Ignacy Sachs, por exemplo, lamentou na última Feira Brasil Certificado que esse seja o único instrumento disponível hoje para estimular um esforço global de proteção às florestas. Em última análise, o que se faz é permitir que as emissões de carbono e os prejuízos globais continuem em outras partes do mundo.
Tasso Azevedo, diretor do Serviço Florestal Brasileiro, costuma dizer que isso não é negócio para o Brasil. Mesmo que consigamos conter o desmatamento, se a temperatura do planeta continuar a subir, a Amazônia seca. E aí todos os esforços terão sido em vão.
É por isso que o Ministério do Meio Ambiente aposta no Fundo Amazônia, que não gera créditos. Os valores são repassados a título de doação (em setembro, vem a primeira contribuição de US$ 100 milhões da Noruega, e o MMA espera arrecadas US$ 1 bilhão por ano). A única garantia para os doadores é de que o dinheiro será investido em projetos de valorização da floresta e combate ao desmatamento, de modo que os índices anuais permaneçam abaixo da média da última década. O Fundo será administrado pelo BNDES e um conselho de notáveis formado por cientistas e representantes da sociedade civil.
Para Azevedo, o projeto ajudaria também a revelar as verdadeiras intenções dos países ricos signatários da Convenção do Clima, que prevê apoio financeiro aos países pobres detentores de florestas tropicais, mas não estabelece uma contrapartida.
Sem dúvida é uma aposta inteligente. Mas não falta quem lamente a ausência de metas objetivas de redução do desmatamento (inclui-se o próprio ministro Carlos Minc), o que poderia dar mais credibilidade e força à iniciativa do Fundo. Ao invés disso, o cálculo base da média dos últimos dez anos foi estrategicamente incluído para atender às convicções do Itamaraty, segundo as quais o País não pode assumir compromissos unilaterais não previstos em convenções internacionais.
A conclusão é que o Fundo Amazônia é o melhor que se pode fazer no momento. E o ministro soube aproveitar, em prejuízo da sua prórpia opinião, já que se considera um excelente negociador. No plano geral, o que se desnuda é que toda essa transformação que estamos vivenciando em torno do desenvolvimento sustentável anda pari passu com os lucros. A saúde dos negócios e a sustentabilidade são atualmente inseparáveis.
Já houve um tempo que achávamos esse cenário genial: um novo conceito se infiltra no sistema e usa próprio status quo para benefício de todos. Mas, como diz Al Gore, “o maior desafio da humanidade em todos os tempos” não se resolve tão facilmente. Embora a saúde da economia seja indispensável, a humanidade terá que encontrar também outras formas de estimular o desenvolvimento sustentável, que não só o mercado. E o Fundo Amazônia tem ao menos o mérito de ser um desses primeiros passos.