"O melhor presente seria garantir que daqui pra frente a Amazônia tenha de gerar riqueza em primeiro lugar para os amazônidas, em vez de para o resto do Brasil ou do mundo. Isso se deu até hoje com minério, energia, carne, madeira, grãos, terra para reforma agrária, e pode continuar também no futuro com biodiversidade e carbono, sempre deixando a população local marginalizada."
É realmente um padrão nefasto. E mostra que acima de tudo é preciso ter sensibilidade para pensar a Amazônia. Quando as campanhas ambientais e afins alardeiam a importância da floresta para o Mundo ou para o Brasil, eu fico pensando que corremos o risco de estar esquecendo aqueles que moralmente deveriam estar no topo da lista das prioridades.
Há muitos planos que parecem ótimos do ponto de vista ambiental, mas que podem constituir armadilhas se os gestores não tiverem essa sensibilidade. Por exemplo: o sistema de concessão de florestas públicas para empresas privadas, que acaba de fechar o primeiro contrato em Rondônia. É ótimo do ponto de vista ambiental que florestas gerem riqueza, sendo bem manejadas e supervisionadas. Mas se o governo não investir com a mesma dedicação no manejo florestal comunitário, as populações mais uma vez ficarão marginalizadas, e a LGFP se torna mais uma variante desse colonialismo.
Outro exemplo que eu gosto muito, porque é polêmico, é o do mercado de carbono. Mesmo com todas as controvérsias sobre modelos de cálculo de emissão e compensação, o MDL virou coqueluche nos últimos anos, e, claro, tem um potencial iminente de financiar a conservação.
Mas SE realmente o negócio se mostrar muito lucrativo, SE alcançarmos um ambiente de regulação satisfatória, SE as grandes empresas se interessarem cada vez mais, uma possibilidade é que ocorra a “especulação fundiária às avessas”.
Atualmente, a especulação fundiária na Amazônia se dá em torno da terra desmatada, ou seja, o pasto, a plantação, os arredores da futura estrada. Mas com a valorização das florestas como estoques de carbono, não é improvável que a floresta em pé se torne um catalisador de expulsão dos povos locais, para dar lugar ao grande capital. Bom para as árvores, mas péssimo para as pessoas.
A hipótese não é minha, mas de Roberto Waack, presidente do conselho internacional do FSC, levantada durante uma entrevista que ele me concedeu. Achei muito maluco imaginar esse cenário: a tão almejada revisão de valores (a conservação ambiental ganhando espaço econômico), se presa à mesma lógica insensata de sempre, deixa tudo na estaca zero.
Sustentabilidade é isso. O que se faz de um lado reflete do outro.
*Presente para a Amazônia