Ontem, uma comissão da Fifa foi recepcionada por acreanos ilustres, incluindo-se a ministra Marina Silva. A “pompa e circunstância” ficou por conta da cenografia assinada por Bia Lessa, com uma instalação de mudas nativas da Amazônia formando o mapa do Acre e uma bola de futebol usada, no centro. Teve até som ambiente de pássaros e índios, segundo release enviado pela assessoria.
Diante da concorrência com cidades mais, digamos, "notáveis" no cenário nacional, como São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro etc. seria Rio Branco o azarão?
Pense de novo. A verdade é que esses grandes eventos esportivos têm uma influência enorme em como o país sede será visto e lembrado durante muito tempo. Mas a poderosa imagem pode ser desenhada tanto para o bem ou quanto para o mal.
Pense no significado das olimpíadas de 88 para a Coréia, quando Brigitte Bardot, armada de lindos poodles, fez campanha contra a candidatura porque os cachorros integram a culinária local. Por outro lado, o evento ajudou a cunhar o termo “tigre asiático” e a provocar alguma familiaridade em tantos produtos “made in Korea”.
Pense no desastre que foi para a Alemanha, sempre empenhada em superar a mácula do holocausto, o atentado contra a delegação israelita nas olimpíadas de Munique em 72. E no esforço redobrado que teve de ser aplicado para mostrar ao mundo um povo pacífico e cortês, na Copa do Mundo de 2006.
Se a Copa de 2014 realmente for sediada no Brasil, como o país desejará ser visto? Com certeza a imagem da Amazônia preservada não é nada má, especialmente em tempos de aquecimento global. O Acre, como já comentei aqui, é bastante carregado dessa simbologia sustentável, sendo um dos estados com menor índice de desmatamento, berço de Chico Mendes e do primeiro movimento socioambiental no Brasil.
Mas se a imprensa do mundo inteiro cair de pau no desmatamento que ainda é altíssimo, nos conflitos fundiários e na miséria social da Amazônia, seria no mínimo constrangedor. E o governo teria que se mexer como nunca.
Acho fascinante essa época multi-transversal em que vivemos! É possível até que o mundo da bola provoque uma revolução no mundo da floresta. E aí, também a velha noção de "torcida" ganha um novo significado.