Eco Balaio
28/04/2008 ÀS 20:46
O grande espetáculo verde

No universo das ONGs ambientalistas, nenhuma organização dispõe de métodos tão peculiares e tão polêmicos quanto o Greenpeace. Fundado em 1971, fruto de um movimento contra os testes nucleares nos Estados Unidos, transformou-se num fenômeno midiático. É hoje a única organização financiada exclusivamente por doações individuais e já soma mais de três milhões de apoiadores.

Não à toa, a ONG ganhou o prêmio Top of Mind, em 2007, na categoria Preservação Ambiental (e empatou com a marca de produtos de limpeza Ypê, algo que até hoje foge à minha compreensão). As campanhas e ações são criativas e cativantes. Meu favorito é o cartaz gigante que foi colocado sobre uma área de desmatamento em Santarém (PA) com os dizeres “100% Crime” (vide vídeo). A reação dos fazendeiros atravessando o cartaz com uma picape dá bem a entender como o Greenpeace está no ramo dos “negócios arriscados”...

Já tive alguma antipatia pela organização, simplesmente porque não conseguia engolir a idéia de que um bote com meia dúzia de ativistas poderiam realmente impedir que os gigantes navios baleeiros japoneses continuassem a sua caçada.

Depois, quando comecei a trabalhar numa outra ONG ambientalista, passei a compreender que o poder da ação estava justamente no espetáculo: o poder de concentrar as atenções. Descobri que, muitas vezes, as ONGs trabalhavam numa parceria no estilo “good cop, bad cop” (em tradução livre, “tira bonzinho e tira malvado”). O Greenpeace barbarizava com as denúncias e, depois, outras organizações mais moderadas procuravam os denunciados para ajudar no processo de regularização. Os resultados práticos são notáveis.

A combinação de radicalismo assumido (veja entrevista de Frank Guggenheim, ex-diretor da organização no Brasil, à Folha de São Paulo – só para assinantes-), com uma estratégia de grande visibilidade deu ao Greenpeace um espetacular poder de agenda sobre as causas ambientais no mundo.

Foi graças à agenda do Greenpeace que teve início, em 2006, a moratória da soja, um primeiro passo importantíssimo pela preservação da Amazônia, que movimentou consumidores gigantes como Mac Donald’s e KFC. Mas, nos corredores ongueiros, resta dúvidas sobre o tratamento dado pela organização à pecuária, grande vetor de desmatamento, que não recebe a mesma ênfase da soja.

Hoje, para além dos chiados das “vítimas” das ações ativistas, e das ridículas teorias conspiratórias que pairam sobre todas as ONGs internacionais em atividade no Brasil, o Greenpeace tem de enfrentar uma crítica relevante: a de que estaria se deixando levar por uma plataforma política, por vezes dissociada de evidências técnicas e científicas.

O maior crítico é Patrick Moore, um dos fundadores da organização. Moore é hoje um dos grandes defensores da energia nuclear com forma de apaziguar os efeitos das mudanças climáticas. A idéia, muito controversa, voltou à pauta, mas continua sendo uma heresia diante dos princípios fundadores do Greenpeace, que considera que os riscos relativos aos resíduos permanecem os mesmos desde Chernobyl.

Em artigo publicado no Wall Street Journal, em abril, chamado “Por que eu deixei o Greenpeace”, Moore alega que as campanhas da ONG para o banimento de certos produtos químicos, como a que combateu o uso do cloro na água por quase duas décadas, sem sucesso, não têm respaldo científico.

Esse assunto dá muito pano pra manga. Como o post já está longo demais, vou parar por aqui, mas não sem antes dar ao debate um toque um pouco mais divertido. Fiz uma seleção (pessoal) dos melhores vídeos de campanhas do Greenpeace, dispostos pela palavra-chave. É uma boa amostragem para quem quer conhecer melhor esse estilo de ativismo:

Chernobyl - Mudanças ClimáticasConsumo - ComputadoresCarros - Amazônia




Eco
Balaio


Por Carolina
Derivi

Carolina Derivi tem 25 anos e é repórter da revista Pagina 22. Durante seus "verdes anos", foi ativista pelo cerrado na Chapada dos Veadeiros (GO). Foi repórter do site Amazonia.org.br e é autora do livro-reportagem "De quem é esse rio?" sobre a polêmica acerca do complexo hidrelétrico do rio Madeira (RO). Acha que o barato do jornalismo ambiental são as boas histórias, e do desenvolvimento sustentável, as boas idéias. Aqui, discorre sobre os rumos do meio ambiente, especialmente na Amazônia brasileira.
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