interior

• Só tecnologia não salva o planeta

• Bioconstrução na serra fluminense

• Um bairro em transição

• Petrofóbicos e locávoros, uni-vos!

• Permacultura para transformar

• Água de chuva, muita chuva…

• Partida e chegada

• A nova história dos três porquinhos

• 365 dias mais ecológicos

• Maternidade e natureza

• Livrai-nos dos pecados do greenwashing!

• Pesadelo de consumo

• Dias de mudança (e desapego)

• Sustentável e mais barato, sim!

• Quem faz a sua comida?

• Ecovila: mutirão na represa!

• Cohousing: morar com amigos

• Esgoto bacana e ecológico

• Superadobe ou terra ensacada

• Primavera com onça e lobo-guará!

• Bioconstrução para multiplicar

• Feriado unplugged

• O que é viver bem?

• Jardim de histórias

• Por que adoro hortas permaculturais

• O joio e o trigo

• Máquinas descartáveis?!?

• Parques x hidrelétricas

• Atire bolas de semente!

• Sobre as boas tradições

• Precisamos de uma escola!

• Sobre a formação de uma ecovila

• Festa junina na ecovila

• Quando o tamanho é documento

• Terra fértil e sangue menstrual

• O tempo de uma casa

• O centro comunitário da ecovila

• Tempo para a arte

• Medicina ecológica?

• O céu de todos e de cada um

• Aqui e agora

• Sabedoria das ervas

• Qual é a sua sustentabilidade?

• Privacidade numa comunidade

• Ecodesign para cuidar do planeta

• Home centers e produtos ecológicos

• O valor do silêncio

• Ecovila com horta… e sem delivery

• A conta de gasolina na ecovila

• Patos, galinhas e outros bichos

• Despedida na ecovila

• Conectada, finalmente!

• Menos tv, mais horta

• O recado das crianças

• Os pedreiros somos nós!

• Esperança e cooperação na ecovila

• O tempo é o novo regente

• Sobre a proximidade do fim

• A COP15 e a síndrome do panetone

• Histórias de uma parteira na Amazônia

• Multiplicar é muito bom

• Governança na ecovila

• Morar em vila…em São Paulo

• Gestão do lixo na ecovila

• Ecovila e sustentabilidade econômica

• Um carro, um jipe ou um cavalo?!

• Parede de toquinhos

• Casa com água da chuva

• Para iluminar a casa e curtir a noite

• Festa da primavera

• Uma casa para abrigar nossos sonhos

• Uma moldura para o horizonte

• A composteira da minha avó

• Quando o ecológico não é bem ecológico

• Tijolos de adobe

• Não sei se é verdade, mas repasso?!?

• Por que adoro feiras de trocas

• Ecovila sem internet?

• Entre amigos

• Minha casa num programa de tv…

• Ah, esse excesso de e-mails…

• Trabalho de formiguinha

• Socorro, não aguento mais SP!

• Para tecer uma vida na ecovila

• Entre na onda das roupas usadas

• Mão na massa, sem discursos

• Mata atlântica: mais que uma efeméride

• Como construir uma ecovila?

• O que fazer com a madeira que sobrou?

• Histórias de reúso, economia e bons amigos

• Frio na barriga…

• Mutirão de solo-cimento

• Encontro de ecovilas!

• Sua casa pode ser uma ecovila

• Meu telhado verde, verdinho, verdinho

• Celebrar ajuda a enfrentar problemas

• Yoga e sustentabilidade

• O segredo da abóbora mágica…

• Dona-de-casa, eu?!?

• Quanto vale o nosso trabalho?

• Forno de pizza de barro

• Meus vizinhos, minha família

• Mosaico de vidros usados

• A insustentável mão-de-obra

• Sorvete de inhame!

• De que é feita a minha casa?

• Parede de garrafa?!

• Composteira de novo!

• O Natal pode ser ecológico?

• A alegria de viver em comunidade

• Infância ecológica

• Devagar é mais gostoso

• Mitos e vícios modernos

• Crise financeira ou chance para o planeta?

• O que eu vou fazer numa ecovila?

• Fãs de pau-a-pique

• Construir com as próprias mãos

• Parto natural e ecológico

• Confissão: eu não passo roupas

• As ecovilas e as mudanças climáticas

• Slow life: vida mais calma, lenta e confortável

• Paredes vivas de Cob

• Dividir para ter mais

• Tomada de decisão por consenso

• Simplicidade voluntária

• Bicho de ecovila

• Brechó arquitetônico

• Histórias de João-de-barro

• Tapioca: regional, gostosa e sustentável

• Para ter uma composteira caseira

• Mutirão de telhado verde

• Malhação para o planeta

• Minha casa na ecovila

• Catadores de esperança

• Água no copinho plástico? Tô fora!

• Música para sentir a natureza

• Bioconstrução e desastres naturais

• Democracia, consenso ou autocracia??

• Entulho não é lixo!

• Viva o pequeno agricultor!

• Educação para o campo

• Meu bairro, minha cidade

• Por trás do velho clichê

• Para construir uma comunidade

• O prazer das compras solidárias

• O tempo do sol e da lua

• Poluição e Arte dentro do túnel

• Riqueza para além do dinheiro

• Catadora, com muito orgulho

• Nós e a natureza, conectados

• High tech ou low tech?

• Impressões de uma ecochata (?) na Campus Party

• Horta vertical para pequenos espaços

• Receitas naturais para curar a ressaca do carnaval

• Aprendendo a costurar com a avó

• Festa infantil não precisa ser descartável!

• Telhado ou jardim?

• Consumo verde: tarefa difícil mas necessária

• Permacultura: do linear ao cíclico

• Um mergulho na Permacultura

• Cinco dias com o arquiteto descalço

• Banheiro seco? Como assim?!

• Sustentável é também saber ouvir

• Permacultura: transformando problemaem solução

• Uma delícia de mutirão

• O dia em que adotei a Sofia

• Falta de civilidade é fogo (na mata)!

• Design natural é tudo de bom!

• Dividir a lavanderia com o vizinho?!?

• Abaixo as fraldas descartáveis!

• Sim, absorvente ecológico!

• Histórias de uma outra gastronomia

• Uma outra gastronomia – parte 2

• Sem carro e sem delivery

• Por uma dieta que respeite o planeta

• Minhocas via Sedex

• Mais adubo e menos lixo

• Lugar de madeira é…

• Construtoras precisam se adaptar

• Seu Zé e as arvrinhas

• Reunião de condomínio? Não, de ecovila!

• Disk-pizza e permacultura na geladeira

• Domingão na feira de trocas

• Feira de trocas – parte 2

• Feira de trocas – parte 3

• Guarda-roupa coletivo espanta o frio

• Até quando seremos gaiatos?

PATROCÍNIO: