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Seu Zé e as arvrinhas Giuliana Capello - 24/08/2007 às 14:06


Matuto de Piracaia, Seu Zé é um dos meus futuros vizinhos. Ele mora num sítio que fica no caminho para a Ecovila Clareando, assunto recorrente por aqui. Sua companhia são seus 6 ou 7 cães, que “são amigos e fazem a guarda da propriedade”.

Acostumado a morar no mato, Seu Zé é um exímio conhecedor da vegetação local. Por isso, dia desses foi convidado para fazer um levantamento de espécies nos lotes de alguns companheiros da Clareando.

Infelizmente, não fiz parte do grupo que teve o privilégio de receber uma aula de botânica tão especial, mas como soube do “aconticido”, vou contar um pouco dessa história pra você.

Sorriso de menino estampado no rosto, Seu Zé é pura juventude. Para acompanhar o seu ritmo, é preciso ter fôlego – e muita atenção, porque seu sotaque caipira-que-nem-ele-só faz qualquer um franzir a testa para ver se entende o que ele fala…

Com a calma de quem mede o ritmo do dia pelo sol e os passarinhos, ele caminhou pelos campos de braquiária (capim que ficou de herança do tempo em que a área dos lotes da ecovila servia de pastagem para gado), à procura de “arvrinhas” que precisariam ser transplantadas antes das construções começarem.

Essa era a preocupação dos donos dos lotes: não cortar árvores que cresciam discretas em meio a tanto capim. A intenção era preservar os tesouros escondidos em seus pedaços de terra e, assim, ajudar no reflorestamento de toda a ecovila.

E Seu Zé superou as expectativas. “Essa pequeninha aqui é um jacarandá-paulista”, dizia, para espanto e encanto de todos. Limão bravo, goiaba-do-mato, aruera, guatambu, pinheiro-bravo, fruta-de-cavalo, pixingui, cascudinho, paineira, alecrim, aroeira-mansa e tantas outras fizeram parte da lista de árvores reconhecidas pelo Seu Zé.

A lição tirada daqueles momentos inusitados ficou clara. Mesmo onde o pasto predomina, pequenas árvores brotam espontaneamente e seguem seu caminho (missionário) da sucessão natural, dia após dia, até o clímax de floresta.

Aqueles que tiveram a chance de ouvir a sabedoria do Seu Zé (Hiroshi, Victor e Rosana, Ivan, Claudia, Antonio, Léia etc.) certamente afinaram não apenas os ouvidos – para “traduzir aquele português de ermitão” – mas também o olhar sobre a natureza.

De perto, há um mundo inteiro a descobrir em cada m² do pasto mais pobre que nosso olhar citadino possa identificar. Só é preciso trocar nossas lentes e passear por aí em boa companhia…

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GIULIANA CAPELLO

é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque, permacultora e autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Senac São Paulo). É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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