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Qual o sentido do seu trabalho? Caco de Paula - 03/05/2012 às 10:12


Giannetti: “Nem tudo o que importa em economia pode ser medido numericamente”

Entrar em contato com mentes brilhantes é um privilégio que merece ser compartilhado. Dias atrás, durante um seminário sobre inovação organizado pela Abril, acompanhei uma palestra do economista e filósofo Eduardo Giannetti e tive a oportunidade de fazer algumas perguntas. Professor do Insper – Instituto de Ensino e Pesquisa, em São Paulo e autor de vários artigos e Iivros, Giannetti considera muito difícil estabelecer maneiras de medir felicidade da forma como hoje se medem as receitas na economia. Mesmo assim, chama atenção para o valor do sentimento de felicidade no trabalho. Um dos temas de seu interesse, frequentemente citado, é o do trabalho alienado, descrito por Marx. Pergunto-lhe se existe uma relação direta entre felicidade – ou um sentimento de satisfação – e a capacidade de inovação. Como ver isso no ambiente de trabalho?

REMUNERAÇÃO ALÉM DO SALÁRIO
Gianetti: “Reter talentos e pessoas criativas depende muito de essa pessoa estar em um espaço em que ela se sente bem. Se está naquela situação do trabalho alienado do Marx,  ela não vai querer ficar muito tempo nesse lugar, inclusive porque ela não tem opções. Criar um ambiente de trabalho no qual a pessoa se sinta feliz e perceba algum sentido de realização no que ela faz, é uma remuneração, eu diria, tão importante quanto, a partir de um certo nível de renda, receber mais renumeração. Até um certo nível de renda, você pode fazer praticamente qualquer coisa para ter a sua renda, para garantir o básico, qualquer um de nós vai aceitar. A partir de um certo nível de renda, outras coisas, não tão diretamente mensuráveis, passam a contar mais. O que faz sentido pra mim? Me dá um sentimento de realização? É prazeroso? Eu me sinto bem nisso, acordo disposto para fazer isso ou é uma luta todos os dias para eu chegar lá? Tenho controle do meu tempo?”.

TEMPO, RECURSO NĀO RENOVÁVEL
“Eu imagino que, a partir de um certo nível de renda, o controle que você tem do seu tempo vale mais do que ter mais renda; porque esse é um budget inescapável, o dia tem 24 horas para todo mundo, não importa o quão rico você seja. E talvez, quanto mais rico você é, mais atormentante seja o budget restrito do tempo, porque você tem muitas opções; hoje eu vou para Paris ou eu vou andar de veleiro? (risos). O uso do tempo é uma coisa que me interessa muito: como é que se distribui o tempo nas nossas vidas e o controle que você tem sobre o tempo restrito, inevitavelmente no budget do dia que você dispõe. Então, eu acho que nós estamos buscando métricas. Nós sabemos os defeitos das métricas que ali estão, especialmente a monetária, que está se revelando cada vez mais deficiente para muita coisa. Mas, encontrar algo com essa objetividade, esse compartilhamento não dá para ter dúvida nessa métrica, nas outras todas tem margem para muita dúvida e percepção; é muito complicado. Tinha um físico que dizia: ‘A Física gosta da medida, tudo o que importa no final é medida. A economia não é a Física’. Então, nem tudo que importa na economia, dá para medir numericamente”.

Creio que há um ótimo tema a ser aprofundado nessa questão do uso do tempo, que alguém já definiu como o mais precioso entre todos os recursos não renováveis. Questão que, aliás, faz parte do rol de temas abordados nos métodos propostos para mensuração de Felicidade Interna Bruta a partir do modelo do Butão, hoje discutido internacionalmente. Espero poder voltar a falar com Giannetti a respeito desses temas levantados por alguns de seus colegas economistas sobre métricas de felicidade. Por enquanto, o que dá para saber é que ele não acredita que essas discussões estejam avançadas. “Existe uma preocupação em encontrar maneiras mais inteligentes de avaliar resultados do que a restrita métrica monetária. Mas há muita dificuldade de encontrar alternativas que não sejam totalmente subjetivas, ou declarações que não há como comparar, que não pertencem ao mesmo domínio comparável”. Voltaremos ao assunto – e ao professor Giannetti.

Leia também:
Economicamente incorreto

Foto: Silvia Zamboni / Folhapress

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Qual é o caminho para a felicidade? Caco de Paula - 23/04/2012 às 18:00

“Estudos realizados por psicólogos, economistas, pesquisadores de opinião, sociólogos e outros mostrou que a felicidade – embora seja de fato uma experiência subjetiva – pode ser objetivamente mensurada, avaliada, correlacionada com funções cerebrais observáveis, e relacionada às características do indivíduo e da sociedade”. Esta afirmação que o economista Jeffrey Sachs traz em seu texto de introdução ao Relatório Mundial sobre Felicidade (World Happiness Report*) não é aceita por toda a comunidade de economistas. Mas, a cada dia, é aceita, observada e estudada por mais e mais economistas que admitem os limites e imperfeições dos meios de medir progresso e desenvolvimento.

Preparado pelo Earth Institute*, da Universidade de Colúmbia, o Relatório é uma das bases acadêmicas da discussão proposta pelas Nações Unidas sobre a necessidade de indicadores de progresso e de desenvolvimento que se situem além dos indicadores de crescimento de renda. Esse é o caminho para a discussão e formulação de métodos para medir, de forma objetiva, alguns aspectos de satisfação ou bem-estar subjetivo, ou, ainda Felicidade Interna Bruta (FIB). A introdução do relatório, feita por Sachs, começou a ser publicada aqui no post anterior e é concluída agora, com a segunda parte do texto reproduzida a seguir (aqui traduzido com a colaboração de Nancy Juozapavicius). FIB, como se verá a seguir, é uma medida da qual se ouvirá falar cada vez mais, seja nas faculdades de economia ou em organismos governamentais, seja nas empresas e até mesmo entre as famílias.

“Devemos perseguir um PIB alto até a ruína ambiental?” – provoca Sachs, para quem essa será uma das mais importantes discussões da Conferência Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que se realizará no Brasil em junho deste ano. Ao texto de Sachs!

REPENSANDO AS CHAVES PARA A FELICIDADE
A lógica da economia ocidental de um PIB sempre em crescimento é construída sobre uma visão de humanidade completamente em desacordo com a sabedoria dos filósofos, com as pesquisas dos psicólogos e com as práticas dos publicitários. O economista assume que os indivíduos são tomadores de decisões racionais, que sabem o que querem e como consegui-lo, ou sabem como chegar o mais perto possível disso considerando seu orçamento. Indivíduos se preocupam amplamente com eles mesmos e obtêm prazer principalmente pelo consumo. As preferências individuais como consumidores são garantidas ou mudam de maneiras que podem ser antecipadas pelos próprios indivíduos. Alguns economistas dizem até que os viciados em drogas agem “racionalmente”, conscientemente trocando os benefícios iniciais do uso de drogas pelo alto preço do vício. Esses economistas podem até dizer isso, mas não se atrevem a examinar essa tolice mais de perto! Cada vez mais compreendemos que precisamos de um modelo muito diferente de humanidade, no qual sejamos uma interação complicada de emoções e pensamento racional, tomadas de decisões inconscientes e conscientes, pensamento “rápido” e “lento”. Muitas de nossas decisões são guiadas pelas emoções e instintos, e somente mais tarde racionalizadas em pensamentos conscientes. Nossas decisões são facilmente “carregadas” por associações, imagens, contexto social e publicidade. Somos inconsistentes ou “irracionais” em escolhas sequenciais, e falhamos em atender aos padrões básicos de consistência racional.

E como somos amplamente inconscientes de nosso aparato mental, caímos facilmente nas armadilhas e cometemos erros. Viciados não preveem sua dor futura; gastamos agora e sofremos as consequências da falência mais tarde; saímos de nossas dietas agora porque não estamos pensando claramente nas consequências.

Também entendemos (novamente!) que somos animais sociais por completo. Aprendemos por imitação, obtemos nossa felicidade atendendo às normas sociais e temos um senso de pertencer à comunidade.

Sentimos a dor dos outros, e reagimos visceralmente quando os outros estão tristes ou machucados. Temos até um conjunto de “neurônios espelho” que nos possibilita sentir as coisas do ponto de vista dos outros. Temos uma capacidade notável de cooperar até mesmo com estranhos, e mesmo quando há pouca chance de recompensa ou reciprocidade, e de punir os que não cooperam, mesmo quando impor punição a outros é caro ou nos coloca em risco. Claro que há limites a essa cooperação e sentimento de camaradagem. Também trapaceamos, blefamos, enganamos, faltamos com nossa palavra e matamos membros de grupos de forasteiros. Nos engajamos em políticas de identidade, agindo de forma cruel com estranhos enquanto somos amáveis com nosso próprio grupo.

Todas essas lições de natureza humana importam mais do que nunca, mais até do que quando o Buda ensinou à humanidade sobre as ilusões dos prazeres transitórios, e os gregos nos advertiram contra as canções tentadoras das sereias que poderiam nos tirar do curso das nossas vidas. Porque hoje temos mais escolhas do que nunca. No mundo antigo, a escolha que a maioria da humanidade enfrentava era de fato pequena: trabalhar duro o suficiente para garantir o alimento, e mesmo assim enfrentar o risco de fome e morte por causa do mau tempo ou do azar.

Agora enfrentamos um conjunto de escolhas reais. Devemos perseguir um PIB alto até a ruína ambiental enquanto os ganhos incrementais no PIB não estão aumentando muito (ou em nada) a felicidade das sociedades afluentes? Devemos ansiar por rendas pessoais mais altas ao custo da comunidade e da confiança social? Nossos governos devem gastar mesmo uma minúscula fração dos cerca de US$ 500 bilhões em publicidade todos os anos para ajudar indivíduos a entenderem melhor suas próprias motivações, desejos e necessidades como consumidores?

Devemos considerar algumas partes de nossa sociedade como “fora dos limites” do lucro, para que possamos fomentar o espírito de cooperação, confiança e comunidade? Um analista recente do sistema escolar finlandês, por exemplo, escreveu que a excelência da Finlândia (classificada quase no topo das comparações internacionais de desempenho de estudantes) foi obtida fomentando um espírito de comunidade e igualdade nas escolas (Sahlberg, 2007). Isso contrasta nitidamente com a estratégia de reforma da educação em curso nos EUA, na qual a ênfase é posta nos testes, mensurações, e pagamento dos professores de acordo com o desempenho dos alunos nos testes.

Há razões suficientes para acreditar que precisamos repensar as fontes econômicas do bem-estar, e mais nos países ricos do que nos países pobres. Países de alta renda acabaram de forma ampla com os flagelos da pobreza, fome e doença, Países pobres justificadamente anseiam por fazê-lo. Mas depois do fim da pobreza, o que vem em seguida? Quais são os caminhos para o bem-estar quando as necessidades básicas não são mais os principais propulsores das mudanças sociais? O que irá guiar a humanidade no Antropoceno: publicidade, sustentabilidade, comunidade ou outra coisa? Qual é o caminho para a felicidade?

LEVANDO A FELICIDADE A SÉRIO
Os Pais Fundadores dos EUA reconheceram o direito inalienável da busca pela felicidade. Filósofos britânicos falaram sobre o bem maior para o maior número de pessoas. O Butão adotou de forma memorável a meta da Felicidade Interna Bruta (FIB) em vez do Produto Interno Bruto.

Ainda assim, a maioria das pessoas provavelmente acredita que a felicidade está nos olhos de quem a vê, que é uma escolha individual, algo a ser perseguido individualmente e não uma questão de política nacional. A felicidade também parece bastante subjetiva, vaga demais, para servir como critério para as metas de um país, quanto mais para seu conteúdo político. Essa de fato tem sido a visão tradicional. Mas as evidências estão mudando essa visão rapidamente.

Uma série de estudos realizados por psicólogos, economistas, pesquisadores de opinião, sociólogos e outros mostrou que a felicidade, embora seja de fato uma experiência subjetiva, pode ser objetivamente mensurada, avaliada, correlacionada com funções cerebrais observáveis, e relacionada às características do indivíduo e da sociedade. Perguntar às pessoas se elas estão felizes, ou satisfeitas com suas vidas, oferece informações importantes sobre a sociedade. Pode sinalizar uma crise subjacente ou forças ocultas. Pode sugerir a necessidade de mudança.

Essa é a ideia dos estudos científicos emergentes sobre a felicidade, seja a felicidade dos indivíduos em relação às escolhas que fazem, seja a felicidade de sociedades inteiras nos relatórios sobre satisfação da coletividade com a vida. O Relatório Mundial sobre a Felicidade resume a história fascinante e emergente desses estudos. Informa sobre as duas mensurações mais abrangentes da felicidade: o sobe e desce das emoções diárias, e a avaliação geral que um indivíduo faz da vida.

A primeira é chamada algumas vezes de “felicidade afetiva”, e a última de “felicidade avaliativa”. O que é importante saber é que ambos os tipos de felicidade têm causas previsíveis que refletem várias facetas de nossa natureza humana e nossa vida social. A felicidade afetiva captura as alegrias do dia-a-dia com a amizade, tempo com a família, e sexo, ou os aspectos negativos de longas jornadas até o trabalho e sessões com o chefe. A felicidade avaliativa mensura dimensões muito diferentes da vida, aquelas que levam à satisfação ou frustração geral com o papel de cada um na sociedade. Renda mais alta, melhor saúde da mente e do corpo e um alto grau de confiança em sua comunidade (“capital social”), todos contribuem para alta satisfação; pobreza, saúde fraca e divisões profundas na comunidade contribuem para baixa satisfação com a vida.

O que aprenderemos é que a felicidade difere sistematicamente através das sociedades e com o tempo, por razões que são identificáveis, e mesmo alteráveis por intermédio das formas pelas quais as políticas públicas são planejadas e aplicadas. Faz sentido, em outras palavras, perseguir políticas para elevar a felicidade do público, assim como faz sentido haver políticas para elevar a renda doméstica do público. O Butão mostra essa ruptura de forma profundamente esclarecedora. E o mundo está percebendo cada vez mais.

A renda de um domicílio conta para a satisfação com a vida, mas de maneira limitada. Outras coisas importam mais: confiança na comunidade, saúde mental e física e a qualidade da governança e do Estado de Direito. Elevar a renda pode elevar a felicidade, especialmente nas sociedades pobres, mas fomentar a cooperação e o sentido de comunidade pode fazer mais ainda, especialmente em sociedades ricas que têm utilidade da renda marginal baixa. Não é por acaso que os países mais felizes do mundo tendem a ser países de alta renda que também têm um alto grau de igualdade social, confiança e qualidade da governança. Nos últimos anos, a Dinamarca tem estado no topo da lista. E não é por acaso que os EUA não têm experimentado crescimento na satisfação com a vida por meio século, um período no qual a desigualdade na sociedade subiu, a confiança social declinou, e o público perdeu a fé em seu governo.

Uma coisa, claro, é identificar as correlações da felicidade, e outra usar as políticas públicas para produzir uma elevação da felicidade (ou satisfação com a vida) em toda a sociedade. Essa é a meta da FIB do Butão, e a motivação de um número crescente de governos dedicados a mensurar a felicidade e a satisfação com a vida de forma confiável e sistemática no tempo. A meta mais básica é que mensurando a felicidade de uma sociedade e no tempo, os países podem evitar as “armadilhas da felicidade” como nos EUA em décadas recentes, onde o PIB pode subir de forma incessante enquanto a satisfação com a vida fica estagnada ou até declina.

O estudo de caso do Butão conta a história da FIB no Butão, uma história de exploração e progresso desde que o Rei declarou em 1972 a meta da felicidade sobre a meta da riqueza. A felicidade se tornou muito mais do que um marco ou uma inspiração; se tornou um princípio organizador de governança e elaboração de políticas também. O Índice de Felicidade Interna Bruta é o primeiro de sua espécie no mundo, uma tentativa séria, ponderada e sustentável de mensurar a felicidade, e usar essas mensurações para estabelecer o curso das políticas públicas. Eu deixo a descrição da maravilhosa aventura do Butão, ainda se desdobrando embora já inspirando outros, para o estudo de caso.

FELICIDADE E AS METAS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
Conforme o mundo entra nas próximas e perigosas décadas do Antropoceno, devemos intensificar nossos esforços para atingir um novo curso, um que garanta que os países pobres têm o direito de se desenvolver, e que todos os países têm o direito à felicidade, ao mesmo tempo em que simultaneamente refreiam a destruição do meio ambiente induzida pelo homem. É muito tarde para impedir completamente a mudança climática e a perda da biodiversidade. Ainda é tempo, no entanto, para mitigar o dano e para criar resiliência às mudanças que virão. A busca da felicidade continuará no contexto dos riscos ambientais crescentes.

De acordo com as recomendações recentes do Painel da ONU sobre Sustentabilidade Global, as Metas de Desenvolvimento do Milênio, estabelecidas para serem cumpridas até 2015, devem ser seguidas por um novo conjunto de Metas de Desenvolvimento Sustentável. De forma mais sucinta, as MDMs devem ser seguidas pelas MDSs. É provável que o conceito das MDSs seja adotado pelos estados-membros da ONU na Conferência Rio+20 no Rio de Janeiro em junho de 2012.

As Metas de Desenvolvimento Sustentável devem ter quatro pilares. O primeiro deve ser continuar o trabalho crucial das MDSs a fim de exterminar a pobreza extrema até 2020. Os países em desenvolvimento cortaram com sucesso a taxa geral de pobreza pela metade quando comparamos 1990 e 2010, de cerca de 44% para 22%. Os maiores ganhos ocorreram na China, enquanto a África ficou para trás, embora a África também agora esteja em um caminho de redução da pobreza. No mais tardar em 2030 a pobreza extrema e a fome remanescentes devem estar erradicadas. A felicidade nos países mais pobres seria fortemente estimulada por uma inovação histórica como essa.

O segundo pilar das MDSs deve ser a sustentabilidade ambiental. Sem isso, nenhum ganho contra a pobreza, fome ou doenças pode durar muito. O pilar ambiental das MDSs pode ser orientado pelo conceito de “limites planetários”, a noção de que a humanidade deve evitar limiares específicos de dano ambiental para evitar causar danos irreparáveis à Terra e às futuras gerações.

O terceiro pilar deve ser a inclusão social, o compromisso de cada sociedade de que os benefícios da tecnologia, progresso econômico e boa governança devem ser acessíveis a todos, mulheres e homens, minorias e maiorias. A felicidade não deve ser privilégio de um grupo dominante. A meta deve ser felicidade para todos.

O quarto pilar deve ser a boa governança, a habilidade da sociedade de agir coletivamente por meio de instituições políticas verdadeiramente participativas. Boa governança não é apenas um meio para um fim, mas também um fim em si, já que boa governança significa a habilidade das pessoas de ajudarem a moldar suas próprias vidas e alcançar a felicidade que vem da participação política e da liberdade.

Ainda assim, como iremos mensurar o sucesso, saber se a sociedade está no rumo certo? Aqui é onde a nova métrica pode desempenhar um papel crucial. Para avaliar os quatro pilares do desenvolvimento sustentável, precisamos de um novo conjunto de indicadores que se estendam muito além do PIB tradicional. Os conferencistas da ONU anteciparam essa necessidade no esboço do documento para a Conferência das Nações Unidas Sobre Desenvolvimento Sustentável – Rio+20: “Também reconhecemos as limitações do PIB como mensuração do bem estar. Concordamos em desenvolver e reforçar os indicadores complementares do PIB que integram as dimensões econômicas, sociais e ambientais de forma equilibrada. Solicitamos ao Secretário-Geral que estabeleça um processo com o sistema da ONU e outras organizações relevantes.”

Esses são os tipos de indicadores – econômicos, sociais e ambientais – que estão sendo coletados agora pela Comissão da Felicidade Interna Bruta do Butão, a fim de criar um Índice de FIB butanês.

Além de mensurações especificas de desempenho ambiental, os governos devem começar a mensuração sistemática da felicidade em si, tanto em suas dimensões afetivas como avaliativas. As MDSs devem incluir um compromisso específico para mensurar a felicidade, de maneira que tanto o mundo como um todo quanto cada país individualmente possam monitorar o progresso do desenvolvimento sustentável e fazer comparações com as realizações em todos os lugares. Esse esforço maciço de coleta de dados já começou. Como discutido neste relatório, dados de pesquisas sobre felicidade estão sendo coletados agora por vários meios: a Pesquisa Mundial de Valores, cobrindo cerca de 65 países; a Pesquisa Mundial do Gallup cobrindo 155 países, e diversas outras pesquisas nacionais e internacionais. A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) agora está desenvolvendo propostas importantes para padrões de mensuração internacional explicadas no Relatório Mundial sobre a Felicidade.

*World Happiness Report
*Earth Institute

Leia também:
Um mundo menos pobre – mas muito desigual

Foto: makeroadssafe / Creative Commons

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O FIB não é São Jorge matando o dragão Caco de Paula - 16/04/2012 às 18:29

O que é essa tal de Felicidade Interna Bruta, afinal? Era assim que a maioria das pessoas com quem eu falava, até pouco tempo atrás, iniciava uma conversa sobre o tema. De uns tempos para cá, o assunto tem sido mais frequente nos noticiários e nas discussões em certas rodas, fazendo com que a compreensão desse conceito se torne mais ampla e acessível. Mesmo assim, ainda há um bom espaço para esclarecer mais como funciona essa ideia. Penso em três pontos principais. Para começar, embora a primeira imagem que possa vir à mente seja a do índice de Felicidade Interna Bruta (FIB) heroicamente derrotando o índice de Produto Interno Bruto (PIB), mais ou menos como aquela figura tão cara ao imaginário brasileiro, de São Jorge matando o dragão, não se trata de nada disso.

A ideia de criar um indicador que dê conta de medir o que o PIB não mede, é, sobretudo, a de estruturar um índice que se some ao que já existe, que seja complementar e não necessariamente antagônico. Segundo: ainda que em toda a parte se noticie, corretamente, até mesmo neste blog, que o FIB tenha sido criado no Butão, não se trata de trazer para a realidade das cidades brasileiras um método que, apesar de dar mostras de funcionar naquele reino do Himalaia, aqui encontra desafios completamente diferentes. Trata-se, portanto, de aproveitar o conceito, a ideia de que é possível fazer melhor, de outra maneira. Terceiro: para um certo pensamento binário, que acredita que as coisas tenham de ser ou istoou aquilo, que não possam ser isto e aquilo, ideias superpostas, complexas ou sistêmicas, é difícil acreditar que o FIB realmente seja algo importante se não for “o contrário” do PIB. Ou, pior, já que o índice, como se explica aqui, não será necessariamente o mesmo, em todos os detalhes, que se aplica no Butão, como se fosse um antigo e imutável modelo da Ford, há quem aponte o FIB como uma tentativa quixotesta, intangível, indefinível e impraticável. Nada mais distante da realidade.

PIB é algo que pode ser complementar ao FIB, que pode ser adaptado a cada país ou região e sim, pode – e deve – ser muito prático.

SACHS, O ANTROPOCENO E A NOVA BUSCA DE FELICIDADE
Não há melhor abordagem para tratar essas questões acima do que o recém-lançado World Happiness Report*, preparado por The Earth Institute*, da Universidade de Columbia, em Nova York. O próprio economista Jeffrey Sachs, do Earth Institute, assina a introdução do que podemos chamar de Relatório Mundial sobre Felicidade. Neste e nos próximos posts trazemos, em primeira mão, a introdução feita por Sachs (aqui traduzida com a colaboração de Nancy Juozapavicius). Vamos, então, ao texto de Sachs:

“Vivemos em uma época de total contradição. O mundo desfruta de tecnologias de sofisticação inimaginável, e ainda assim há pelo um bilhão de pessoas sem o suficiente para comer todo dia. A economia mundial está sendo impulsionada a se elevar a novas alturas de produtividade pelo avanço tecnológico e organizacional contínuo e, no entanto, está destruindo de forma implacável o ambiente natural nesse processo. Os países atingiram mais progresso do que jamais havia sido mensurado de forma convencional, mas ao longo do caminho podem vir a sucumbir a novas crises de obesidade, fumo, diabetes, depressão e outros males da vida moderna.

Essas contradições não teriam chocado os maiores sábios da humanidade, incluindo Aristóteles e Buda. Os sábios ensinaram à humanidade, repetidamente, que apenas o ganho material não iria realizar nossas necessidades mais profundas. A vida material deve ser controlada para atender às necessidades humanas e, principalmente, para promover o fim do sofrimento, a justiça social e a conquista da felicidade. O desafio é real em todas as partes do mundo.

Como exemplo chave, a superpotência econômica do mundo, os Estados Unidos, atingiu impressionante progresso econômico e tecnológico no último meio século, sem ganhos na autodeclarada felicidade dos cidadãos. Em vez disso, incertezas e ansiedade são altas, desigualdades sociais e econômicas foram consideravelmente ampliadas, a confiança social está em declínio e a confiança no governo está no patamar mais baixo de todos os tempos. Talvez por essas razões a satisfação com a própria vida tenha permanecido quase constante durante décadas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) per capita.

A realidade da pobreza, da ansiedade, da degradação ambiental e da infelicidade em meio a uma grande abundância não pode ser considerada simples curiosidade. Requer nossa atenção urgente, e de maneira especial, nessa conjuntura da história da humanidade. Porque entramos agora em uma nova fase do mundo, chamada de Antropoceno pelos cientistas que pesquisam o sistema da Terra.

Antropoceno é um termo recém-inventado que combina duas raízes gregas, “anthropos”, humano, e “kainos”, novo, como em uma nova era geológica. O Antropoceno é a nova era na qual a humanidade, através de suas conquistas tecnológicas e uma população de 7 bilhões de pessoas, se torna o maior propulsor de mudanças dos sistemas físicos da Terra, incluindo o clima, os ciclos do carbono, da água, do nitrogênio, e a biodiversidade. O Antropoceno irá necessariamente reformular nossas sociedades. Se continuarmos de forma descuidada na atual trajetória econômica, corremos o risco de minar os sistemas de suporte à vida na Terra – abastecimento de alimentos, água limpa e clima estável – necessários para a saúde da humanidade e até para a sobrevivência em alguns lugares.  Já estamos experimentando a deterioração dos sistemas de suporte à vida nas terras áridas do Chifre da África e em partes da Ásia Central. Por outro lado, se agirmos com sabedoria, poderemos proteger a Terra ao mesmo tempo em que elevamos amplamente a qualidade de vida em todo o mundo. Podemos fazê-lo ao adotar estilos de vida e tecnologias que aumentam a felicidade (ou a satisfação com a vida) e reduzem os danos que causamos ao meio ambiente. “Desenvolvimento Sustentável” é o termo dado à combinação de bem-estar das pessoas, inclusão social e sustentabilidade ambiental. Podemos dizer que a busca da felicidade está intimamente ligada à busca do desenvolvimento sustentável.

A Busca da Felicidade
Em uma sociedade empobrecida, a busca focada do ganho material da forma como é convencionalmente mensurada geralmente faz muito sentido. Renda doméstica mais alta (ou Produto Interno Bruto mais alto per capita) geralmente significa uma melhoria nas condições de vida dos pobres. Os pobres sofrem privações terríveis de vários tipos: faltam abastecimento de alimentos, empregos remunerados, acesso a sistemas de saúde, lares seguros, água limpa e saneamento, e oportunidades educacionais. Conforme a renda aumenta a partir dos níveis mais baixos, o bem estar da humanidade se aprimora. Não é de espantar que os pobres relatem crescente satisfação com suas vidas conforme suas rendas escassas aumentam. Mesmo pequenos ganhos na renda de um domicílio podem resultar na sobrevivência de uma criança, no fim do sofrimento causado pela fome, em melhoria na nutrição, melhores oportunidades de aprendizagem, partos seguros e possibilidades de melhorias e oportunidades crescentes na escolaridade, treinamento profissional e empregos bem remunerados.

Agora, considere a extremidade oposta do espectro da renda. Para a maioria dos indivíduos no mundo da alta renda, as privações básicas foram vencidas. Há comida, abrigo, confortos básicos (como água limpa e saneamento) e vestuários suficientes para atender às necessidades diárias. De fato, há um enorme excesso do conforto sobre as necessidades básicas. Pessoas pobres trocariam de lugar com pessoas ricas num piscar de olhos. No entanto, nem tudo está bem. As condições de afluência criaram seu próprio conjunto de armadilhas. Deve-se destacar que o estilo de vida dos ricos coloca em perigo a sobrevivência dos pobres. A mudança climática induzida pelos homens já está atingindo as regiões mais pobres e aniquilando vidas e meios de sustento. Diz-se que na maior parte do mundo rico as populações afluentes estão tão separadas daqueles que elas estão colocando em risco que há pouco reconhecimento, prático ou moral, das sobras adversas (ou “externalidades”) de seu próprio comportamento. E ainda assim os problemas da afluência também atacam perto de casa. A afluência criou seu próprio conjunto de aflições e vícios. Entre esses, a perda do sentido de comunidade, o declínio da confiança social e os níveis de ansiedade crescente, associados aos caprichos da economia globalizada moderna, incluindo as ameaças de desemprego ou episódios de enfermidades que não são cobertas pelos planos de saúde nos Estados Unidos.

Maiores rendas médias não necessariamente melhoram o bem-estar médio. Os EUA são um claro exemplo disso, como observa o Professor Richard Easterlin. O PIB per capita dos EUA triplicou desde 1960, enquanto as medidas de felicidade média permaneceram essencialmente inalteradas nos últimos cinquenta anos. A crescente produção dos EUA causou danos ambientais maciços, notadamente através de concentrações de gás de efeito estufa e mudanças climáticas induzidas pelo homem, sem que qualquer coisa tenha sido feita para elevar o bem-estar regular dos americanos. Assim, não temos um “revezamento” entre os ganhos de curto prazo versus os custos de longo prazo ao meio ambiente; temos um simples prejuízo ao meio ambiente sem compensação de ganhos de curto prazo. O paradoxo que Easterlin observou nos EUA foi que em algum momento em particular indivíduos mais ricos foram mais felizes do que os pobres, mas com o tempo a sociedade não se tornou mais feliz conforme se tornava mais rica. Uma razão é que os indivíduos se comparam uns aos outros. São mais felizes quando estão no patamar mais alto na escala social (ou de renda). No entanto, quando todos sobem juntos, o status relativo permanece inalterado.

Uma segunda razão óbvia é que os ganhos não têm sido compartilhados de forma justa, mas foram desproporcionalmente para aqueles no topo da distribuição de renda e educação. Uma terceira razão é que outros fatores sociais – insegurança, perda de confiança social, declínio da confiança no governo – neutralizaram quaisquer benefícios sentidos pelos de alta renda. Uma quarta razão é adaptação: os indivíduos podem experimentar um salto inicial na felicidade quando sua renda aumenta, mas então retornam pelo menos parcialmente aos níveis iniciais conforme se adaptam à nova renda mais elevada. Esses fenômenos colocam um limite claro no quanto os países ricos podem se tornar mais felizes através do simples dispositivo do crescimento econômico. De fato, ainda há outras razões gerais para duvidar da fórmula do PIB per capita em constante crescimento como rota para a felicidade. Embora em certa extensão a renda mais alta possa elevar a felicidade, a busca por uma renda mais alta pode na verdade reduzi-la. Em outras palavras, pode ser ótimo ter mais dinheiro, mas pode não ser tão bom ansiar por isso. Os psicólogos descobriram seguidamente que indivíduos que atribuem grande valor a rendas mais altas geralmente são menos felizes e mais vulneráveis a distúrbios psicológicos do que indivíduos que não anseiam por alta renda. Aristóteles e Buda aconselharam a humanidade a seguir um caminho do meio entre o ascetismo, de um lado, e a busca por bens materiais, de outro. Um problema posterior maior é a criação persistente de novos “quereres” materiais através da publicidade incessante de produtos usando imagens poderosas e outros meios de persuasão.  Considerando que as imagens são onipresentes em todos os nossos dispositivos digitais, o fluxo de publicidade é mais implacável do que nunca. A publicidade é agora um negócio de cerca de 500 bilhões por ano. Sua meta é superar a saciedade criando desejos e anseios onde não existia nenhum antes. Os publicitários e marqueteiros fazem sua parte ao se aproveitar das fraquezas psicológicas e desejos inconscientes. Cigarros, café, açúcar e gorduras trans, todos causam anseios, se não vícios absolutos.

Modas são vendidas através de imagens sexuais cada vez mais explícitas. As linhas de produto são geralmente vendidas associando os produtos a alto status social, e não a necessidades reais. E, finalmente, não há nenhuma advertência para aqueles que esperam se tornar mais felizes tornando-se mais ricos. Mesmo que os ganhos em bem-estar possam ser ampliados por futuros ganhos de renda, há evidências bastante impressionantes de que depois de certo ponto os ganhos são muito pequenos. A ideia chave é conhecida como “diminuir a utilidade marginal da renda.” Suponha que um domicílio pobre com uma renda de US$ 1.000 requer US$ 100 extras para elevar sua satisfação com a vida (ou sua felicidade) em um ponto. Um domicílio rico com renda de US$1.000.000 (mil vezes mais do que o domicílio pobre) precisaria de mil vezes mais dinheiro, ou US$100.000, para elevar seu bem-estar nesse mesmo um ponto. Os ganhos em renda têm de ser em proporções iguais à renda do domicílio para terem o mesmo benefício em unidades de satisfação com a vida.

Esse princípio significa que as pessoas pobres se beneficiam muito mais de um dólar adicionado à renda. Essa é uma boa razão pela qual os sistemas de transferência entre os países de alta renda da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) captam rendas líquidas de domicílios de alta renda e fazem transferências líquidas para domicílios de baixa renda a fim de promover o equilíbrio. Colocado de outra forma, a desigualdade da renda dos domicílios é sistematicamente menor depois dos impostos e transferências”.

*World Happiness Report
*The Earth Institute

No próximo post:
“Felicidade e as Metas de Desenvolvimento Sustentável”

Imagem: Divulgação

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Felicidade Interna Bruta

A ideia de escrever um blog sobre FELICIDADE INTERNA BRUTA (FIB) parte do princípio segundo o qual você só administra o que você mede. Como ainda estamos aprendendo a medir a felicidade para poder trazer a ideia de bem-estar para as contas econômicas, este é um tema atualíssimo – e uma das mais importantes discussões da Rio+20. Outra motivação é a necessidade prática das utopias, das visões de futuro que nos inspirem para a inovação. O jornalista Caco de Paula trabalhou em O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Veja, Veja São Paulo e Vida Simples, Viagem e Turismo, Guias Quatro Rodas, Viajeaqui e faz parte do grupo que criou o Planeta Sustentável, há cinco anos. Hoje dirige o núcleo dedicado ao Planeta e à National Geographic Brasil. Caco é casado, tem três filhos e vive repetindo que acaba de trocar 30 anos de cigarro pela prática de natação no mar.

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