
Fascinada por essa briga de foice é que decidi dedicar todo esse ano da minha vida à elaboração de uma grande reportagem sobre o rio Madeira. Mais do que isso, decidi pela convicção de que o conflito entre verde e cinza cimento não é simples, tampouco bicolor.
Os favoráveis às usinas alardeiam "energia limpa!", e os contrários reclamam falhas em incontáveis salvaguardas que a Amazônia precisa para comportar uma obra dessa envergadura. No cômputo final, em ambos os lados da questão, a bandeira é a mesma: desenvolvimento sustentável.
O boom de preocupações e debates em 2007 foi tão abrupto, que supõe-se que meio ambiente e desenvolvimento deixaram de ser dois opostos inconciliáveis, para compor um casamento quase obrigatório. Mas a idéia, que parece consenso, está apenas em construção. Muitas vezes, a simples repetição de palavras-chave do bem como “neutralização” e “energia renovável” pode dar a impressão de que o quesito sustentabilidade está coberto. Especialmente no Brasil, onde a famosa matriz energética renovável e a maior reserva de floresta tropical do mundo rendem a fama de “futura potência ambiental”.
Mas o que é a verdade? Que nossos bosques têm mais vida? Então é pouca coisa os mais de 13 mil km2 de Amazônia que foram ao chão em 2006? Após décadas de grandes empreendimentos (latifúndios, estradas, portos, hidrelétricas etc.) quase metade da população amazônida (45%) vive abaixo da linha da pobreza, ou seja, seus rendimentos não passam de US$ 2 por dia. Será que a história se repete para o rio Madeira e para Rondônia?
Hoje é o primeiro dos 15 dias que passarei em Porto Velho para saber o que pensam os principais atingidos pelo projeto. Logo na largada, uma coisa é certa: enquanto não falarmos todos a mesma língua, assim como de perto ninguém é normal, de perto, ninguém será sustentável.
FOTO: Pôr-do-sol no Madeira a partir do povoado de Teotônio, que será inundado após a contrução da usina de Santo Antônio (maio/2006).