Gaiatos e Gaianos

Publique
o selo
no seu blog

As ecovilas e as mudanças climáticas Giuliana Capello - 23/09/2008 às 12:34

Não é difícil listar o que seria uma cidade mais sustentável e eficaz na redução das emissões de carbono. Até sabemos o que deve ser feito e temos a tecnologia e os recursos para isso. Em dez segundos, por exemplo, quantas sugestões você consegue formular para a sua cidade? O que falta, então? Vontade política? Empenho dos cidadãos? Coragem de mudar? Ou uma catástrofe para “iluminar” nossas consciências?

Nesta semana em que os blogueiros do Planeta Sustentável voltam-se para a possibilidade de São Paulo conquistar uma política de mudanças de clima, convido você, leitor, a uma reflexão: como uma megacidade como São Paulo teria condições de se tornar mais sustentável, se ela é, em si, uma medida urbana insustentável?

Já ouviu falar no conceito de ‘escala humana’, que resgata aquela dimensão em que nós humanos nos sentimos confortáveis para viver e interagir com o meio? Aquela medida em que reconhecemos as pessoas nas ruas ou somos capazes de percorrer a cidade de um lado para outro a pé ou de bicicleta? Pense nas primeiras cidades que surgiram no planeta. Como elas eram? Uma pequena parte do menor bairro de São Paulo (se muito), com muita área verde, produção de alimentos e (acredite!) sem petróleo! E não é que as pessoas viviam sem ele!

Pense agora na idéia das ecovilas. O que são esses assentamentos humanos senão pequenas amostras do que a humanidade pode (re)aprender a fazer para recolocar nosso estilo de vida em trilhos mais sustentáveis – para nós e para a Terra? Não estou dizendo que as ecovilas são a quintessência da sustentabilidade, mas não tenho dúvidas de que elas caminham para isso – tanto que foram eleitas pela ONU como modelos sustentáveis de habitação humana para o século XXI.

Veja, por exemplo, a ecovila Findhorn, na Escócia, uma das mais conceituadas e antigas do mundo, localizada a dez minutos de Forres, uma pequeníssima cidade ao norte do país. Lá vivem cerca de 800 a mil pessoas. As casas são energeticamente eficientes, construídas com materiais ecológicos, abastecidas com energia eólica produzida na própria ecovila. A alimentação é garantida pela plantação local de legumes, verduras e frutas. Queijos, leite, ovos e grãos vêm de sítios vizinhos que garantem a produção orgânica. Uma padaria própria oferece à comunidade pão integral diariamente.

Mais: o esgoto é tratado localmente por filtros de raízes de plantas, que sugam as impurezas e devolvem água limpa para ser novamente usada. As ruas são estreitas, para privilegiar o pedestre, o ciclista e a segurança das crianças, que brincam à vontade. Os poucos carros que circulam em algumas ruas da ecovila são comunitários, pois os moradores fazem uma escala diária para o uso dos automóveis, que raramente saem de lá com apenas uma pessoa no veículo. Há ainda uma moeda solidária de circulação interna, o Eko, que facilita a troca de bens e serviços, fortalecendo a economia e os saberes locais.

Findhorn fez recentemente um estudo para medir a pegada ecológica da ecovila e, adivinhem, descobriu que tem uma das menores de toda a Grã-Bretanha. A meta agora é estudar ainda mais a fundo as emissões de CO2, para reduzir ainda mais o impacto de seus moradores sobre as mudanças climáticas.

Quer outro bom exemplo? Beddington Zero Energy Development (BedZed), na periferia de Londres, uma espécie de condomínio auto-sustentável em termos energéticos, que faz uso exclusivamente de energias renováveis. As casas foram planejadas para minimizar a necessidade de energia e água. Placas fotovoltaicas produzem energia solar, lascas de madeira servem ao aquecimento das residências e escritórios e 50% da água é tratada e reutilizada. BedZed prioriza carros elétricos ou movidos a gás e encoraja os moradores a aproveitar a boa oferta de transporte coletivo nas proximidades.

Bill Dunster, arquiteto responsável pelo projeto, costuma dizer que não inventou nada, apenas agrupou soluções já conhecidas de todos e que, sem dúvida, combatem sem rodeios o aquecimento global. Está aí a grande sacada: pensar holisticamente, integrar elementos, planejar para consumir pouco. Tudo que, digamos, falta a São Paulo e a outras tantas e tantas cidades.

Para mim, remendar São Paulo é tarefa das mais complicadas. Mas não impossível.  Acredito que a saída está nos bairros, nas pequenas células de vida da cidade. É na valorização dos bairros que mora a chave para a redução das emissões de CO2. No meu dia-a-dia, procuro resolver tudo o que preciso no meu bairro, começando pelo trabalho, mais em casa do que na redação. Meus mercados preferidos são os pequenos, de comerciantes heróicos que ainda resistem às redes estrangeiras de hipermercados. Uma ida ao banco ou um almoço fora de casa podem render uma caminhada. A escola de ioga também fica perto, além da padaria, do sapateiro (eles ainda existem!), da vendinha de legumes e verduras, uma loja ou outra, farmácia homeopática, o parque da Aclimação, e por aí vai.

Cortar as emissões de carbono deve começar em casa, depois no bairro, depois na cidade. Sem essa lógica, fica difícil. E pode vir o projeto de lei mais lindo do mundo que de nada adiantará. Mas se a população estiver desperta, a mais simples mudança trará resultados efetivos, dignos de se comemorar nessa entrada da primavera.

ver este postcomente
Comentários

3 de March de 2011 Anonymous - diz:

Humberto Vieira – diz:Cara Giuliana, estamos iniciando a criação de uma comunidade voltada para a nova era. Talvez queira conhecer.Trata-se de uma ecovila, mas estamos procurando um meio de maior integração entre as famílias. http://ecovilavaledaluz.blogspot.com/Forte abraço e muita paz.Humberto Vieira

Deixe aqui seu comentário: Preencha os campos abaixo para comentar, solicitar ou acrescentar informações. Participe!

Enviar

Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, CASA CLAUDIA e BONS FLUIDOS. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.

Posts anteriores

• Teste drive do banheiro seco

• O planeta numa bandeja (de isopor)?

• Reflexões sobre o slow life e a internet

• A face feia dos cosméticos

• Vasos para melhorar o trânsito

• Primeira virada em casa!

• 2012: ano para entender o planeta

• Pratique a observação!

• Greenbuilding para pássaros

• Belo Monte, Rachel Carson e minhas velas artesanais

• O caipira e a mobilidade urbana

• O que dar a alguém que já tem “tudo”?

• Pela volta do fogo doméstico

• O empurrãozinho que faltava…

• Um lugar em você chamado Ahimsa

• RPPN El Nagual: cooperação, amizade e inspiração

• Dez anos de um sonho

• Você quer ser bom ou justo?

• É primavera em mim

• E viva o decrescimento

• Um guarda-chuva para dois verões

• E quando não há rede de esgoto?

• Quem casa quer casa (ecológica!)

• Se não é divertido, não é sustentável

• Lunática com muito orgulho

• Secador solar e generosidade

• Doze metros de muita história

• Velhice x terceira idade

• Infância desplastificada

• Um dia sem telas

• Um luxo chamado Tempo

• Horta de fundo de quintal

• Liberdade anda junto com sustentabilidade

• Produtos que não deveriam existir

• Lixo é uma questão topológica

• Celebração de blogueira

• Você e o fim da sacolinha em SP

• A lição do Ubuntu ancestral

• Ecovila: no pasto ou na mata nativa?

• Cada um com seu entulho

• O descaso com o lixo orgânico

• Espiritualidade e vida comunitária

• Produzir ou consumir cultura?

• Fukushima e você

• Trocas solidárias que enriquecem

• Lavar roupas sem sabão!

• Acordos comunitários para a ecovila

• O valor de uma árvore

• A chegada de uma nova vida

• Por que o simples é tão complicado?

• Impressões do interior

• Só tecnologia não salva o planeta

• Bioconstrução na serra fluminense

• Um bairro em transição

• Petrofóbicos e locávoros, uni-vos!

• Permacultura para transformar

• Água de chuva, muita chuva…

• Partida e chegada

• A nova história dos três porquinhos

• 365 dias mais ecológicos

• Maternidade e natureza

• Livrai-nos dos pecados do greenwashing!

• Pesadelo de consumo

• Dias de mudança (e desapego)

• Sustentável e mais barato, sim!

• Quem faz a sua comida?

• Ecovila: mutirão na represa!

• Cohousing: morar com amigos

• Esgoto bacana e ecológico

• Superadobe ou terra ensacada

• Primavera com onça e lobo-guará!

• Bioconstrução para multiplicar

• Feriado unplugged

• O que é viver bem?

• Jardim de histórias

• Por que adoro hortas permaculturais

• O joio e o trigo

• Máquinas descartáveis?!?

• Parques x hidrelétricas

• Atire bolas de semente!

• Sobre as boas tradições

• Precisamos de uma escola!

• Sobre a formação de uma ecovila

• Festa junina na ecovila

• Quando o tamanho é documento

• Terra fértil e sangue menstrual

• O tempo de uma casa

• O centro comunitário da ecovila

• Tempo para a arte

• Medicina ecológica?

• O céu de todos e de cada um

• Aqui e agora

• Sabedoria das ervas

• Qual é a sua sustentabilidade?

• Privacidade numa comunidade

• Ecodesign para cuidar do planeta

• Home centers e produtos ecológicos

• O valor do silêncio

• Ecovila com horta… e sem delivery

• A conta de gasolina na ecovila

• Patos, galinhas e outros bichos

• Despedida na ecovila

• Conectada, finalmente!

• Menos tv, mais horta

• O recado das crianças

• Os pedreiros somos nós!

• Esperança e cooperação na ecovila

• O tempo é o novo regente

• Sobre a proximidade do fim

• A COP15 e a síndrome do panetone

• Histórias de uma parteira na Amazônia

• Multiplicar é muito bom

• Governança na ecovila

• Morar em vila…em São Paulo

• Gestão do lixo na ecovila

• Ecovila e sustentabilidade econômica

• Um carro, um jipe ou um cavalo?!

• Parede de toquinhos

• Casa com água da chuva

• Para iluminar a casa e curtir a noite

• Festa da primavera

• Uma casa para abrigar nossos sonhos

• Uma moldura para o horizonte

• A composteira da minha avó

• Quando o ecológico não é bem ecológico

• Tijolos de adobe

• Não sei se é verdade, mas repasso?!?

• Por que adoro feiras de trocas

• Ecovila sem internet?

• Entre amigos

• Minha casa num programa de tv…

• Ah, esse excesso de e-mails…

• Trabalho de formiguinha

• Socorro, não aguento mais SP!

• Para tecer uma vida na ecovila

• Entre na onda das roupas usadas

• Mão na massa, sem discursos

• Mata atlântica: mais que uma efeméride

• Como construir uma ecovila?

• O que fazer com a madeira que sobrou?

• Histórias de reúso, economia e bons amigos

• Frio na barriga…

• Mutirão de solo-cimento

• Encontro de ecovilas!

• Sua casa pode ser uma ecovila

• Meu telhado verde, verdinho, verdinho

• Celebrar ajuda a enfrentar problemas

• Yoga e sustentabilidade

• O segredo da abóbora mágica…

• Dona-de-casa, eu?!?

• Quanto vale o nosso trabalho?

• Forno de pizza de barro

• Meus vizinhos, minha família

• Mosaico de vidros usados

• A insustentável mão-de-obra

• Sorvete de inhame!

• De que é feita a minha casa?

• Parede de garrafa?!

• Composteira de novo!

• O Natal pode ser ecológico?

• A alegria de viver em comunidade

• Infância ecológica

• Devagar é mais gostoso

• Mitos e vícios modernos

• Crise financeira ou chance para o planeta?

• O que eu vou fazer numa ecovila?

• Fãs de pau-a-pique

• Construir com as próprias mãos

• Parto natural e ecológico

• Confissão: eu não passo roupas

• As ecovilas e as mudanças climáticas

• Slow life: vida mais calma, lenta e confortável

• Paredes vivas de Cob

• Dividir para ter mais

• Tomada de decisão por consenso

• Simplicidade voluntária

• Bicho de ecovila

• Brechó arquitetônico

• Histórias de João-de-barro

• Tapioca: regional, gostosa e sustentável

• Para ter uma composteira caseira

• Mutirão de telhado verde

• Malhação para o planeta

• Minha casa na ecovila

• Catadores de esperança

• Água no copinho plástico? Tô fora!

• Música para sentir a natureza

• Bioconstrução e desastres naturais

• Democracia, consenso ou autocracia??

• Entulho não é lixo!

• Viva o pequeno agricultor!

• Educação para o campo

• Meu bairro, minha cidade

• Por trás do velho clichê

• Para construir uma comunidade

• O prazer das compras solidárias

• O tempo do sol e da lua

• Poluição e Arte dentro do túnel

• Riqueza para além do dinheiro

• Catadora, com muito orgulho

• Nós e a natureza, conectados

• High tech ou low tech?

• Impressões de uma ecochata (?) na Campus Party

• Horta vertical para pequenos espaços

• Receitas naturais para curar a ressaca do carnaval

• Aprendendo a costurar com a avó

• Festa infantil não precisa ser descartável!

• Telhado ou jardim?

• Consumo verde: tarefa difícil mas necessária

• Permacultura: do linear ao cíclico

• Um mergulho na Permacultura

• Cinco dias com o arquiteto descalço

• Banheiro seco? Como assim?!

• Sustentável é também saber ouvir

• Permacultura: transformando problemaem solução

• Uma delícia de mutirão

• O dia em que adotei a Sofia

• Falta de civilidade é fogo (na mata)!

• Design natural é tudo de bom!

• Dividir a lavanderia com o vizinho?!?

• Abaixo as fraldas descartáveis!

• Sim, absorvente ecológico!

• Histórias de uma outra gastronomia

• Uma outra gastronomia – parte 2

• Sem carro e sem delivery

• Por uma dieta que respeite o planeta

• Minhocas via Sedex

• Mais adubo e menos lixo

• Lugar de madeira é…

• Construtoras precisam se adaptar

• Seu Zé e as arvrinhas

• Reunião de condomínio? Não, de ecovila!

• Disk-pizza e permacultura na geladeira

• Domingão na feira de trocas

• Feira de trocas – parte 2

• Feira de trocas – parte 3

• Guarda-roupa coletivo espanta o frio

• Até quando seremos gaiatos?

PATROCÍNIO: