Retrato

São 7 milhões de quilômetros quadrados de Amazônia, e é impressionante o quanto se pode compreender dela em um breve espaço de chão, com apenas três elementos: estrada, bois e castanheiras.
Essa foto foi tirada pelo Paulo Fehlauer em uma das nossas paradas na BR-364. Ao longo de toda a rodovia, encontra-se uma monótona paisagem de fazendas de gado na seqüência. Nos pastos, como se vê, restam em pé apenas as grandes castanheiras. A madeira desta árvore, um dos símbolos da Amazônia, tem alta qualidade e valor de mercado. Tanto que a espécie chegou a ficar ameaçada, mas em 1994 um decreto presidencial proibiu o corte.
Assim, entre os vestígios das queimadas que ampliam os pastos, restam apenas as grandes castanheiras de pé. Praticamente transformadas em carvão, e isoladas nas clareiras, esses exemplares têm poucas chances de reprodução.
Assim como a imensa maioria das estradas na Amazônia, a BR-364 foi construída nos anos 70, e também como as demais, foi o vetor que determinou onde se daria a ocupação humana. Em substituição ao ciclo da borracha, em decadência, a pecuária extensiva se instalou maciçamente na região. É hoje a atividade produtiva que mais promove novas derrubadas (mais ainda que a soja), e um dos principais ramos de negócios em Rondônia.
Até os dias de hoje, o asfaltamento e a recuperação de rodovias na Amazônia provoca arrepios em cientistas e ambientalistas. O que ajuda a explicar as péssimas condições de trafegabilidade. Quando estive aqui no ano passado, a 364 era praticamente off road. Dessa vez, para minha surpresa, o 'tapa-buraco' chegou a Rondônia, pelo menos no trecho que vai de Porto Velho até a fronteira com a Bolívia.
Posfácio: Andei tanto por essa estrada nos últimos 15 dias, que passei a compreender algo essencial no meu trabalho de reportagem sobre as usinas do rio Madeira. Com esse novo capítulo, Rondônia segue o que parece uma sina, quem sabe até uma vocação: traçar o seu desenvolvimento apenas em picos econômicos isolados. É como a história do Brasil que se aprende na escola... primeiro veio o ciclo do Pau-Brasil, depois a cana, depois o café etc, não é assim?
Em Rondônia, primeiro foi a corrida pela terra e a grande migração de "homens sem terra para uma terra sem homens". Depois veio o garimpo (entre 80 e 90). Agora é o projeto de Furnas, com sonhos de emprego, indústria, modernização. Mas se isso que se desenha aqui é realmente desenvolvimento... saberemos apenas nos próximos capítulos.