Eco Balaio
02/06/2008 ÀS 16:16
Superar os clichês

Outro dia, nos corredores de um evento sobre sustentabilidade em São Paulo, topei com o diretor da ONG Amigos da Terra, Roberto Smeraldi, que comentou o seguinte sobre o combate ao desmatamento: “Tem a história das famosas terras degradadas na Amazônia, com as quais não seria preciso derrubar nem mais um hectare para dobrar a produção de grãos. Não precisa, mas derruba-se! Isso porque é quatro vezes mais barato desmatar do que recuperar essas áreas”.

A história das terras degradadas é famosa, mesmo. Pelo menos para quem acompanha as discussões sobre a Amazônia. Seriam 160 mil km2 de terras abandonadas ou semi-abandonadas que deveria receber investimentos para agropecuária, de modo a poupar as áreas de floresta. É o mote, inclusive, da campanha Amazônia Para Sempre, iniciativa dos atores Victor Fasano e Christiane Torloni.

Essa é uma. Mas são várias as realidades amazônicas que se converteram em diagnósticos, marcaram uma evolução de pensamento, e hoje beiram o esvaziamento de um clichê, enquanto aguardam idéias que as transformem também em uma evolução de práticas.

È bem como disse Smeraldi: nessas de “não seria preciso”, “não seria preciso”, ficamos só na retórica e a Amazônia segue tombando.

Outra idéia muuuito repetida entre os estudiosos é a de que a Amazônia teria potencial para se transformar em um grande pólo de biotecnologia, mediante investimentos em pesquisa e indústrias de ponta. É a velha história de que a “floresta em pé” precisa ter valor econômico. E a saída seria a exploração racional da biodiversidade. Carlos Nobre, climatologista do INPE e membro do IPCC, sempre repete em suas palestras que os investimentos nessa área poderiam transformar o Brasil no primeiro país tropical desenvolvido, com um modelo de desenvolvimento adaptado às suas características e potencialidades naturais.

Pois parece que a idéia deu um salto. A geógrafa e historiadora Bertha Becker, juntamente com Nobre e outros especialistas das ciências ambientais, publicaram no site da Academia Brasileira de Ciências a proposta “Amazônia: Desafio Brasileiro do Século XXI – A Necessidade de uma Revolução Científica e Tecnológica”. Trata-se de uma sugestão para avançar na prática, que requer investimentos da ordem de R$ 3 bilhões por ano.

Segundo os pesquisadores, em 10 anos o País poderia presenciar uma verdadeira revolução de ciência e tecnologia, além de uma revolução no desenvolvimento sustentável na Amazônia. A idéia é turbinar os centros de pesquisa já existente, além de criar novas universidades e institutos, aumentando maciçamente as linhas de pesquisa e a presença de doutores na região.

Os detalhes todos não cabem aqui nesse post. Por isso recomendo a leitura do artigo na íntegra (são 16 páginas, nada de mais) ou a excelente cobertura desse domingo na Folha de São Paulo (só para assinantes). Ah, o frescor das novas idéias... Impressionante como podem renovar também as esperanças.




Eco
Balaio


Por Carolina
Derivi

Carolina Derivi tem 25 anos e é repórter da revista Pagina 22. Durante seus "verdes anos", foi ativista pelo cerrado na Chapada dos Veadeiros (GO). Foi repórter do site Amazonia.org.br e é autora do livro-reportagem "De quem é esse rio?" sobre a polêmica acerca do complexo hidrelétrico do rio Madeira (RO). Acha que o barato do jornalismo ambiental são as boas histórias, e do desenvolvimento sustentável, as boas idéias. Aqui, discorre sobre os rumos do meio ambiente, especialmente na Amazônia brasileira.
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