
Em visita a Rondônia, um dos estados mais pobres da Federação, foi essa a noção que levei na bagagem. Comecei a rever os meus conceitos quando, depois de 15 dias batendo muita perna em Porto Velho, encontrei um único morador de rua. O mínimo que se poderia concluir é que o estado pode até ser pobre, já as pessoas, nem tanto...
A coisa complicou de vez quando subi a bordo de uma voadeira, rio Madeira acima, para entrevistar ribeirinhos. Foi assim que conheci seu José Henriqueta (foto), morador do sítio Vista Alegre, à beira do Madeira. Seu José mora com mais cinco pessoas numa casinha de tábuas, não tem esgoto nem água encanada, não tem trabalho formal e seus netos precisam atravessar o rio de barco para chegar à escola. Seu sítio está numa região correspondente à futura “área de segurança” para as obras da usina hidrelétrica de Santo Antônio, o que significa que ele e sua família terão que se mudar.
Meu entrevistado me levou para fazer um tour por sua plantação de feijão, milho, mandioca, melão, melancia e tudo mais que, plantando na margem do rio, dá. Enquanto isso, eu lhe questionava sobre o valor que deveria corresponder à futura indenização pelo deslocamento. Ao que ele respondeu, candidamente, apontando o pomar: “Olha só toda essa riqueza. Como é que eu posso botar preço numa coisa dessas? Não tem dinheiro que pague”.
Foram muitos Josés Henriquetas nessa viagem. E todos demonstraram a mesma idéia simples: na beira do rio, ninguém passa necessidade. O dia-a-dia pode até ser simples, mas está longe de ser pobre. Esse modo de vida depende simplesmente da existência do rio, limpo e correndo livremente.
E a vida está com os dias contados.