A reportagem foi uma resposta às declarações recentes do comandante militar da Amazônia, general Augusto Heleno, para quem a política de demarcação de terras indígenas (TIs) na fronteira com outros países amazônicos é uma ameaça à soberania nacional. A Folha encomendou um levantamento ao Instituto Socioambiental (ISA), sobre índices de desmatamento em áreas protegidas na Amazônia.
A conclusão, a mesma de estudos anteriores, é que as terras indígenas são muito mais eficientes para manter a floresta em pé que outras unidades de conservação. Na maioria dos casos, o desmatamento acumulado até 2006 é menos de 1% do total das terras. Um índice muito inferior à média de devastação em Parque Nacionais e outras unidades de proteção integral. (leia a reportagem só para assinantes, aqui)
Quem acompanha esse blog sabe que eu gosto de falar dos indígenas em todas as oportunidades que se apresentam (outros posts recentes aqui e aqui). Simplesmente porque, para resguardar a sua terra e a sobrevivência de seu povo, os índios acabam prestando um tremendo serviço de conservação que deveria ser de interesse do Brasil inteiro, às custas de todo tipo de perreio, como conflito violentos e desagregação cultural.
Sinto uma imensa vergonha quando os brancos brasileiros se recusam a dar o devido reconhecimento aos serviços prestados pelos povos indígenas.
Mas a abertura da reportagem da Folha traz uma ótima reflexão: afinal de contas, qual é o critério de soberania nacional aplicado pelos militares? É uma pergunta que, para mim, ecoa sem resposta. Argumentar que os índios não têm identificação com a nação brasileira, o que colocaria as TIs numa categoria “sem pátria”, é um absurdo completo. É ignorar, lamentavelmente, o esforço monumental que cada um dos 227 povos indígenas brasileiros tem de empreender cotidianamente para defender as suas terras.
Por isso o indicador do desmatamento é tão relevante nessa discussão.
Os índices são tão baixos nas TIs porque ali “é onde tem gente tomando conta", resumiu perfeitamente André Lima, diretor de políticas públicas do ISA.
Sem os indígenas, o monitoramento da fronteira amazônica sobraria exclusivamente para o efetivo de 24 mil soldados do Comando Geral da Amazônia. Considerando que são 10.800 km de fronteira, isso representa 2,2 soldados a cada quilômetro.
Segundo um levantamento que fiz a partir de dados do próprio ISA, nas terras indígenas que ocupam a fronteira da Amazônia moram 111.731 pessoas. As atividades ilegais (e são muitas) empreendidas por invasores nessas áreas são recorrentemente combatidas e denunciadas pelos índios.
111 mil contra 24 mil. Quem será que ajuda mais?