Eco Balaio
02/08/2007 ÀS 22:05
Paulistas e cariocas


Falando em queimadas, há tempo para uma fofoca amazônica: existe uma rixa antiga entre acreanos e rondonienses, quase como paulistas e cariocas. Mas enquanto entre estes últimos a rivalidade é supostamente baseada em trabalho versus lazer, para acreanos e rondonieses o entrevero tem a ver com meio ambiente.

O Acre é a terra de Chico Mendes e seus 'empates', viu nascer o primeiro movimento socioambiental do Brasil, com a criação do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) e do Centro de Trabalhadores da Amazônia (CTA), e há quase dez anos sustenta a gestão estadual do PT que, com justiça ou não, entitula-se 'governo da floresta'. Com todos esses predicados, é o comum os acreanos se considerarem o baluarte do desenvolvimento sustentável.

Já Rondônia é um estado cuja história está baseada no desmatamento. O Antigo território de Rondônia foi acupado e povoado em função de assentamentos de reforma agrária, abertura de estradas e fazendas de gado. Entre 1970 e 1980, o garimpo de ouro promoveu o segundo grande fluxo histórico de migração para o estado, o que também é associado à degradação da floresta e dos rios.

Então a rixa é o seguinte: muitos acreanos torcem o nariz para Rondônia porque consideram que aqui não vive um povo amazônida de verdade, mas um povo que veio de outros cantos do país para derrubar a floresta e que não estabelece vínculo com ela. Deixando-se a cisma de lado, é bem verdade que não é fácil achar um rondoniese legítimo em Porto Velho. Afora a juventude entre 0 e 20 anos, quase todo mundo é de outros lugares do país.

Em 2005, quando a grande seca na Amazônia virou notícia no mundo todo, o então governador do Acre, Jorge Viana, decretou estado de emergência em Rio Braco e municípios vizinhos por causa da fumaça que se instalou sobre o estado. Fumaça de floresta queimando, claro. Na ocasião, não faltou quem reclamasse que o nevoeiro de poluição vinha na verdade de Rondônia, onde as queimadas aconteciam em maior número.

Pelo que vi nas estradas nos últimos dias, fico imaginando que acreano vai ter muito o que reclamar nessa temporada...

(nota da redatora: caso alguém tenha ficado curioso pra saber quem tinha razão na história da fumaça em 2005, a verdade é que Rondônia, Mato Grosso, Tocantins, Pará e Maranhão queimaram muito mais que o Acre durante o ano em questão. E por causa das condições geográficas -localização e correntes atmosférica- o fumacê acaba indo para lá mesmo. Mas o Acre apresentou o triplo de focos de calor, em comparação com o mesmo período em 2004.)

Foto: rio Acre tomado pela fumaça. set/2005. Via jornal O Rio Branco




Eco
Balaio


Por Carolina
Derivi

Carolina Derivi tem 25 anos e é repórter da revista Pagina 22. Durante seus "verdes anos", foi ativista pelo cerrado na Chapada dos Veadeiros (GO). Foi repórter do site Amazonia.org.br e é autora do livro-reportagem "De quem é esse rio?" sobre a polêmica acerca do complexo hidrelétrico do rio Madeira (RO). Acha que o barato do jornalismo ambiental são as boas histórias, e do desenvolvimento sustentável, as boas idéias. Aqui, discorre sobre os rumos do meio ambiente, especialmente na Amazônia brasileira.
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