O puro socioambiental
Quando a gama de ações indígenas de protesto toma tamanha proporção, como nas últimas semanas, vale a pena refletir e ficar de olho. Nesse final de ano, tivemos o seqüestro de um alto funcionário da ONU pelos cintas-largas em Rondônia, a invasão da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) por 350 pataxós, mais a retenção de policiais no Mato Grosso.
Vejo dois pontos diferentes que, para mim, valem a reflexão. O primeiro deles é que há uma tendência nos movimentos indígenas de serem os que tomam a dianteira e entornam o caldo, quando as ONGs e todo o discurso ambiental falham. Dessa vez, segundo a
entrevista (só para assinantes) que o presidente do
Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Roberto Liebgott, deu ao Estadão, a principal motivação para esse mundo de protestos é a retomada de grandes obras, na Amazônia e no vale do São Francisco, sem que o bem-estar dos povos indígenas esteja protegido.
São freqüentemente os índios (até pela força de seus métodos) que marcam os grandes resultados na agenda dos movimentos socioambientais. Foi assim em 1989, no encontro dos Povos Indígenas em Altamira (PA), quando o complexo hidrelétrico de
Belo Monte entrou num grande período estacionário, após um projeto inicial que previa inundação de Terras Indígenas (TIs) no Xingu. Foi assim também, mais recentemente, quando o planejamento e a paralisação no asfaltamento das rodovias federais na Amazônia teve grande influência das ações dessas lideranças, na defesa de seu território.
E vale dizer que a luta desses guerreiros não pára nunca. É difícil para alguém que não acompanha o tema ter essa dimensão. As notícias de invasões nos escritórios da Funai ou da Funasa, bem como a retenção de funcionários desse órgãos, são constantes. Todo mês tem. Mas até por serem casos tão comuns, não recebem destaque na imprensa. É preciso que os índios se organizem e façam um barulho à altura das notícias para ganhar espaço.
Por fim, no cerne da reivindicação desses povos está a noção de que os impactos ambientais provocam danos muitas vezes irreversíveis no seu modo de vida. Pode parecer uma realidade tão afastada de nós, não-índios, mas não é bem assim.
Daí a preocupação, por exemplo, com as conseqüências do complexo hidrelétrico do rio Madeira, em Rondônia. Quando estive em Porto Velho, entrevistei um funcionário da Funai que me garantiu que o pessoal atual é insuficiente para evitar as invasões que acontecem nas TI’s. Que dirá se a situação piorar. E certamente vai piorar, com tantos trabalhadores e migrantes em busca de emprego mudando-se para os lados do rio Madeira.
Embora o risco de desagregação social para os indígenas seja um risco específico, toda a população de Rondônia está vulnerável a impactos dramáticos nas suas cidades e no seu dia-a-dia. O que me comove quando ocorrem essas ondas de protestos é que são mais uma vez os índios os que demonstram a equação simples à qual todos nós pertencemos: não é possível pensar em gente, sem pensar no ambiente. Não é possível pensar no ambiente, sem pensar em gente. Durante muito tempo provocamos uma separação artificial desses universos, mas já é hora da reconciliação. É como diz o brilhante slogan do Instituto Socioambiental (ISA):
"Socioambiental se escreve junto".