Eco Balaio
03/02/2010 às 01:00

Enquanto os chineses fazem jogo duro nas negociações diplomáticas que visam reduzir as emissões de gases de efeito estufa, estão investindo como loucos em novas alternativas de geração de energia limpa. O país já é o maior fabricante mundial de turbinas eólicas e painéis solares. Parece contraditório?

O professor da FEA-USP e especialista em ecodesenvolvimento, José Eli da Veiga, ofereceu uma boa explicação sobre isso no debate “pós-cop15”, promovido pela Folha de S. Paulo no final do ano passado (aqui o vídeo do debate na íntegra). Ele diz que a via diplomática não é o único e nem de longe o mais importante caminho para a descarbonização da economia. Novos negócios e segurança energética são dois vetores preponderantes e aparentemente mais convincentes para as sociedades em geral.

A iminência do esgotamento dos recursos fósseis, que ameaça a soberania dos países, e a oportunidade de novos mercados movidos pelas inovações colocaram as duas grandes potências mundiais numa corrida tecnológica.

O argumento da segurança energética ganha força na terra de Obama, uma guinada que fez até o magnata texano do petróleo, T. Boone Pickens, migrar para a energia eólica. A dependência do petróleo no Oriente Médio, e as guerras embutidas nessa relação, tornaram-se custosas demais.

Mas uma reportagem do The New York Times demonstra que a arrancada chinesa está provocando uma situação irônica nos EUA. Os americanos correm o risco de apenas transferir a sua dependências dos países árabes para a China, nessa nova era de energias limpas.

Para quem quiser se aprofundar nesse assunto, recomendo o excelente blog Climate Progress, do físico Joseph Romm. Para a revista Time, "o blogueiro mais influente no tema das mudanças climáticas". Aprendi muita coisa sobre as nuances dos EUA ali. Vale o clique!



27/01/2010 às 15:48

O pessoal da NEF (The New Economics Foundation) encontrou uma maneira engraçada de apresentar ao público o problema do crescimento econômico perpétuo: uma hamster gigante.

Pois é, a ideia por trás da animação acima é mostrar que, se na natureza não há nada que cresça indefinidamente, deve haver alguma sabedoria por trás disso, não é mesmo? Afinal, a forma como a vida se organiza no planeta é resultado de milênios de erros e acertos.  Então, perguntam os produtores de The Impossible Hamster, por que é que os economistas e os políticos pensam que a economia pode crescer para sempre?

A maioria das fontes com quem eu converso sobre esse assunto acha que ainda é cedo para que essa pergunta ganhe notoriedade. O mundo já está se embananando o suficiente apenas com a missão de reduzir os gases de efeito estufa. Apesar disso, mais cedo ou mais tarde, a humanidade vai ter de se deparar com esse problema.

Pense na mudança climática, por exemplo. Ainda que as inovações tecnológicas consigam aumentar muita a eficiência energética, se os padrões de vida continuarem a crescer, é como dar uma passo a frente e dois para trás. É por isso que a intensidade de carbono (quantidade do gás gerada por unidade de PIB) vem caindo muito no mundo inteiro desde as crises do petróleo nos anos 70. Mesmo assim, as emissões globais, em termos absolutos, só fizeram aumentar.

E se a revolução tecnológica for tão magnânima neste século a ponto de banir completamente as energias fósseis? Nesse caso, a economia poderia crescer para sempre? Não. Os recursos naturais necessários a todas as atividades econômicas poderiam ser levados ao esgotamento. Recursos renovável não significa recurso infinito. O exemplo mais evidente é a água.
 
Antes que se manifestem os teóricos de que o ambientalismo é uma conspiração contra os países pobres, deixa eu esclarecer que ninguém imagina que essa seja uma questão pertinente para todo o globo. É por isso que o exemplo preferido dos economistas ecológicos são os países nórdicos. Será que eles realmente ainda precisam crescer mais? Será que suas populações já não alcançaram um patamar de vida plenamente satisfatório?

Nesse caso, dizem os especialistas, o crescimento se torna “deseconômico” e predatório já que reduz o “espaço ecológico” para que outras nações possam crescer e atingir o desenvolvimento. No fundo essa é uma discussão sobre igualdade de oportunidades, que atende pelo nome de economia em steady-state (ESS), cujo precursor é Herman Daly.

Grosso modo, não se trata de uma economia estagnada, mas que está em constante aprimoramento. O negócio é produzir melhor, em lugar de produzir mais. Daly usa, entre outras metáforas, a imagem de uma imensa biblioteca abarrotada em que não cabem mais livros. A solução seria trocar os livros mais velhinhos ou menos interessantes por outros livros melhores. A biblioteca não precisa estagnar, mas também não precisa crescer para melhorar. O crescimento tem limite. O desenvolvimento, não.



20/01/2010 às 13:34
Eu até estava desconfiada de que Avatar, o filme-estrondo de James Cameron, não passaria de bom entretenimento. Mas fiquei impressionada com as referências refinadas a ideias do socioambientalismo contemporâneo.

É legal perceber como o tratamento do tema ambiental vai se modernizando no cinema, assim como acontece na sociedade. Uma natureza romântica, benevolente, que nos cabe conservar por mera inspiração altruística, dá lugar ao meio ambiente integrado e integrador, de cuja teia complexa dependem todas as formas de vida. A humanidade é só mais uma.

Aliás, eu acho que esse é o motivo pelo qual os termos “ecologia” e seus defensores “ecologistas” saíram de moda, emergindo o movimento “ambientalista”. Ecologia é um campo de estudo muito bicho-e-planta, que não dá conta da complexidade das interações humanas com o seu meio.

Preparei uma resenha com outros insights sobre Avatar, que você confere aqui, na Estante do Planeta. Vá ao cinema, recomendo!

Eco
Balaio


Por Carolina
Derivi

Carolina Derivi tem 25 anos e é repórter da revista Pagina 22. Durante seus "verdes anos", foi ativista pelo cerrado na Chapada dos Veadeiros (GO). Foi repórter do site Amazonia.org.br e é autora do livro-reportagem "De quem é esse rio?" sobre a polêmica acerca do complexo hidrelétrico do rio Madeira (RO). Acha que o barato do jornalismo ambiental são as boas histórias, e do desenvolvimento sustentável, as boas idéias. Aqui, discorre sobre os rumos do meio ambiente, especialmente na Amazônia brasileira.
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