Eco Balaio
21/07/2008 ÀS 17:17
Jornalismo capenga

Durante a Conferência de Bali sobre mudanças climáticas, em dezembro passado, os telespectadores da Indonésia receberam a seguinte informação de um repórter de TV: "O aquecimento global acontece por causa do excesso de prédios recobertos de vidro".

Quem conta essa história é o repórter James Fahn, para o site da revista Nature, na excelente reportagem "Rescuing reporting in the global south" ("Resgatando o jornalismo no sul global", em tradução livre).  Baseado em Bangkok, Fahn apurou que a cobertura jornalística sobre o aquecimento global é terrivelmente inadequada na maior parte dos países em desenvolvimento, ou seja, exatamente nos locais que estão mais vulneráveis efeitos como enchentes e secas extremas.

Fahn entrevistou especialistas que realizam cursos de capacitação para jornalistas em países do terceiro mundo. Um deles diz que no Vietnã, a maioria dos participantes sequer tinha ouvido falar da Conferência de Bali, e admitiram ter pouco ou nenhum conhecimento sobre o tema das mudanças climáticas.

As dificuldades são enormes: acesso limitado a publicações científicas, falta de especialistas locais para entrevistar, baixa incidência de assessorias de imprensa nos centros de pesquisa existentes e falta de recursos para acompanhar os grandes debates.  Em Bali, exceto a imprensa local que formou 25% dos credenciados, só 9% dos jornalistas presentes era de países em desenvolvimento.

O contraste entre as nações pode ser impressionante. Tomemos o Brasil como referência: levante a mão quem já não está cansado de ler, ver e ouvir falar sobre o aquecimento global por aqui.  Pois no ano de 2007, Índia, México e Rússia sequer fizeram menção ao tema em seus telejornais da noite. As redes de televisão na China e na África do Sul mencionaram apenas o relatório do IPCC, e a única reportagem sul-africana durou 11 segundos.

É interessante perceber que o fenômeno global suscitou vários panoramas da desigualdade no mundo, e o caso do jornalismo é mais um desses.  Enquanto nos países desenvolvidos o grande desafio é controlar as pautas apocalípticas e qualificar a enxurrada de informações que mais afasta do que atrai o público (o que acredito que seja também o caso no Brasil), nos países pobres, o desafio primeiro é informar o mínimo.

Telhado de vidro: é bom lembrar que a cobertura no Brasil também rende muitas críticas. Uma boa referência é a pesquisa realizada pela Andi (Agência de Notícias dos direitos da Infância): Mudanças Climáticas na Imprensa Brasileira: uma análise de 50 jornais no período de julho de 2005 a junho de 2007. Uma das principais conclusões é a nossa incapacidade de relacionar os temíveis prognósticos do aquecimento global com a agenda mais ampla do desenvolvimento nacional.




Eco
Balaio


Por Carolina
Derivi

Carolina Derivi tem 25 anos e é repórter da revista Pagina 22. Durante seus "verdes anos", foi ativista pelo cerrado na Chapada dos Veadeiros (GO). Foi repórter do site Amazonia.org.br e é autora do livro-reportagem "De quem é esse rio?" sobre a polêmica acerca do complexo hidrelétrico do rio Madeira (RO). Acha que o barato do jornalismo ambiental são as boas histórias, e do desenvolvimento sustentável, as boas idéias. Aqui, discorre sobre os rumos do meio ambiente, especialmente na Amazônia brasileira.
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