Gaiatos e Gaianos

Publique
o selo
no seu blog

Permacultura: do linear ao cíclico Giuliana Capello - 18/12/2007 às 12:21


Quase tudo o que consumimos durante a vida implicou a extração de matéria-prima, que foi processada numa fábrica, que gerou resíduos, virou produto, foi levado às lojas, de lá para a nossa casa e, em minutos, horas ou dias depois, acabou no lixo.

Embalagens de pizza, garrafas plásticas, revistas, jornais, absorventes femininos, camisinhas, pilhas, papel higiênico, saco de pão e batata frita, restos de comida, baterias de celular, frascos de shampoo e por aí vai.

O grande problema é que esse processo (que se repete aos milhões todo pagão e santo dia) é majoritariamente linear, ao contrário do que acontece na natureza, onde tudo tem seus ciclos. É triste dizer isso, mas a velha máxima que diz que ‘na natureza nada se perde, tudo se transforma’ foi esquecida no banco da escola durante gerações e gerações.

De tempos pra cá muitos estudos, porém, mostram que transformar a “linha de produção” em “ciclos produtivos” é uma maneira eficiente de lidar com aquilo que “sobra” nas indústrias e nas nossas casas. Trocando em miúdos, o que sobra é desperdício, porque poderia ser reaproveitado para aumentar sua vida útil, ou reciclado para voltar a ser matéria-prima outra vez.

Na última semana, passei nove dias inteiros estudando Permacultura na Morada da Floresta (como relatei aqui brevemente no post anterior). Ela pode ser definida de várias formas mas, aqui, tomo a liberdade de interpretá-la como uma ferramenta para tornar cíclico o que antes era linear. Exemplos: por que jogar no lixo uma garrafa plástica se eu posso reutilizá-la no escritório e evitar o consumo de dez copinhos descartáveis por dia? Por que jogar fora os restos de comida da minha casa se eu posso colocá-los numa composteira e transformá-los em adubo orgânico para os canteiros e floreiras do jardim? E por que jogar no lixo aqueles cacos de cerâmica se eles podem virar mosaicos para enfeitar a casa? E por que não armazenar parte da água da chuva que escorre pelo telhado para usar na limpeza da casa ou na máquina de lavar roupa?

Essas questões todas fazem parte de um planejamento sustentável, projeto que materializa diversos princípios da Permacultura. Para isso, é necessário fazer um levantamento de tudo o que acontece numa casa (ou na escola, na empresa, no sítio etc.): quantas pessoas moram lá, quantas freqüentam o lugar, o que entra e o que sai, que atividades são realizadas, quais as necessidades energéticas, os problemas e as mudanças de comportamento que devem acontecer para que o local se torne mais e mais sustentável. Está aí o grande desafio do permalcultor.

Criar conexões e posicionar os elementos (cozinha, composteira, jardim, materiais recicláveis, caixas d’água, coletores solares e tudo o que puderes imaginar) de maneira mais racional são as chaves para um bom planejamento sustentável. Numa casa, o ideal é que existam vários pequenos ciclos ou conexões que se integram no conjunto das atividades da casa.

É como num jogo de xadrez, só que na Permacultura a estratégia não está em derrotar o “inimigo” (os restos de comida, o cocô do cachorro, o calor do sol, a água da chuva ou o mundo infinito dos sacos plásticos), mas sim em descobrir de que maneira eles podem interagir para solucionar problemas e diminuir a necessidade de comprar produtos industrializados e jogar fora materiais que parecem não ter mais nenhuma utilidade.

Foto: Experiências de Permacultura urbana estão por toda parte na Casa dos Hólons, em São Paulo, como as garrafas de água que viram vasos e criam uma horta vertical, otimizando o uso do espaço do corredor da casa. Ah, sim, a moça bonita que aparece na imagem é a amiga Chantal…

ver este postcomente
Comentários

Não há nenhum comentário. Seja o primeiro!

Deixe aqui seu comentário: Preencha os campos abaixo para comentar, solicitar ou acrescentar informações. Participe!

Enviar

Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, CASA CLAUDIA e BONS FLUIDOS. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.

Posts anteriores

• Teste drive do banheiro seco

• O planeta numa bandeja (de isopor)?

• Reflexões sobre o slow life e a internet

• A face feia dos cosméticos

• Vasos para melhorar o trânsito

• Primeira virada em casa!

• 2012: ano para entender o planeta

• Pratique a observação!

• Greenbuilding para pássaros

• Belo Monte, Rachel Carson e minhas velas artesanais

• O caipira e a mobilidade urbana

• O que dar a alguém que já tem “tudo”?

• Pela volta do fogo doméstico

• O empurrãozinho que faltava…

• Um lugar em você chamado Ahimsa

• RPPN El Nagual: cooperação, amizade e inspiração

• Dez anos de um sonho

• Você quer ser bom ou justo?

• É primavera em mim

• E viva o decrescimento

• Um guarda-chuva para dois verões

• E quando não há rede de esgoto?

• Quem casa quer casa (ecológica!)

• Se não é divertido, não é sustentável

• Lunática com muito orgulho

• Secador solar e generosidade

• Doze metros de muita história

• Velhice x terceira idade

• Infância desplastificada

• Um dia sem telas

• Um luxo chamado Tempo

• Horta de fundo de quintal

• Liberdade anda junto com sustentabilidade

• Produtos que não deveriam existir

• Lixo é uma questão topológica

• Celebração de blogueira

• Você e o fim da sacolinha em SP

• A lição do Ubuntu ancestral

• Ecovila: no pasto ou na mata nativa?

• Cada um com seu entulho

• O descaso com o lixo orgânico

• Espiritualidade e vida comunitária

• Produzir ou consumir cultura?

• Fukushima e você

• Trocas solidárias que enriquecem

• Lavar roupas sem sabão!

• Acordos comunitários para a ecovila

• O valor de uma árvore

• A chegada de uma nova vida

• Por que o simples é tão complicado?

• Impressões do interior

• Só tecnologia não salva o planeta

• Bioconstrução na serra fluminense

• Um bairro em transição

• Petrofóbicos e locávoros, uni-vos!

• Permacultura para transformar

• Água de chuva, muita chuva…

• Partida e chegada

• A nova história dos três porquinhos

• 365 dias mais ecológicos

• Maternidade e natureza

• Livrai-nos dos pecados do greenwashing!

• Pesadelo de consumo

• Dias de mudança (e desapego)

• Sustentável e mais barato, sim!

• Quem faz a sua comida?

• Ecovila: mutirão na represa!

• Cohousing: morar com amigos

• Esgoto bacana e ecológico

• Superadobe ou terra ensacada

• Primavera com onça e lobo-guará!

• Bioconstrução para multiplicar

• Feriado unplugged

• O que é viver bem?

• Jardim de histórias

• Por que adoro hortas permaculturais

• O joio e o trigo

• Máquinas descartáveis?!?

• Parques x hidrelétricas

• Atire bolas de semente!

• Sobre as boas tradições

• Precisamos de uma escola!

• Sobre a formação de uma ecovila

• Festa junina na ecovila

• Quando o tamanho é documento

• Terra fértil e sangue menstrual

• O tempo de uma casa

• O centro comunitário da ecovila

• Tempo para a arte

• Medicina ecológica?

• O céu de todos e de cada um

• Aqui e agora

• Sabedoria das ervas

• Qual é a sua sustentabilidade?

• Privacidade numa comunidade

• Ecodesign para cuidar do planeta

• Home centers e produtos ecológicos

• O valor do silêncio

• Ecovila com horta… e sem delivery

• A conta de gasolina na ecovila

• Patos, galinhas e outros bichos

• Despedida na ecovila

• Conectada, finalmente!

• Menos tv, mais horta

• O recado das crianças

• Os pedreiros somos nós!

• Esperança e cooperação na ecovila

• O tempo é o novo regente

• Sobre a proximidade do fim

• A COP15 e a síndrome do panetone

• Histórias de uma parteira na Amazônia

• Multiplicar é muito bom

• Governança na ecovila

• Morar em vila…em São Paulo

• Gestão do lixo na ecovila

• Ecovila e sustentabilidade econômica

• Um carro, um jipe ou um cavalo?!

• Parede de toquinhos

• Casa com água da chuva

• Para iluminar a casa e curtir a noite

• Festa da primavera

• Uma casa para abrigar nossos sonhos

• Uma moldura para o horizonte

• A composteira da minha avó

• Quando o ecológico não é bem ecológico

• Tijolos de adobe

• Não sei se é verdade, mas repasso?!?

• Por que adoro feiras de trocas

• Ecovila sem internet?

• Entre amigos

• Minha casa num programa de tv…

• Ah, esse excesso de e-mails…

• Trabalho de formiguinha

• Socorro, não aguento mais SP!

• Para tecer uma vida na ecovila

• Entre na onda das roupas usadas

• Mão na massa, sem discursos

• Mata atlântica: mais que uma efeméride

• Como construir uma ecovila?

• O que fazer com a madeira que sobrou?

• Histórias de reúso, economia e bons amigos

• Frio na barriga…

• Mutirão de solo-cimento

• Encontro de ecovilas!

• Sua casa pode ser uma ecovila

• Meu telhado verde, verdinho, verdinho

• Celebrar ajuda a enfrentar problemas

• Yoga e sustentabilidade

• O segredo da abóbora mágica…

• Dona-de-casa, eu?!?

• Quanto vale o nosso trabalho?

• Forno de pizza de barro

• Meus vizinhos, minha família

• Mosaico de vidros usados

• A insustentável mão-de-obra

• Sorvete de inhame!

• De que é feita a minha casa?

• Parede de garrafa?!

• Composteira de novo!

• O Natal pode ser ecológico?

• A alegria de viver em comunidade

• Infância ecológica

• Devagar é mais gostoso

• Mitos e vícios modernos

• Crise financeira ou chance para o planeta?

• O que eu vou fazer numa ecovila?

• Fãs de pau-a-pique

• Construir com as próprias mãos

• Parto natural e ecológico

• Confissão: eu não passo roupas

• As ecovilas e as mudanças climáticas

• Slow life: vida mais calma, lenta e confortável

• Paredes vivas de Cob

• Dividir para ter mais

• Tomada de decisão por consenso

• Simplicidade voluntária

• Bicho de ecovila

• Brechó arquitetônico

• Histórias de João-de-barro

• Tapioca: regional, gostosa e sustentável

• Para ter uma composteira caseira

• Mutirão de telhado verde

• Malhação para o planeta

• Minha casa na ecovila

• Catadores de esperança

• Água no copinho plástico? Tô fora!

• Música para sentir a natureza

• Bioconstrução e desastres naturais

• Democracia, consenso ou autocracia??

• Entulho não é lixo!

• Viva o pequeno agricultor!

• Educação para o campo

• Meu bairro, minha cidade

• Por trás do velho clichê

• Para construir uma comunidade

• O prazer das compras solidárias

• O tempo do sol e da lua

• Poluição e Arte dentro do túnel

• Riqueza para além do dinheiro

• Catadora, com muito orgulho

• Nós e a natureza, conectados

• High tech ou low tech?

• Impressões de uma ecochata (?) na Campus Party

• Horta vertical para pequenos espaços

• Receitas naturais para curar a ressaca do carnaval

• Aprendendo a costurar com a avó

• Festa infantil não precisa ser descartável!

• Telhado ou jardim?

• Consumo verde: tarefa difícil mas necessária

• Permacultura: do linear ao cíclico

• Um mergulho na Permacultura

• Cinco dias com o arquiteto descalço

• Banheiro seco? Como assim?!

• Sustentável é também saber ouvir

• Permacultura: transformando problemaem solução

• Uma delícia de mutirão

• O dia em que adotei a Sofia

• Falta de civilidade é fogo (na mata)!

• Design natural é tudo de bom!

• Dividir a lavanderia com o vizinho?!?

• Abaixo as fraldas descartáveis!

• Sim, absorvente ecológico!

• Histórias de uma outra gastronomia

• Uma outra gastronomia – parte 2

• Sem carro e sem delivery

• Por uma dieta que respeite o planeta

• Minhocas via Sedex

• Mais adubo e menos lixo

• Lugar de madeira é…

• Construtoras precisam se adaptar

• Seu Zé e as arvrinhas

• Reunião de condomínio? Não, de ecovila!

• Disk-pizza e permacultura na geladeira

• Domingão na feira de trocas

• Feira de trocas – parte 2

• Feira de trocas – parte 3

• Guarda-roupa coletivo espanta o frio

• Até quando seremos gaiatos?

PATROCÍNIO: