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Crise financeira ou chance para o planeta? Giuliana Capello - 04/11/2008 às 11:13


O que vou escrever agora é mais ou menos como sentar com a camisa errada na arquibancada do time adversário. Sei que a possibilidade de receber críticas é grande, mas um blog permite esse tipo de ousadia – e é dela que tiro proveito neste momento. (E tem mais, a expressão de opiniões contrárias é bem-vinda, saudável e necessária por aqui, especialmente quando o assunto diz respeito à transformação que o planeta implora no nosso estilo de vida.)
 
Nas últimas semanas, a notícia que mais teve repercussão na mídia foi a queda estrondosa nas bolsas de valores do mundo inteiro. Tudo virou pretexto para falar dela: “Candidato, como o seu governo pretende driblar a crise?” “Fulano, será que seu passe vai ser desvalorizado com a crise?” “Beltrano, será que vai dar para comprar presentes importados nesse natal?” “Cicrano, e o crescimento do PIB do Brasil, como vai ficar?”

De tudo o que li e vi na imprensa, o que mais me deixou inconformada foi a homogeneidade do discurso. Nenhum economista ou analista financeiro entrevistado citou possíveis vantagens que a crise poderia trazer. Nenhum. Nenhum veículo de comunicação parou para pensar numa pauta que pudesse investigar um outro lado dessa história. Nem um único sequer*.

Chamo essa martelada insistente num único ponto de vista de lesão por esforço repetitivo (LER). De tanto ouvirmos que a economia precisa crescer e crescer, de tanto enfiarem na nossa cabeça que quando cai o consumo, caem também a economia e as pessoas, ficamos assim: acríticos e reféns do medo – do jeitinho que os poucos e grandes jogadores desse pôquer sem graça gostam.

Mas será que o PIB é a melhor maneira de medir o desenvolvimento de um país? Tenho dúvidas. Por quê? Bom, tudo o que movimenta a economia é contabilizado no PIB. Tudo mesmo. De acidentes nas estradas e surtos de doenças a terremotos e tsunamis. Botou dinheiro para circular, entrou no PIB. Sabia que o PIB dos países atingidos pelo tsunami que matou milhares de pessoas no Pacífico, anos atrás, cresceu depois dos desastres, por conta do que se gastou para reerguer os locais atingidos? Dá para chamar isso de desenvolvimento?

Um grande autor e pensador contemporâneo, que morreu dois ou três anos atrás, revolucionou meu modo de enxergar o PIB. O nome dele era André Gorz, criador da idéia de crescimento negativo. Como assim? Ele defendia que os países teriam uma evolução mais significativa e consistente se conseguissem caminhar para um PIB negativo. O que para nós soa como recessão, para ele era uma chance de aumentar a autonomia da população, pois menos atividade econômica monetária significaria mais gente plantando para consumo próprio, trocando bens e serviços, aprendendo a costurar suas roupas, fazer seus móveis, economizar água e energia, fazer cultura (cantar, dançar, interpretar) e não apenas consumir cultura (freqüentar cinemas, teatros e shows de música). Em resumo, menos movimento econômico e mais desenvolvimento de habilidades e trocas interpessoais. Não faz sentido?

Exatamente por isso, ouso dizer que essa crise é uma oportunidade importante para a humanidade, um fôlego extra ao planeta, que respira menos afoito com a diminuição da produção industrial e do consumo. Menos consumo quer dizer  menos gente comprando carros, brinquedos de plástico, equipamentos eletrônicos, roupas, sapatos…

Bom mesmo seria se ela levasse a uma reflexão mais profunda a respeito do nosso jeito de encarar a economia e reinventar nossa visão de riqueza e pobreza. Pena que, se depender da imprensa mundial, os altos e baixos nas bolsas de valores continuarão a ser motivo de calafrios para bilhões de nós.

* Ganhei do meu marido o n#1 da recém-lançada revista Sustenta!, da Editora Matraca, que ainda pode ser encontrada nas bancas. E, pasmem, não é que ela traz uma reportagem sobre os efeitos positivos da crise internacional na Amazônia! Vale a pena ler.

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, CASA CLAUDIA e BONS FLUIDOS. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.

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