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Quando caminhar importa mais que o destino Giuliana Capello - 08/06/2015 às 08:05

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Este é o post de número 389 publicado aqui no blog, depois de oito anos de muitas histórias, descobertas e profundas transformações pessoais. Com tanta mudança, sinto que já nem me assusto quando algo em mim ou no meu entorno acontece e, então, mais uma mudança vem e torna-se inevitável, natural, fluida. Aliás, viver é aprender a permitir-se estar sempre em movimento. Água parada não é legal. O rio que corre livre, que desvia das pedras, que recebe peixes e folhas, que nasce olho, que vira córrego, que vira correnteza, que perde as margens para o horizonte; este, sim, representa a vida – e, mais do que isso, simboliza a vida que quero experimentar, viver, desfrutar, consagrar, a cada instante.

Por isso, chegou a hora de mais uma transformação. Neste quase fim de outono, deixo este espaço, ao qual serei sempre grata, para traçar novos caminhos. Mas não quero ir sozinha, porque encontrei muita gente bacana por aqui, com quem troquei ideias, compartilhei sonhos, me emocionei, me inspirei, aprendi. Para mantermos essa rede viva, o ‘Gaiatos e Gaianos’ está no Facebook: www.facebook.com/gaiatos-e-gaianos. Visitem, curtam a página, fiquem por dentro das novidades!

Foi um enorme prazer trabalhar com toda a equipe do Planeta Sustentável, sempre incrivelmente engajada e disposta a produzir mais e melhor a cada dia. Agradeço, especialmente, a editora Mônica Nunes, por ter visto beleza nas histórias que eu contava a ela, e por acreditar que valia a pena compartilhá-las com mais pessoas.

Minutos atrás, só por curiosidade, voltei ao primeiro post publicado aqui, em 25 de julho de 2007, para checar se aquelas palavras ainda ressoavam em mim. Fiquei contente com o que li e, por isso, resolvi reproduzir um trecho para você, que explica um pouco o nome deste blog:

“Gaiatos de Gaia, da mãe Terra, do planeta vivo estudado por James Lovelock. É isso o que somos. Gaianos seríamos se cuidássemos da Terra, se soubéssemos ouvi-la, entendê-la. Até aqui, no entanto, somos ainda gaiatos, habitantes desconectados de Gaia. E esse é o assunto deste blog. Gaiatos e gaianos. Em menor ou maior grau, sabemos que alguma coisa está errada, que é preciso mudar nosso jeito de habitar esse planeta. Então, em vez de ficar aqui apontando o dedo para quem “está errado”, julgando as gaiatices do vizinho, do empresário e do governante, decidi contar histórias que falam de gente que tenta, dia após dia, tornar-se um gaiato mais gaiano. Receitas importadas de bolo, às vezes, pedem adaptações, mas bons exemplos, ao contrário, costumam ser universais. Aqui, vou contar sobre minha experiência com alguns movimentos interessantes que estão pipocando no mundo inteiro e que têm em comum a vontade de reinventar nosso agir no mundo: as ecovilas, a permacultura, o pessoal da simplicidade voluntária, do movimento slow life e do consumo consciente, da agricultura orgânica, da economia solidária, das cooperativas de reciclagem, da construção sustentável e de tantas outras iniciativas que, acima de qualquer coisa, representam uma esperança. Em quê? Em nós mesmos. Gaiatos que (ainda) somos.”

 

Nos vemos no caminho!

Um abraço fraterno, sincero, pleno de gratidão,

 

Giuliana Capello

(giuliana.capello@gmail.com)

 

P.S.: Já sinto saudade…

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O mundo que não se vê das mulheres que amamentam Giuliana Capello - 02/06/2015 às 17:34

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Responda rápido: quando foi a última vez que você viu uma mulher amamentando seu bebê em algum lugar público? Conseguiu lembrar ou sequer tem registro recente de uma cena dessas? Pois é, parece que o mundo não anda muito simpático às mães que ainda preferem o cada vez mais obsoleto e assombroso jeito natural de fazer as coisas. É impressionante.

Dias atrás, recebi de uma amiga querida a indicação de leitura de um post do blog Uma vez Mamífera , no qual a autora, Renata Penna, lista nove perguntas (inadequadas e dispensáveis) que mães que amamentam ouvem com mais frequência do que deveriam (ou mais do que a paciência costuma aguentar sem perder a elegância). Estão entre as indelicadezas questionamentos como “você não quer amamentar num local mais reservado?”, “não quer se cobrir um pouquinho?”, “já vai mamar de novo?” ou “mas, com essa idade e ainda mama?”.

Por que será que amamentar incomoda tanto? Tenho vontade de listar aqui uma série de explicações (ligeiramente provocativas) para tentar clarear ou, ao menos, convidar à reflexão sobre esse universo tão especial e, ao mesmo tempo, tão renegado, esquecido, desprezado e, às vezes, até um pouco ridicularizado (inclusive por mulheres!).

É como se a sociedade gritasse: “Mulher vulgar, sim. Feminina, nunca.” É ou não é? Se ligarmos a tevê e zapearmos por alguns minutos, veremos mais peitos quase nus, destacados por decotes ‘umbilicais’ ou roupas ‘mais justas que Jesus’ do que em qualquer sessão coletiva de amamentação. Qual a diferença? Sei lá! Talvez estejamos mais acostumados com a presença midiática da mulher escultural, que vive em função do corpo (que parece de plástico e que, no fim, é tudo igual), do que com a mulher de verdade, que acorda descabelada, que aceita suas imperfeições como belezas singulares, que vê, portanto, naturalidade no ato de amamentar – em qualquer lugar.

É preciso ser muito mulher, mas muito mesmo, para dar um nó na vulgaridade e permitir-se à feminilidade. Talvez por isso incomode tanto. Peito de mulher amamentando não tem absolutamente nada de vulgar. É feminino demais! E, sabe como é, mulher feminina tem muitos poderes – e isso me lembra, inevitavelmente, a caça às “bruxas” lá da Idade Média. Da Idade Média, certo?

Exageros à parte, algo de muito estranho entre nós ainda cria quase um tabu para o ato tão natural e orgânico de amamentar. E, pode reparar, tudo aquilo que parece não estar bem ajustado à norma (não tão invisível assim) ou ao “espírito do tempo” da nossa sociedade acaba sem lugar para acontecer – literalmente – e daí a ser considerado impróprio é um pulinho.

Não estou defendendo a criação de “mamódromos” em shopping centers, livrarias, cafés, empresas etc., porque essa segregação poderia servir de trampolim, tempos depois, para a proibição do ato de amamentar em lugares públicos. E, definitivamente, não seria o caso. Mas, é claro, seria muito bonito ver tal segregação virar acolhimento, isto é, existir na forma de espaços mais convidativos e agradáveis (com menos barulho, menos frio ou, pelo menos, um banco para sentar, por exemplo) para passar alguns minutos de paz e amor com nossos bebês.

Amamentar, continuando a saga, talvez esteja também na lista das atividades simples que, de tão simples, caíram em descrédito com o aclamado “avanço tecnológico”. Veja só: por que amamentar, se a indústria já oferece fórmulas prontas e práticas (?!) para nutrir os pequenos? Por que sofrer com as dores e incômodos no peito, típicos e razoavelmente comuns entre as novas mães, e ainda correr o risco de ficar com o peito ‘caído’ em pleno reinado da estética do silicone? Ah, quem nunca escutou isso de alguma mulher, que venha correndo me contar! (risos)

Semanas atrás fui ao supermercado com minha filha no colo e, depois de quinze minutos, ela me deu todos os sinais de que queria mamar. Não tive dúvida. “Roubei” o banquinho do repositor da prateleira de atum que havia ido buscar mais latas e sentei na seção dos molhos de tomate. Apesar do mercado cheio, ninguém passou pelo corredor onde estávamos durante os longos dez minutos em que ficamos ali, conversando sobre o amido geneticamente modificado que está em praticamente todas as opções de molhos prontos. Por que será?

Já amamentou seu filho no ônibus ou na fila do banco? Provavelmente, não. Mas, se isso aconteceu (uau!), certamente você foi o centro das atenções, não? E isso seria ótimo (quem sabe, um dia?), se atenção pudesse rimar com aceitação e respeito. E já vou indo, que minha filha acordou e quer mamar.

Foto: L’appagamento satisfaction via Photopin

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Ursinhos adorados, tamanduás esquecidos Giuliana Capello - 19/05/2015 às 14:28

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Desde que entrei para o maravilhoso mundo mágico (e maluco) da maternidade, tenho reparado em algumas coisas curiosas. Uma delas é a incrível fixação que temos pelos… ursinhos. Eles estão em quase todos os produtos de bebê, dos brinquedos e roupinhas às mamadeiras, objetos de decoração, enxoval, personagens de animação, fraldas, banheiras, termômetros e o que mais você puder imaginar.

Nada contra os ursos, obviamente. Eles são realmente fofos – pelo menos, nessas circunstâncias. Mas, fico pensando, estamos no Brasil, não? Não poderia ser bacana também estampar artigos de bebê com bichos da nossa fauna? Sim, porque além dos ursos (e dos pets, cães e gatos, é claro), temos com frequência no mundo infantil girafas, zebras, elefantes, leões, tigres brancos, hipopótamos, crocodilos, rinocerontes, o safári inteiro!

Onde estão as ararinhas-azuis, os tamanduás-bandeira, tatus, micos-leões-dourados, tuiuiús, onças-pintadas, quatis, botos-cor-de-rosa? Por que não vemos veados-campeiros, antas, bugios, araras-canindé, sapos-cururu? O que pode estar por trás dessa (não tão) inocente preferência pelos animais “estrangeiros”?

Fico pensando se essa constância da fauna exótica no universo pueril não teria ligação com nossa cultura colonizada que, ainda hoje, adora (ou aprendeu direitinho a) cultuar o american way of life. Nosso mundo globalizado move-se pelo vício de achar o quintal do vizinho sempre mais bonito, de desejar o que se faz lá fora, o que dizem os anúncios publicitários, o cinema e a tevê, o que dá status entre as famílias minimamente abastadas do hemisfério Norte. Ursinhos são legais, tatus são cafonas…

Mas, enquanto as crianças se divertem com zebras azuis e girafas de bolinhas vermelhas, sem entender muito bem onde vivem esses animais ou mesmo se eles existem ou são personagens da nossa imaginação (ainda que isso tudo faça parte de uma infância saudável), os adultos brincam de um faz de conta sem graça nenhuma: os elefantinhos fofos nas roupinhas dos bebês escondem a matança e a cobiça pelo marfim que está exterminando a espécie do planeta. Leõezinhos e tigrinhos sorridentes mascaram a crueldade dos crimes movidos pela vaidade de ter em casa um tapete de pele ou uma cabeça empalhada para pendurar na parede como um troféu de poder.

Em terras tupiniquins, esses animais somente são vistos nos zoológicos, onde, aos mais desavisados, parecem ter nascido exclusivamente para nosso deleite e lazer. Estão, em outras palavras, constantemente desconectados de seu ecossistema, da teia da vida. São como… brinquedos.

Nossa rica fauna, sabe-se lá por quê, nem de brincadeira parece ser interessante. E isso é muito sério. Desde muito cedo somos levados a não enxergar tucanos, carcarás, queixadas. Eles não aparecem nas camisetas, nos desenhos da tevê, no biscoito recheado. E se não os vemos, não podemos protegê-los ou ter motivos para conservar seu hábitat.

Lembrei-me do relato de um ambientalista que, certa vez, me contou sobre a dificuldade de criar campanhas patrocinadas para a conservação de animais que não são eleitos como “fofinhos”, e estão à beira da extinção. “Ninguém quer ter sua marca associada, por exemplo, a pererecas, por mais importante que seja sua função em determinados ecossistemas”. Mas, vida não é sempre vida? Devemos hierarquizar e definir quais valem mais ou têm o direito de se perpetuar no tempo? Não faz muito sentido.

Não sou pedagoga, professora ou psicóloga. Posso até dizer alguma bobagem aqui, mas sinto seria bonito ver beija-flores e bichos-preguiça no imaginário dos nossos pequenos. Crianças brasileiras podem saber imitar o som de um urso, mas raramente conseguem reconhecer o canto de um sabiá-laranjeira ou de um bem-te-vi.

Que universo estamos criando com isso? Quais os efeitos dessas escolhas? Lembrei-me também da cômoda do meu quarto, que adaptei para ficar com cara de móvel infantil. Troquei os puxadores das gavetas por bichinhos feitos em madeira. A artesã tem um catálogo lindo, com dezenas de opções. Pensei no nosso dia a dia, no lugar onde vivemos, e escolhi animais que minha filha irá ver com frequência por aqui: galinha, cavalo, pato, vaca, peixe (este último, se ou quando a água voltar às represas da região). Não tinha garça, capivara, lobo-guará, teiú.

Imagino-me sentada no chão do quarto, contando e ouvindo dela histórias inventadas de improviso, a partir desses elementos que, ainda que não sejam da fauna silvestre, não estarão cerceados à fantasia, mas também à natureza que se quer viva, bem cuidada, que precisa de rios limpos, árvores em pé, terra sem veneno.

Brincadeira de criança pode criar mundos incrivelmente mais reais do que nossa vã filosofia consegue explicar. E, fato é, infância é lugar de sonhar. Que possamos permitir, então, sonhos mais amorosos e encantados também com nossa biodiversidade.

Foto: Tambako The Jaguar via Photopin

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GIULIANA CAPELLO

é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque, permacultora e autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Senac São Paulo). É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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