
O assistente administrativo Aildo, com quem conversei, conta que toda dia chega mais gente. "É só sair uma reportagem na televisão, o povo nem espera acabar e já está batendo aqui", arrematou o porteiro de orelhada na conversa. Diante da pergunta freqüente "a usina já começou?", Aildo explica pacientemente que primeiro vem o leilão, depois vem a concessão e só depois é que a coisa engrena.
Antes de informar 'não há vagas', Furnas e o Odebrecht informavam que complexo hidrelétrico do rio Madeira deve gerar 20 mil empregos diretos e indiretos no pico das obras (lá por 2010). Seria a panacéia para os milhares de desempregados, não fossem os efeitos colaterais, que eu costumo explicar da seguinte maneira: gritar "emprego" na Amazônia, é como gritar "fogo!" em qualquer outro lugar, mas com o efeito inverso. Os problemas começam quando o montante de pessoas atraídas pela notícia passa a ser muito maior do que as localidades são capazes de comportar. E aí, de pouco adianta a paciência do seu Aildo em explicar que emprego, emprego mesmo, só daqui a muito tempo.
A receita 'grandes empreendimentos, grandes problemas' é velha e batida na Amazônia brasileira. Em março desse ano, o prefeito de Tucumã no Pará decretou estado de emergência, poucos meses após a instalação da mineradora Onça Puma, empresa da Companhia Vale do Rio Doce, que alardeou a oferta de 10 mil postos de trabalho. Foram tantas as pessoas chegando na cidade que irrompeu uma crise de violência, tráfico de drogas, prostituição, invasão de terras públicas, desmatamento... Sem contar o déficit em serviços públicos como educação, saúde e transporte.
Na capital rondoniense, os movimentos sociais calculam que a população pode quase dobrar em cinco anos (hoje tem cerca de 380 mil habitantes). E na periferia da grande Porto velho, lá pelas proximidades dos futuros canteiros de obras, o crescimento desordenado via desmatamento, grilagem e invasão já começou a galope. O que me faz pensar que nesse tortuoso processo de licenciamento ambiental, em que muito se discutiu o que será dos peixes, do rio, das matas etc. algo se perdeu. E esse algo são as pessoas e suas vidas, que em última análise são a cidade.