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A mágica das trocas de saberes Giuliana Capello - 28/02/2012 às 16:27

Reúna uma roda de amigos e você terá, num instante, um conjunto de saberes e conhecimentos muito maior do que o número de pessoas em questão. Claro! Cada um na roda poderia listar bem mais de um saber capaz de trocar com o grupo. Pode parecer bobagem, mas esse tipo de exercício é revolucionário, e quando se trata de comunidades, quero dizer, de gente que voluntariamente escolheu viver com o apoio de certo grupo de pessoas, o assunto torna-se ainda mais relevante.

Na Ecovila Clareando, estamos começando – devagar, é verdade – um processo de reconhecimento das riquezas que cada um carrega dentro de si. Talvez isso ainda esteja mais nos meus sonhos e vontades do que na prática, mas consigo enxergar todo o potencial que temos tão logo alguém desperta o desejo de compartilhar seus saberes com todos.

No último fim de semana, um dos moradores promoveu um curso de instalações elétricas. Ele reuniu algumas pessoas da comunidade na oficina de sua casa para contar um pouco do muito que sabe sobre como fazer um bom projeto elétrico para nossas casas. Foi incrível. Quem participou contou que o encontro foi de altíssimo nível, com apostila bem completinha, conceitos bem pontuados, exercícios práticos e, o mais curioso, uma aula prática que consistiu em montar a instalação elétrica da casa de outro amigo da ecovila – que, claro, estava distribuindo sorrisos…

Gentileza talvez seja um bom jeito de chamar essas iniciativas, se bem que cooperação e solidariedade também cabem perfeitamente. O bacana disso tudo é que se cria uma rede de conexões infinitas, porque cada um de nós passa a vida aprendendo coisas novas e renovando, assim, a capacidade de trocar com quem está perto.

Durante o carnaval, uma amiga que é expert em criar biojoias e peças decorativas de vidro foi convidada por outro amigo a ensinar um pouco sobre as tais técnicas de vitrofusão, já que seu forno estaria na ecovila para reparos. Dito e feito. Em poucos dias, algumas pessoas se interessaram e, juntas, descobriram novas possibilidades até de trabalho e renda na comunidade.

Compartilhar não é só uma palavra bonita. É um jeito de enriquecer nossas experiências sem precisar gastar o salário inteiro em cursos aqui e acolá; é ainda uma maneira de conhecer mais de perto as pessoas, de se envolver em novas habilidades, de descobrir que não há idade para aprender algo novo ou passar um conhecimento adiante. Acima de tudo, é um jeito especial e muito convidativo de despertar para o fato de que é possível mudar o mundo um pouquinho hoje e outro tanto amanhã, em ciclos que fazem crescer nossa inspiração, autonomia e empoderamento.

Nesses meus seis anos de ecovila, convivendo com pessoas absolutamente diferentes, aprendi muito mais do que conseguiria escrever aqui. Minhas façanhas na cozinha melhoraram exponencialmente com a prática constante de preparar almoços comunitários com as amigas (que adoram trocar receitas e contar sobre preparos interessantes). Também sei mais hoje sobre yoga, meditação, horta orgânica, permacultura, violão, galinhas e compostagem do que sabia anos atrás. Sem falar nos materiais e técnicas de bioconstrução, que quase nunca escapam das rodas de conversa por aqui.

Em muitos lugares, infelizmente, as pessoas não têm esse hábito de trocar saberes e, por isso, quando perguntadas sobre o que poderiam oferecer ao grupo, não sabem o que dizer, acreditam que não têm o que compartilhar, que não sabem fazer nada. Mas isso não é verdade, e sim falta de costume mesmo.

Em comunidade, aprendemos o valor inestimável de uma receita de geleia que aproveita as frutas abundantes de nosso pomar ou a riqueza sem preço de passar uma tarde em boa companhia, aprendendo a lidar com tear, a fazer pão ou simplesmente observando o amigo no trato com os pintinhos e patinhos. Nas entrelinhas, há uma disposição natural para derrubar versões com “copyright” e dar lugar a criações de fundo comunitário, abertas e disponíveis para todos. O resultado costuma ser surpreendente. Em pouco tempo, as pessoas estão mais próximas, mais afetuosas umas com as outras – e mais “sabidas” também. A criatividade torna-se nosso maior tesouro, porque é com ela que nossos corações vibram. A um passo, somos todos aprendizes e professores. Imagine se isso pudesse acontecer no seu prédio, na sua empresa, na sua escola, na sua família…

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Comentários

29/02/2012 às 13:07 Fernanda Cardoso - diz:

Boa tarde Giuliana.
Sou estudante da UNESP, Presidente Prudente- SP, e encontrei seu blog quando buscava informações sobre Centro Comunitário. Achei suas matérias muito interessantes. Gostaria de saber onde fica a Ecovila Clareando, pois preciso realizar um estudo de caso em um Centro Comunitário e, pelo que voce descreveu, o da Ecovila Clareando é exatamente como irei propor aqui na minha cidade. Além disso, gostaria de saber também se seria possível essa visita, seria muito útil para a elaboração do meu TFG (Trabalho Final de Graduação).
Aguardo sua resposta, aqui está meu e-mail: ferr.cardoso@hotmail.com.
Grata desde já.
Fernanda Cardoso

29/02/2012 às 16:29 Giuliana Capello - diz:

Olá, Fernanda, fico feliz por seu interesse num tema que, para mim, é tão importante. Vou escrever direto pra ti, no email que publicou, ok? Grande abraço, Giuliana

27/03/2012 às 15:00 Rommel Alexandre Sauerbronn da Cunha - diz:

Giuliana, será realmente muito bom quando pudermos ser aprendizes e professores no nosso dia a dia. Precisamos perseguir essas atitudes que estão sendo possíveis numa ecovila, onde pessoas idealistas e realizadoras como vcs, nos dão esses lindos exemplos! Parabéns, muito legal ouvir seus relatos!

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GIULIANA CAPELLO

é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque, permacultora e autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Senac São Paulo). É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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