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Por uma dieta que respeite o planeta Giuliana Capello - 18/09/2007 às 10:45


Quando o assunto é alimentação, basta observar nas prateleiras dos supermercados os rótulos dos produtos para ver o quanto eles estão cada vez mais artificiais. O iogurte que transforma seu intestino num relógio suíço e o biscoito que ganhou fama por ser isento de gordura trans são exemplos de como nossa dieta vem se transformando ao sabor da biotecnologia.

Sintetizados e “melhorados” nos mesmos laboratórios que fabricam pesticidas, cosméticos e toda sorte de medicamentos que prometem expurgar males como a depressão e os surtos de ansiedade, os alimentos que consumimos diariamente são quase todos industrializados, se considerarmos que até o ovo da galinha agora vem com ômega 3 e menos colesterol…

Há, nessa história, pelos menos dois pontos a serem pensados: os custos que essa alimentação robótica traz à nossa saúde e o preço que ela cobra ao planeta. O ato de comer, hoje em dia, está tão desligado do ato de cultivar a terra – ou minimamente conhecer quem cultiva e como cultiva – que perdemos a noção do custo socioambiental dos alimentos que levamos à nossa mesa. Digo socioambiental para frisar, mais uma vez, que os prejudicados somos nós e o lugar onde vivemos.

No café da manhã, engolimos – entre pilhas de embalagens – o cereal da multinacional que pressiona as autoridades para liberar o cultivo de grãos transgênicos, o leite da empresa nacional que levou centenas de pequenos produtores à falência e o pão que, graças à adição de produtos químicos, continua “fofinho” mesmo depois de duas semanas.

Disfarçados de bons moços, eles não citam no rótulo as crianças mortas pelo herbicida que foi jorrado do avião sobre lavouras inteiras, mas sim a informação “contém vitamina A e cálcio”, como se isso não acontecesse espontaneamente fora da indústria alimentícia.

Nesse ponto, o marketing da natureza perde para a publicidade das grandes corporações. Ou você já viu alguma cenoura sair da terra com uma etiqueta indicando “alto teor de vitamina C”?

Para onde vamos?

Estou lendo um livro belíssimo de uma grande pensadora indiana chamada Vandana Shiva. Em “Monoculturas da Mente”, ela discorre sobre os impactos sociais, culturais e ambientais causados pela dominação do saber local pelo poder científico. Ela explica que o saber dominante do Ocidente nega ou não enxerga o saber local das comunidades tradicionais, que há milênios lidam com a floresta de forma sustentável, dela retirando alimento, combustível, lenha, forragem, fibra e fertilizante. Porém, para o “saber científico” – em outras palavras, “poder científico” – o status mais adequado a esse tipo de saber nativo seria o de primitivo e anticientífico. 

Com argumentação de quem estuda o tema há anos, Vandana dá exemplos que comprovam a superioridade do saber local em relação ao poder científico que precisa tirar a floresta de seu estado “anormal” e transformá-la num campo retilíneo de produção monocultural, regada a pesticidas e orientada pelo lucro imediato.

Assim, diz ela, algumas poucas espécies são eleitas como as melhores para serem produzidas, não porque são mais nutritivas, mas sim porque crescem rápido, pedem menos cuidados e são mais rentáveis do ponto de vista comercial.

“As camponesas conhecem as necessidades nutricionais de sua família e o teor nutritivo das safras que cultivam. Entre as plantas cultivadas, preferem aquelas com máximo teor nutritivo às que têm valor de mercado. [...] Aquilo que a Revolução Verde declarou serem cereais inferiores são, na verdade, superiores em teor nutritivo aos cereais tido como superiores, como o arroz e o trigo”, escreveu Vandana.

Prova disso está numa tabela reproduzida no livro. Ela mostra que uma porção do grão bajra tem 11,6 gramas de proteína, enquanto a mesma quantidade de arroz traz 6,8 gramas. Já o nachinim cultivado pelas mulheres de Karnataka tem 344 mg de cálcio numa determinada porção, ao passo que o trigo apresenta apenas 23 mg.

Cultivados em grandes áreas e em regime de monocultura, os cereais escolhidos pela indústria ameaçam a biodiversidade do planeta, restringindo o acesso aos alimentos tradicionais, cujos campos de cultivo estão sendo exterminados.

A história é ainda mais triste. Mas como ainda não terminei de ler o livro, deixo outros detalhes para um próximo post. E como nem tudo está perdido e já existem modelos interessantes de cultivo de alimentos e consumo consciente de verduras, frutas, leite, queijos, geléias e outras delícias, prometo escrever sobre as iniciativas de algumas ecovilas, do pessoal da permacultura e de cooperativas de produtores orgânicos.

Se você tiver sugestões ou histórias para contar, escreva-me! Também quero conhecer mais para poder “engolir” meu alimento sem achar que estou “mastigando” ou “devorando” o planeta…


Foto: Centro Comunitário da Ecovila de Findhorn, Escócia, onde os moradores se encontram para as refeições coletivas. Lá dentro, 70% dos alimentos são resultado de cultivos feitos pela própria ecovila, sem o uso de agrotóxicos. No próximo post, comento mais sobre a alimentação deles, que além de muuuito saborosa é um exemplo de respeito ao planeta.

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Comentários

06/07/2012 às 16:33 Carolina Merlo - diz:

Giulliana, estou “emocionada” em te achar, vc vai virar minha “ídala!””
Beijos!
Carolina

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GIULIANA CAPELLO

é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque, permacultora e autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Senac São Paulo). É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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