É por isso que estou muito triste e desanimada com a recente reportagem da capa da revista Istoé “A Amazônia é nossa!”. É um perfeito exemplo de como o enorme poder da imprensa sobre os debates que se travam no País deveria vir acompanhado de cautela em igual proporção.
A reportagem foi motivada por outra, publicada no The New York Times, intitulada “Whose Rainforest is it, anyway?” – De quem é essa floresta, afinal? –, que por si só já tinha provocado uma grande comoção.
Eu li a reportagem. Não há nada lá que indique qualquer substância na paranóia que reina entre os brasileiros sobre a tomada da Amazônia. Pelo contrário, deixa claro que a geopolítica mundial, pelo menos hoje, é totalmente refratária a esse tipo de ação. O que o NYT fez foi levantar o debate sobre qual deveria ser idealmente o papel da comunidade internacional quando uma nação assume uma postura irresponsável cujos prejuízos transcendem seu território.
E por quê não deveria? Por acaso o assunto é um tabu? É um debate justo e pertinente e que se aplica a muitas outras situações no mundo. A comunidade internacional deveria intervir para que EUA e China assumissem uma postura mais pró-ativa em relação a suas emissões de carbono? Taí outro caso que eu adoraria ver discutido, mas que não encontra nenhuma correspondência com as possibilidades reais. O mesmo se aplica ao Brasil. Levantar o debate é muito diferente de indicar que os estrangeiros estão escondidos em árvores, prontos para atacar.
Em dado momento, a reportagem de Istoé afirma: “A maioria dos especialistas sustenta que a intervenção militar é uma possibilidade remota”. Pois se é assim, por que o tom da matéria é tão alarmista? Por que falar em uma “reposta urgente” por parte do governo brasileiro? A reportagem chega ao cúmulo de desenterrar o velho boato sobre livros didáticos norte-americanos apresentando a Amazônia como área internacional. E trata do assunto como fato, quando é de amplo conhecimento que tudo não passou de uma fraude, algo que motivou até o mais veemente desmentido por parte do Itamaraty, na época.
Sim, nós temos o grave problema da biopirataria na Amazônia. Sim, nós temos tráfico de drogas e mineração ilegal. Mas, francamente, o caminho entre esses problemas e uma intervenção internacional militar é a distância da ficção.
Sim, há estudiosos que projetam conflitos internacionais por conta do acesso à água no futuro, o que poderia incluir a Amazônia no fogo cruzado. Mas são cenários, especulações! Devem ser reportados, mas devem também ser tratados como tal. O que a Istoé faz é o desserviço de elevar as tensões, emprestando seu prestígio a um factóide.
Por fim, preciso destacar que a box intitulada “Muita terra para pouco índio” é uma completa lástima etnocêntrica.
Se essa é a convicção da revista, eu gostaria de ver a Istoé publicar uma matéria de igual alarde conclamando a reforma agrária, quando é sabido que em muitos cantos do Brasil há muita terra para pouco branco. Não questionar os direitos de um latifundiário, mas questionar os indígenas diz muito sobre os preconceitos reinantes.
Ser jornalista é um privilégio e uma responsabilidade. Não se engane quem pensa que é fácil. Reportar envolve sempre uma série de decisões muito duras. Qual deve ser o tom da minha matéria? Como selecionar os entrevistados? Qual ponto de vista merece destaque? Não raro, todos nós (e obviamente eu estou incluída nisso) cometemos equívocos, mesmo tentando acertar. Mas é importante que esses equívocos sejam apontados e discutidos, inclusive por que esse é, ou deveria ser, um dos fatores que dá sentido à existência da imprensa.