Acho que esse é o aspecto mais marcante (e pouco comentado) da repercussão nacional e internacional sobre a saída de Marina Silva do ministério. Temos aqui um claro sintoma de que, em menos de uma década, vivemos em um mundo muito diferente, com prioridades reformuladas, em que pese as dificuldades de implementação de novos modelos de desenvolvimento. É importante prestar atenção a esses “detalhes”, para não perder o bonde da história.
No mais, assim como grande parte do público leitor brasileiro, eu também acompanhei toda sorte de análise sobre o acontecido na imprensa. Mas tenho que dizer que fiquei um pouco desapontada.
Rapidinho para não chover no molhado: é bem verdade que de queda-de-braço em queda-de-braço com o núcleo duro desenvolvimentista do governo, Marina foi perdendo arsenal político, até ficar totalmente enfraquecida; é verdade que uma andorinha só não faz verão, e Marina sozinha não pode fazer milagre; é verdade que seu prestígio atribuiu certa blindagem ao governo Lula, frente aos movimentos socioambientais e principalmente diante da comunidade internacional sempre consternada com a Amazônia.
Mas daí a concluir que Marina era meramente um símbolo, um fantoche para segurar as pontas do governo, e que perdeu todas as batalhas que travou vai um longo caminho que, para mim, soa espetacularmente injusto.
No caso dos transgênicos, por exemplo, a ministra nunca foi contra, mas a favor de que se garantisse a viabilidade ambiental e de saúde pública. Não fosse a sua resistência, e o empoderamento que procurou garantir ao Conama, não se teriam alcançado resultados importantes como a rotulagem nos produtos, o que garante o direito do consumidor à informação e à escolha.
Como gosta de dizer o presidente, “nunca antes na história desse país” foram criadas tantas unidades de conservação na Amazônia. Mas mais importante que isso, amadureceu a lógica de implementação estratégica dessas áreas, em oposição ao que antes era uma distribuição sortida para inglês ver de florestas protegidas em qualquer canto. O maior exemplo da inteligência dessa política foi a criação de nove unidades de uma vez, na calha norte paraense, em 2006. Somadas ao Parque do Tumucumaque, no Amapá, essas áreas formaram o maior corredor ecológico do mundo, numa região extramente sensível, de um dos estados amazônicos que mais sofrem com conflitos fundiários e desmatamento.
Outra grande expressão da capacidade de Marina foi a Lei de Gestão de Florestas Públicas, que reflete um pouco do que há de mais arrojado no pensamento de conservação hoje no mundo. Tanto que resultou em consenso entre setores até então antagônicos em questões ambientais, como empresários, ambientalistas, madeireiros, cientistas. Os críticos enxergam uma política que só teria chances de vingar em países de primeiro mundo, tipo a Dinamarca, já que no Brasil, o fiasco de fiscalização e gestão é patente. Vá lá... mas isso não é desculpa para que o País se acomode em mediocridade e continue fazendo política mixuruca. Marina pensa adiante.
É claro que ainda é pouco. É claro que acumulamos derrotas, principalmente a falta de transversalidade entre os ministérios e de coerência nesse governo, o que acabou por vitimar a liderança da ministra. Mas alto lá no ceticismo, minha gente!