De tão isolada e desamparada pela ordem pública, a região da bacia do rio Xingu no sudeste do Pará recebeu este nome: Terra do Meio. Dizem que o apelido se deve à cercania com terras indígenas por todos os lados. Mas, depois de passados os anos, acho que nome representa mais o abandono pelo Estado brasileiro.
Terra do Meio é qualquer coisa genérica, um território obscuro, uma idéia turva, como um buraco negro que não se conhece e não se quer conhecer, onde não há lei, segurança ou justiça. É a porção mais "selvagem" da Amazônia, se considerarmos o termo como primo da barbárie.
Foi ali que Dorothy Stang foi assassinada, em 2005. É ali que a cabeça de Dom Irwin, bispo da Prelazia do Xingu, vale um prêmio de R$ 1 milhão, conforme noticiou o site Amazonia.org.br. Segundo estimativa da Comissão Pastoral da Terra, mais de 800 pessoas já foram mortas em conflitos por terra e outros 20 estão marcados para morrer.
No último final de semana, Herculano da Costa Silva e Lauro Freitas Lopes conseguiram espaço no noticiário nacional. São líderes de uma comunidade extrativista no Médio Xingu que não teve seu território assegurado até hoje porque o governo vai reservando aquele espaço para quando sair o complexo hidrelétrico de Belo Monte. Vivem ameaçados por grileiros e recentemente conseguiram ser incluídos no Programa Nacional de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos.
A Terra do Meio é um território carente de regularização fundiária. Isso todo mundo sabe. Mas vamos pensar um pouco: em última análise, não é esse o primeiro e mais básico instrumento legal para ordenamento de uma sociedade? Não é a propriedade o princípio fundador do moderno Estado de Direito? Não é assim que tudo começa?
A falta da legitimação das terras é a falta de tudo. E vitima tudo: a floresta que tomba desprotegida pela cobiça de madeireiros e grileiros, os indígenas que têm de defender o seu próprio território pelo uso da força, e toda a população local que tem de escolher entre a servidão e a própria vida.
Daí eu sou obrigada a ler nos jornais que a simples Reserva Extrativista do Médio Xingu não sai porque tem o projeto de Belo Monte. Porque para isso, para gerar energia para o Brasil industrializado, a Terra do Meio serve.
São as escolhas do País. Herculano e Lauro também fizeram a sua: não vão fugir. O fenômeno é comum. Talvez seja alguma doença, espécie de loucura, misturada com abnegação e coragem que costuma se abater sobre certos amazônidas.