
Outro dia mesmo o governo anunciou um plano emergencial de combate ao desmatamento na Amazônia que previa o cancelamento de crédito, por parte dos bancos e órgãos públicos, aos produtores que desmatam ilegalmente. A ministra Marina Silva explicou a importância da medida, já que frequentemente é o dinheiro do contribuinte que paga pelo avanço da fronteira na floresta.
O que não se sabia é que, na mesma época, o Governo Federal seguiu a direção oposta. Publicou decreto reduzindo os juros dos Fundos Constitucionais do Norte (FNO) do Centro-Oeste (FCO) e Nordeste (FNE) para pequenos e grandes produtores rurais. É exatamente esse tipo de incentivo que atrai mais investimentos para o avanço da fronteira agropecuária, com novos desmatamentos. Quem levantou essa história foi o Aldem Bourscheit, repórter do portal O Eco, na reportagem O bolsa-desmatamento, publicada na última sexta-feira.
A redução dos encargos, oficializada pelo decreto, é irrestrita. Todo mundo que estiver recebendo dinheiro dos Fundos Constitucionais será beneficiado. Não é coisa de maluco? Pois se o poder público já descobriu que o próprio dinheiro público financia o desmatamento, não seria óbvio conceder as facilidades de financiamento apenas aos produtores que comprovassem adequação às leis ambientais?
De um lado, temos toda uma retórica sobre a lista negra dos desmatadores que seria distribuída aos bancos, e do outro, a festa dos juros baixos para quem quiser desmatar. É conversa de deixar qualquer um coçando a cabeça.