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Acordos comunitários para a ecovila Giuliana Capello - 15/03/2011 às 18:18
Muita gente pensa que uma ecovila é um lugar em que as pessoas vivem em casas ecológicas, cultivam seus próprios alimentos, produzem energia de fontes alternativas e colecionam geringonças tecnológicas capazes de reduzir sua pegada ecológica sobre a Terra. Em parte, é verdade, sim. Mas essas características, que dizem respeito à ciência e às novas tecnologias verdes estão longe de ser o que realmente sustenta ou serve como base para uma comunidade desse tipo.Costumo dizer que de nada servem as novas tecnologias se as pessoas não tiverem ferramentas para buscar uma convivência rica e harmoniosa, feita de trocas de saberes, festas e atividades desenvolvidas de forma coletiva (como mutirões de trabalho, por exemplo). Nesse sentido, construir uma habitação menos agressiva ao planeta, gerar energia a partir do sol, consumir produtos mais ecológicos, enfim, fazer escolhas mais conscientes é apenas a pontinha do iceberg. O que faz uma comunidade próspera e mais sustentável são as relações interpessoais e, nesse ponto, convenhamos, bastam duas pessoas para que os conflitos comecem a aparecer…
Por isso, não adianta querer evitar os conflitos, ocultar sentimentos, mágoas, frustrações. A boa ecovila, aquela mais madura, conquistada com o tempo, precisa criar condições e espaços reais para que as pessoas manifestem, com confiança e tranquilidade, tudo o que sentem, sem receios e ansiedades. Muito mais difícil do que fazer um telhado verde, concorda?
Pois bem, uma das maneiras de se caminhar em direção à boa convivência e a todos os benefícios que ela traz aos moradores pelo menos, nos primeiros anos da comunidade, quando ela ainda é mais sonho do que ações é a elaboração colaborativa de um manual de acordos comunitários.
Um estudo feito pela Rede Mundial de Ecovilas (GEN, na sigla em inglês) mostrou que boa parte das iniciativas de ecovilas que não se perpetuaram no tempo/espaço não tinham regras ou acordos comunitários claros, bem definidos. Sinceramente, não sou muito fã de regras, porque elas, de certo modo, remetem-me a uma ideia de rigidez, inflexibilidade, imparcialidade que beira a falta de empatia e capacidade de ouvir o outro. Mas, na prática, não ter regras, por outro lado, também não parece ser uma boa opção – basta pensar que cada pessoa tem uma noção particular do que seja liberdade, respeito ao próximo e por aí vai.
Na Itália, para citar um exemplo real, a ecovila de Damanhur nasceu com um conjunto bastante extenso de regras, que tinha a ver com a época em que ela nasceu. Era o auge dos anos 60-70, quando as ideias de contracultura, liberdade de expressão e amor livre estavam mais do que na moda. Seu fundador pensou, então, que para fazer a comunidade funcionar era preciso compor uma longa lista de deveres e direitos, que pudessem prevenir conflitos e evitar anarquismos distorcidos. A ideia era experimentar, vivenciar as regras, de tal modo que elas pudessem ser incorporadas por todos e, assim, com o tempo, simplesmente deixariam de existir.
Na Ecovila Clareando, estamos em fase de votação de um texto-base que, em breve, irá compor nossa primeira versão dos acordos comunitários. Ele surgiu a partir da necessidade que os moradores apresentaram de ter regras claras para algumas questões do cotidiano, como barulho, gestão de animais domésticos e de criação, política de alimentos, cuidados com a terra e a água, princípios de construção sustentável, administração de funcionários nas obras etc.
Quando li, pela primeira vez, as dez páginas que compõem o manual de acordos, sinceramente, fiquei um pouco decepcionada. Algumas regras me soaram caretas, outras óbvias demais para aquele documento. Depois, com mais calma, tornei a ler, com olhos e coração mais abertos, e percebi que aquelas palavras, na verdade, traduzem desejos da comunidade que nem sempre equivalem aos meus anseios de vida em ecovila embora o manual tenha sido construído de forma colaborativa, com reuniões e discussões coletivas. Ali estava, para mim, mais uma lição: viver em comunidade é mais ou menos como um casamento, em que é preciso ceder algumas vezes, em nome do bem-estar do outro (e de nós mesmos)…
Nos meus mais remotos sonhos de ecovila, as pessoas surgiam em meus pensamentos como seres quase iluminados, dotados de uma capacidade imensa de ouvir o outro, ponderar, refletir e, quando necessário, abrir mão de vontades pessoais para permitir e colaborar com a construção de uma alternativa viva de assentamento humano mais sustentável e amoroso. Ingenuidade? Sonho? Talvez, hoje sinto que era uma visão romântica demais, que partia do pressuposto de que todo mundo estaria disponível para rever hábitos, comportamentos, visões de mundo. Não é tão simples assim. Quase ninguém se muda para uma ecovila pronto e disposto a se reinventar um pouquinho a cada dia, da mesma maneira que ninguém tem nas mãos a fórmula do sucesso de uma ecovila… Daí, a necessidade das regras, que devem servir unicamente para nos fazer caminhar em direção ao nosso sonho, um passo a mais por dia. Se ainda não estamos prontos, precisamos de artifícios que nos levem até nosso destino, entende?
Seja como for, algo em mim não mudou (ainda?): a vontade de viver com menos regras e exigências egóicas e mais abertura de espírito, mais compaixão. Domingo será dia de votarmos item por item do manual, que somente entrará em vigor nos casos em que as regras forem aprovadas por uma maioria de 70% dos integrantes da comunidade. Esse processo me lembrou uma questão dirigida a mim por uma professora com quem tive aulas num curso técnico que fiz anos atrás. Qual a missão da educação ambiental?, ela me perguntou. Pensei por alguns instantes e respondi, em confissão: Deixar de existir, porque quando não precisarmos mais falar tanto sobre ela será sinal de que já a incorporamos por completo. É mais ou menos por aí…
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19/03/2011 às 11:32 Anonymous - diz:
licia castro – diz:Você fala tanto da ecovila, mas porque não MORA nela ? a mim parece que fica muito a nível de teoria falar de ecovila sem estar realmente residindo nela todos os dias e horas você não acha ????
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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