Ocorre que o presidente quis aproveitar o ensejo para falar mais uma vez do biodiesel e tranqüilizar as coisas na Amazônia: "É importante deixar claro que nesse governo não haverá nenhuma possibilidade de alguém plantar qualquer coisa de biodiesel na Amazônia, a não ser o dendê, que é originário da própria região", disse.
Em primeiro lugar, não é. Conforme explica essa ficha-resumo de autoria do engenheiro agrônomo Jonas de Souza, entre outras fontes que consultei, o dendezeiro é originário da costa oriental da África (Golfo da Guiné).
Em segundo lugar, como eu já disse aqui, o dendê é o pivô de todo esse debate de alteração do Código Florestal. Resumidamente, a idéia é reduzir a Reserva Legal de 80% de mata nativa para propriedades privadas na Amazônia, para 50%. Os 30% restantes seriam substituídos por "espécies exóticas", como bem descreveram os autores do projeto de reforma, entre elas o dendê.
O que realmente me incomoda nessa história toda são os argumentos. Como já comentei também aqui, é primordial que o Ministério do Meio Ambiente e da Agricultura conversem para elaborar maneiras de reaproveitar áreas degradadas na Amazônia. É assim que se combate o desmatamento, com variedade de frentes de trabalho e de parceiros. E, nesse caso, não vejo porque qualquer cultura não possa ao menos estar na mesa de discussão.
Mas ainda que o dendê fosse amazônico desde criancinha, monocultura é monocultura e floresta é floresta. Essa proposta de mudar o Código Florestal, tratando agricultura e mata como se fosse a mesma coisa, é que ofende a inteligência alheia. E agora ainda vem o presidente sugerir que "dendê pode, porque é bem brasileiro".
Por que o governo não admite de uma vez que considera a Reserva Legal de 80% um exagero? Por que não assumir novamente o discurso histórico de que o país precisa (nesse caso, dos biocombustíveis) e a Amazônia, por bem ou por mal, vai ter que ceder? Não seria nenhuma novidade mesmo... Questionável, sim. Mas pelo menos seria franco.
* Lula diz que em breve o Brasil poderá ser membro da Opep