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Verde, não. Turquesa Carolina Derivi - 21/04/2010 às 14:22

Lá nos anos 60, depois de tomar uma dose de LSD para apreciar o pôr-do-sol, o americano Stewart Brand teve um estalo que seria um dos turning points do ambientalismo. Por que não vimos ainda uma fotografia da Terra por completo? O homem tinha acabado de pisar na lua e a Nasa andava comendo bola. Depois de iniciada a campanha que se espalhou na forma de bottons e camisetas, as fotos foram liberadas e estamparam o famoso Whole Earth Catalog.

Desde então, acredita-se que encarar a imagem do planeta pela primeira vez tenha sido uma coisa tão poderosa que ajudou a catapultar o movimento verde pelo mundo. Mas Brand não se contentou em entrar para os anais. Ele tem sido um crítico importante do ambientalismo, para quem não basta consolidação. É preciso evolução.

E como toda boa ideia nessa vida precisa de uma jogadinha de marketing, Brand e seus seguidores já enjoaram da cor verde e propõem um novo movimento, da cor turquesa. O mote é o azul do céu ou dos oceanos para inspirar um pensamento fora da caixa e lembrar as infinitas possibilidades da tecnologia.

Pode parecer balela, mas as críticas são muito relevantes. Brand lembra, por exemplo, que os desafios de nossos ancestrais verdes –poluição, aumento populacional vertiginoso, escassez de recursos naturais- viraram fichinha perto da ameaça monstruosa do clima. Todos os esforços deveriam estar voltados para esse único e supremo desafio, sem prejuízo dos eventuais cruzamentos. Encontrar solução para um ponto pode também solucionar muitos outros.

O caso é que todos os reatores nucleares que deixaram de ser criados pela heróica resistência dos verdes no passado também permitiram a emissão adicional de milhões e milhões de toneladas de carbono. O mesmo vale para a resistência aos alimentos transgênicos que, em teoria, podem reduzir a área plantada, portanto, o desmatamento. E quanto aos orgânicos, come on, se isso fosse uma solução global mataria de fome boa parte do mundo.

Leia mais na matéria do The New York Times para o Dia da Terra

O movimento turquesa quer riscar a nostalgia e a tecnofobia para não descartar nenhuma solução possível, ou nenhum “dos males o menor”.

É super perigoso que uma proposta como essa descambe para o maquiavelismo. É capaz de os outros dois pés do tripé da sustentabilidade, o social e o econômico, serem levados a escanteio. O que é mais importante? A energia menos poluente de Belo Monte ou o modo de vida dos indígenas e a biodiversidade? Eticamente, como sobrepor um valor ao outro, nessa busca desesperada de conter a mudança do clima?

Mas prefiro o impasse às fórmulas prontas verde das quais eu, modestamente, também já enjoei.

Foto: Turquoise Lake no Colorado (EUA). Quinet via Flickr.

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Comentários

21/04/2010 às 18:41 Anonymous - diz:

Otávio V. Ruivo – diz:“…Energia menos poluente de Belo Monte”?As usinas hidrelétricas não tem mais sido chamadas de produtoras de “energia limpa” devido ao imenso e insuportável impacto ambiental que causam no ambiente local, que é muito duradouro.Hidrelétricas produzem energia a partir de fonte renovável, sim, porém, não, limpa. Hoje em dia, não cabe mais essa fala de energia limpa para hidrelétricas uma vez que há diversos estudos que explicam e demonstram essa mudança de conceito.A energia limpa é outra coisa.

22/04/2010 às 19:32 Anonymous - diz:

Carolina Derivi – diz:Otávio, na verdade, a crítica à ideia de energia limpa das hidrelétricas não se deve ao impacto no ambiente local, mas à emissão do gas metano pelos reservatórios. E foi exatamente por isso que não usei o termo energia limpa em nenhuma parte do texto. “Menos poluente” porque, até onde sabemos, uma hidrelétrica é preferível a uma usina térmica (do ponto de vista climático), justamente o tipo de energia que o governo promete expandir se não forem liberados os seus projetos hídrelétricos um a um. Espero ter esclarecido…

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Eco BalaioCarolina Derivi

Carolina Derivi é jornalista especializada em sustentabilidade. Começou há sete anos, como estagiária na ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e de lá pra cá foi repórter e subeditora da revista Página22. Hoje, como freelancer, colabora com diversos projetos de comunicação. Desde que passou uma temporada como voluntária na Chapada dos Veadeiros (GO), aos 18 anos, não perdeu mais a mania de encontrar relações entre meio ambiente e tudo o mais que há na vida. Aqui, discorre sobre as múltiplas conexões entre sustentabilidade, política e economia.

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