Eco Balaio
08/02/2008 ÀS 13:18
O poder dos bancos


Durante a Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas em Bali, no final do ano passado, a rede internacional de ONGs Banktrack causou bastante repercussão ao lançar o relatório Mind The Gap, que analisa as políticas socioambientais de 45 bancos em todo mundo e critica a grande diferença que há entre a propaganda e a prática.

E como em Bali o que não faltou foi notícia (além de fortes emoções), um outro trabalho sobre o setor financeiro passou praticamente despercebido. O position paper A Challenging Climate, também da Bancktrack, traz uma série de recomendações sobre como os bancos devem se comportar diante do desafio da crise climática.

Uma das principais medidas recomendadas é que deixem de financiar novos projetos de exploração e transporte de gás, carvão e petróleo. Uma idéia óbvia quando se pensa em como a queima intensiva de carbono virou o problema número 1 do mundo. Mas também difícil de ver implementada. Quem é o iluminado que vai conseguir convencer os bancos a sair desse setor? Cheguei até a imaginar que a ingenuidade dessa idéia tivesse sido um dos motivos pela pouca notoriedade de A Challenging Climate.

Pois mordi a língua. No último dia 4, o Wall Street Journal noticiou que Citigroup, JP Morgan Chase e Morgan Stanley, três dos maiores bancos de investimento no mundo, decidiram fechar o cerco para clientes do carvão. Só vão financiar usinas que demonstrem sua viabilidade econômica mesmo na hipótese de o governo estabelecer rigorosos limites para as emissões de carbono, algo que os três bancos consideram uma tendência inevitável nos próximo anos. Resultado: um setor que produz metade da energia consumida nos Estados Unidos vai ter que rebolar para incluir os custos do dano que causam ao planeta em seu planejamento de negócios, ou vão ficar sem ver a cor do dinheiro. Não é o embargo que a Banktrack sugeria, mas é um ótimo começo.

Tudo leva à seguinte suspeita: não tem governo, ONG, Al Gore, ONU ou Papa que se compare aos bancos no quesito “poder de mudar o mundo”. Enquanto a ação dos outros atores tem resultados variáveis, a dos bancos é sempre certeira. O que me leva a ressaltar um ponto que todo mundo já deveria saber, mas não custa lembrar: propaganda de banco que usa papel reciclado, neutraliza emissões dos funcionários ou doa dinheiro para organizações ambientais, minha gente, é pura balela! Claro que isso não é ruim, mas é troco perto dos que essas instituições podem fazer.

Vamos prestar atenção ao que interessa.

(Para ler o relatório Mind The Gap)




Eco
Balaio


Por Carolina
Derivi

Carolina Derivi tem 25 anos e é repórter da revista Pagina 22. Durante seus "verdes anos", foi ativista pelo cerrado na Chapada dos Veadeiros (GO). Foi repórter do site Amazonia.org.br e é autora do livro-reportagem "De quem é esse rio?" sobre a polêmica acerca do complexo hidrelétrico do rio Madeira (RO). Acha que o barato do jornalismo ambiental são as boas histórias, e do desenvolvimento sustentável, as boas idéias. Aqui, discorre sobre os rumos do meio ambiente, especialmente na Amazônia brasileira.
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