Eco Balaio
16/08/2007 ÀS 19:44
Contextualizando a pobreza


O que é ser pobre, afinal? Se você, como eu, é filho das grandes metrópoles (de minha parte, sou meio carioca e meio paulista), essa idéia provavelmente vai girar em torno das necessidades urbanas básicas. Faltam educação e saúde de qualidade? Faltam garantias formais do trabalhador? Faltam saneamento básico, moradia digna (o que significaria, no mínimo, casa de alvenaria)? Então aí está a pobreza.

Em visita a Rondônia, um dos estados mais pobres da Federação, foi essa a noção que levei na bagagem. Comecei a rever os meus conceitos quando, depois de 15 dias batendo muita perna em Porto Velho, encontrei um único morador de rua. O mínimo que se poderia concluir é que o estado pode até ser pobre, já as pessoas, nem tanto...

A coisa complicou de vez quando subi a bordo de uma voadeira, rio Madeira acima, para entrevistar ribeirinhos. Foi assim que conheci seu José Henriqueta (foto), morador do sítio Vista Alegre, à beira do Madeira. Seu José mora com mais cinco pessoas numa casinha de tábuas, não tem esgoto nem água encanada, não tem trabalho formal e seus netos precisam atravessar o rio de barco para chegar à escola. Seu sítio está numa região correspondente à futura “área de segurança” para as obras da usina hidrelétrica de Santo Antônio, o que significa que ele e sua família terão que se mudar.

Meu entrevistado me levou para fazer um tour por sua plantação de feijão, milho, mandioca, melão, melancia e tudo mais que, plantando na margem do rio, dá. Enquanto isso, eu lhe questionava sobre o valor que deveria corresponder à futura indenização pelo deslocamento. Ao que ele respondeu, candidamente, apontando o pomar: “Olha só toda essa riqueza. Como é que eu posso botar preço numa coisa dessas? Não tem dinheiro que pague”.

Foram muitos Josés Henriquetas nessa viagem. E todos demonstraram a mesma idéia simples: na beira do rio, ninguém passa necessidade. O dia-a-dia pode até ser simples, mas está longe de ser pobre. Esse modo de vida depende simplesmente da existência do rio, limpo e correndo livremente.

E a vida está com os dias contados.




Eco
Balaio


Por Carolina
Derivi

Carolina Derivi tem 25 anos e é repórter da revista Pagina 22. Durante seus "verdes anos", foi ativista pelo cerrado na Chapada dos Veadeiros (GO). Foi repórter do site Amazonia.org.br e é autora do livro-reportagem "De quem é esse rio?" sobre a polêmica acerca do complexo hidrelétrico do rio Madeira (RO). Acha que o barato do jornalismo ambiental são as boas histórias, e do desenvolvimento sustentável, as boas idéias. Aqui, discorre sobre os rumos do meio ambiente, especialmente na Amazônia brasileira.
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