Eco Balaio
01/07/2009 às 16:51
Há alguns dias, entrevistei Nereide Mazzucchelli, consultora em desenvolvimento local e meio ambiente, que levantou uma ideia muito interessante: será que não deveríamos ter uma “licença social” para grandes projetos de exploração de recursos naturais, assim como já temos a licença ambiental?

Grande parte dos impactos polêmicos que saem nos jornais e atrasam obras e geram reações judiciais que podem durar anos não são ambientais, mas sociais.

No caso das hidrelétricas do rio Madeira, o problema que ficou mais famoso foi o dos peixes migratórios, já que o presidente reclamava que “jogaram o bagre no colo dele”. Mas um empreendimento desse tamanho tem de lidar com os efeitos sobre as terras indígenas, as formas de realocar as populações atingidas e, acima de tudo, o problema das migrações em massa para onde os empregos estão sendo gerados.

Para isso, diz Nereide, não há roteiros e procedimentos pré-estabelecidos. Não tem órgão licenciador, enquanto o Ibama tem de tratar de questões alheias ao seu expertise. E as questões sociais seguem a reboque das ambientais.

Para mim, a cada vez que dizemos que o meio ambiente é um nó no Brasil, estamos fazendo uma presunção baseada no licenciamento ambiental, que é onde se dão os embates. Mas a pecha ambiental encobre uma boa parte da história.

Todos (órgão ambientais, empreendedores, gestores públicos) ainda têm muita dificuldade de lidar com as implicações sociais dos rumos do progresso. Ou daquilo que se entende por progresso. Mesmo com tantos pesquisadores há décadas apresentando estudos que comprovam sempre o mesmo padrão na Amazônia. Numa região em que quase a metade da população vive abaixo da linha da pobreza, sem alternativas de renda, uma mega obra sempre atrai migração descontrolada.

É o mesmo para hidrelétricas, para mineração, para estradas. Sigo vendo prefeitos e secretários extasiados com a possibilidade de um empreendimento gigante trazer desenvolvimento para locais empobrecidos, sem nunca perceberem que, se as localidades crescerem demais sem planejamento, eles podem ficar ainda mais pobres do que estavam de partida.

Muita gente se apavora com a possibilidade de mais burocracia. Mas me alegra que a ideia de “licença social” pelo menos insista em levantar questões esquecidas.

27/06/2009 às 19:01
Jornalistas adoram pequenas histórias locais que ajudam a explicar realidades mais amplas. Li encantada, no The New York Times, a história da cidade La Oroya, no Peru, cuja população precisa escolher entre emprego e saúde. Não, não dá para ter os dois.

A vila andina com 13 mil habitantes é considerada um dos dez locais mais poluídos do mundo. O motivo é a economia da cidade, que depende quase que exclusivamente de uma fábrica de processamento de metais, a Doe Run Peru, que pertence ao bilionário empresário americano, Ira Rennert.

A empresa alega que não pode levar a cabo um programa de redução de emissões de poluentes, por conta da queda global do preços dos metais.  Se for pressionada, ameaça encerrar suas operações em La Oroya, deixando 3 mil pessoas desempregadas.

Com certeza afetaria mais do que isso, já que em locais como esse, em que uma única empresa é o coração econômico, todas as outras atividades se dão em volta dela, como hotéis, restaurantes, mercadinhos, bordéis e mulheres lavadeiras (como uma das personagens citadas pelo NYT).

E lá se foram os trabalhadores para as ruas protestar contra o fechamento das caldeiras. Ao mesmo tempo, a reportagem diz que 97% das crianças com menos de 6 anos têm mercúrio no sangue em níveis considerados tóxicos.

Não é incrível? Fico pensando no tipo de cálculo que essas pessoas são obrigadas a fazer. Seus filhos estão morrendo por causa da empresa que eles querem preservar. Talvez calculem que, sem emprego, morreriam mais cedo.

Eu fiquei pensando aqui na nossa Amazônia, onde atividades como agronegócio, mineração e madeireiras muitas vezes são defendidas também pela população local porque são as únicas alternativas de subsistência que elas conhecem.

O caso de La Oroya é ilustrativo de um fenômeno global. Empresas de países desenvolvidos, onde o cerco contra a poluição se fecha, exportam suas atividades para os países pobres, em que a miséria impõe uma flexibilidade ambiental criminosa. É o tipo mais sórdido de chantagem que existe.



17/06/2009 às 18:36
A coisa toda soa como utópica, é verdade. Um movimento composto por ambientalistas, cientistas, a comunidade na internet e especialmente o Partido Verde quer ver Marina Silva candidata à presidência da República. É um movimento que se assemelha muito ao que conclamou Gabeira a sair candidato à prefeitura do Rio. Tudo começou no blog do jornalista Pedro Doria, ganhou escala, Gabeira topou e “por duas polegadas logo nos quadris” não saiu vitorioso.

 O caso de Marina é mais complicado. O primeiro desafio seria convencê-la a sair do PT, partido com o qual a senadora tem laços históricos de fidelidade e no qual jamais conseguiria apoio para cargo executivo que não fosse o governo do Acre.

A segunda dificuldade é sua ambição pessoal. Marina já é uma personalidade histórica, de prestígio mundial ilibado (só no último ano já ganhou quatro condecorações internacionais). Por que toparia passar pelo desgaste de uma campanha presidencial e pegar a bucha de ser presidente, virando telhado de vidro para tudo e para todos?

Só ela sabe. Mas a possibilidade é tão legal que gosto de conjecturar. Por exemplo: Marina candidata seria como refundar o PV. Seria retomar os princípios originários do partido e encampar de fato uma proposta de País que tenha a questão ambiental como prioridade. Quem bom seria ter um partido com essas características fortalecido no cenário nacional. E que melhor momento para começar esse trabalho senão agora, quando tantos países relevantes, a começar pelos Estados Unidos, elevam a política ambiental ao status de estratégica?

Em entrevista à Carta Capital, o diplomata Rubens Ricúpero acertou na mosca: “O único problema mundial que não pode ser resolvido sem o Brasil é o ambiental”. Ou seja, é a única área em que o País tem condições de exercer liderança num horizonte próximo. Se essa análise estiver correta, Marina Silva como presidente é a chave para um Brasil fortalecido no cenário internacional.

A chefe de redação do Valor Econômico, Rosângela Bittar, arriscou um palpite em artigo publicado no jornal: aposta que Marina teria entre 8% e 9% das intenções de voto na largada, graças à simpatia da classe média pelas questões ambientais e pelo próprio PV. A senadora tem grande carisma e pertence ao seleto grupo de políticos identificados com a ética pela opinião pública.

Mas imagino que seu calcanhar de Aquiles seria justamente o meio ambiente. Numa disputa eleitoral, consigo visualizar os adversários argumentando que Marina entende de floresta e só. E que é preciso muito mais que isso para comandar o País. Estariam errados, acredito. Pouco assuntos são tão transversais quanto meio ambiente. A discussão é inseparável de energia, infra-estrutura, desenvolvimento, cultura, políticas sociais. E Marina é escolada em todos esses assuntos, até porque é senadora da República desde 1995.

É quase impossível, mas vamos sonhando.  Quem sabe a gente não emplaca Marina, mas emplaca uma mensagem de apoio à sustentabilidade no poder. 



Eco
Balaio


Por Carolina
Derivi

Carolina Derivi tem 25 anos e é repórter da revista Pagina 22. Durante seus "verdes anos", foi ativista pelo cerrado na Chapada dos Veadeiros (GO). Foi repórter do site Amazonia.org.br e é autora do livro-reportagem "De quem é esse rio?" sobre a polêmica acerca do complexo hidrelétrico do rio Madeira (RO). Acha que o barato do jornalismo ambiental são as boas histórias, e do desenvolvimento sustentável, as boas idéias. Aqui, discorre sobre os rumos do meio ambiente, especialmente na Amazônia brasileira.
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