A vila andina com 13 mil habitantes é considerada um dos dez locais mais poluídos do mundo. O motivo é a economia da cidade, que depende quase que exclusivamente de uma fábrica de processamento de metais, a Doe Run Peru, que pertence ao bilionário empresário americano, Ira Rennert.
A empresa alega que não pode levar a cabo um programa de redução de emissões de poluentes, por conta da queda global do preços dos metais. Se for pressionada, ameaça encerrar suas operações em La Oroya, deixando 3 mil pessoas desempregadas.
Com certeza afetaria mais do que isso, já que em locais como esse, em que uma única empresa é o coração econômico, todas as outras atividades se dão em volta dela, como hotéis, restaurantes, mercadinhos, bordéis e mulheres lavadeiras (como uma das personagens citadas pelo NYT).
E lá se foram os trabalhadores para as ruas protestar contra o fechamento das caldeiras. Ao mesmo tempo, a reportagem diz que 97% das crianças com menos de 6 anos têm mercúrio no sangue em níveis considerados tóxicos.
Não é incrível? Fico pensando no tipo de cálculo que essas pessoas são obrigadas a fazer. Seus filhos estão morrendo por causa da empresa que eles querem preservar. Talvez calculem que, sem emprego, morreriam mais cedo.
Eu fiquei pensando aqui na nossa Amazônia, onde atividades como agronegócio, mineração e madeireiras muitas vezes são defendidas também pela população local porque são as únicas alternativas de subsistência que elas conhecem.
O caso de La Oroya é ilustrativo de um fenômeno global. Empresas de países desenvolvidos, onde o cerco contra a poluição se fecha, exportam suas atividades para os países pobres, em que a miséria impõe uma flexibilidade ambiental criminosa. É o tipo mais sórdido de chantagem que existe.
O caso de Marina é mais complicado. O primeiro desafio seria convencê-la a sair do PT, partido com o qual a senadora tem laços históricos de fidelidade e no qual jamais conseguiria apoio para cargo executivo que não fosse o governo do Acre.
A segunda dificuldade é sua ambição pessoal. Marina já é uma personalidade histórica, de prestígio mundial ilibado (só no último ano já ganhou quatro condecorações internacionais). Por que toparia passar pelo desgaste de uma campanha presidencial e pegar a bucha de ser presidente, virando telhado de vidro para tudo e para todos?
Só ela sabe. Mas a possibilidade é tão legal que gosto de conjecturar. Por exemplo: Marina candidata seria como refundar o PV. Seria retomar os princípios originários do partido e encampar de fato uma proposta de País que tenha a questão ambiental como prioridade. Quem bom seria ter um partido com essas características fortalecido no cenário nacional. E que melhor momento para começar esse trabalho senão agora, quando tantos países relevantes, a começar pelos Estados Unidos, elevam a política ambiental ao status de estratégica?
Em entrevista à Carta Capital, o diplomata Rubens Ricúpero acertou na mosca: “O único problema mundial que não pode ser resolvido sem o Brasil é o ambiental”. Ou seja, é a única área em que o País tem condições de exercer liderança num horizonte próximo. Se essa análise estiver correta, Marina Silva como presidente é a chave para um Brasil fortalecido no cenário internacional.
A chefe de redação do Valor Econômico, Rosângela Bittar, arriscou um palpite em artigo publicado no jornal: aposta que Marina teria entre 8% e 9% das intenções de voto na largada, graças à simpatia da classe média pelas questões ambientais e pelo próprio PV. A senadora tem grande carisma e pertence ao seleto grupo de políticos identificados com a ética pela opinião pública.
Mas imagino que seu calcanhar de Aquiles seria justamente o meio ambiente. Numa disputa eleitoral, consigo visualizar os adversários argumentando que Marina entende de floresta e só. E que é preciso muito mais que isso para comandar o País. Estariam errados, acredito. Pouco assuntos são tão transversais quanto meio ambiente. A discussão é inseparável de energia, infra-estrutura, desenvolvimento, cultura, políticas sociais. E Marina é escolada em todos esses assuntos, até porque é senadora da República desde 1995.
É quase impossível, mas vamos sonhando. Quem sabe a gente não emplaca Marina, mas emplaca uma mensagem de apoio à sustentabilidade no poder.