Eco Balaio
23/06/2008 ÀS 22:36
Enquanto isso, em Brasília

Eis que na semana passada entrevistei meu primeiro ministro. Eu que sou repórter de brevíssima trajetória ainda conto essas pequenas marcas. Carlos Minc nos recebeu depois de sucessivos atrasos e um tradicional chá de cadeira. “Não sou mais dono da minha agenda!”, desculpou-se.

Nunca fui de dar trela a estereótipos, mas tenho que dizer é pelo menos irônico que o carioca Minc tenha a atitude nitidamente caracterizada por uma certa marra. Olha que eu e minha editora fizemos bem a lição de casa. Preparamos algumas perguntas difíceis, espinhosas, técnicas. E quase todas as respostas do ministro começavam com algo como “Isso eu vou resolver em um mês”, “isso eu já resolvi ontem”, “já tenho propostas para todos esses pontos e já foram encaminhadas”. Não é de se espantar que ele se denomine como “eco-ansioso”.

É o tipo de quadro que pode inspirar tanto extrema confiança, quanto extrema desconfiança. E eu fiquei no meio do caminho.

Alie-se a isso um discurso ao mesmo tempo articulado e debochado. Um humor pitoresco. Ao explicar todas as vantagens do Fundo Amazônia, a ser lançado em julho com milionárias doações voluntárias de países desenvolvidos para frear o desmatamento, Minc se referiu ao projeto como “Fundo Viagra”. Porque garante a floresta em pé. Nota-se ainda um estranho vício de linguagem que faz o ministro se referir sempre ao ponto crucial de cada questão como “o ponto G”.    

Tudo isso remete a uma personalidade despojada que pode também ser muito empolgante. Como é empolgante ouvi-lo falar sobre revolucionar a arrecadação de multas ambientais que, hoje em dia, gira em torno de 2% das multas aplicadas. Quer o ministro que o IBAMA tenha o poder de dispor dos bens apreendidos, assim como a Receita Federal também tem, e que qualquer contestação só seja aceita mediante depósito de 70% do valor da multa.

Quem poderia imaginar que a Lei de Crimes Ambientais, tão avançada do ponto de vista teórico quanto é inócua, poderia passar a surtir efeito? Tanta coisa, tão errada e há tanto tempo... Chega ser difícil de acreditar. De todo modo, o novo ministro tem largos e belíssimos sapatos para preencher, como dizem os ingleses. Nada mais justo que tentar deixar a sua marca (inclusive de olho nas eleições estaduais de 2010?) da maneira mais incisiva possível.

Infelizmente, não vou poder dar mais detalhes da entrevista, que será publicada na íntegra na Página 22 do mês de julho. O quanto discurso bem preparado do ministro deve gerar de resultados ainda é segredo para todos. Mas Brasília, que eu aprendi a adorar pelo céu rasante e horizonte farto, essa sim, continua linda.  




Eco
Balaio


Por Carolina
Derivi

Carolina Derivi tem 25 anos e é repórter da revista Pagina 22. Durante seus "verdes anos", foi ativista pelo cerrado na Chapada dos Veadeiros (GO). Foi repórter do site Amazonia.org.br e é autora do livro-reportagem "De quem é esse rio?" sobre a polêmica acerca do complexo hidrelétrico do rio Madeira (RO). Acha que o barato do jornalismo ambiental são as boas histórias, e do desenvolvimento sustentável, as boas idéias. Aqui, discorre sobre os rumos do meio ambiente, especialmente na Amazônia brasileira.
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