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O texto dinamarquês Carolina Derivi - 09/12/2009 às 01:00

A COP15 já quebrou a tradição de marasmo que costuma prevalecer na primeira semana das Conferências de Clima. Logo no segundo dia, o vazamento de um rascunho de acordo global chamado de “texto dinamarquês” aparentemente causou um alvoroço em Copenhague.

Segundo o jornal The Guardian, que deu o furo, o rascunho teria sido formulado por Estados Unidos, Dinamarca e Grã Bretanha.

O texto, que pode ser lido na íntegra aqui (em inglês), traz algumas crocodilagens: estabelece, por exemplo, que o dinheiro prometido pelos países ricos para ajudar o resto do mundo a se adaptar à mudança do clima iria só para os realmente pobres, não para os emergentes.

Essa proposta tem sérias implicações morais, em termos de adaptação. É como se você provocasse uma batida do tipo “engavetamento” e decidisse que só vai pagar o prejuízo do fusca e não do palio. A mudança climática é responsabilidade primordial dos ricos. É justo que paguem a quem eles prejudicaram para que seja possível lidar com o problema, sem olhar a quem.

Além disso, os três ricos propõem fornecer apenas US$ 10 bilhões por ano – o Banco Mundial calcula que seriam necessários US$ 100 bi – e só até 2012. A partir daí os valores seriam reavaliados. E a proposta de deixar o fundo de administração nas mãos do próprio Banco Mundial é altamente controversa.

Mas o que pegou mesmo nos calos dos emergentes foi a meta de redução de emissões para eles. E a partir daí eu já não entendo… Dá vontade de dizer: vocês esperavam o quê? Que ninguém percebesse que China e Etiópia têm realidades distintas?

Tudo que o rascunho estabelece é uma redução nas emissões projetadas para 2020, de modo que se atingisse um pico até esse ano. Ou seja, ainda pode aumentar, mas não muito. É parecido com o que India, Brasil, China e África do Sul já haviam oferecido.

Diz-se que estão “rasgando o Protocolo de Kyoto”. Não entendo esse apego… Kyoto vem de outra realidade, que tratava os países em desenvolvimento apenas como vítimas, doze anos atrás. Não dá mais para deixar os emergentes emitirem livremente. Injusto? Pode ser, mas são os fatos. Ou eles diminuem ou a conta do carbono no século 21 simplesmente não fecha.
 
Não foi justamente por isso que foram criados os benditos dois trilhos de negociação em Bali (COP 13)? Um segue a via de Kyoto, o outro segue novas oportunidades de acordo para incluir quem faltava: EUA e os emergentes. Esse papo das responsabilidades históricas, no terreno da mitigação, é uma cegueira maldita.

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Comentários

16/12/2009 às 12:41 Anonymous - diz:

Mateus do Amaral – diz:Paz e bem! Carolina, esse papo das responsabilidades históricas pode até ser uma cegueira considerando-se a necessidade de adotarmos, enfim, uma perspectiva planetária dos problemas que a humanidade enfrenta; no entanto, ignorar esse papo é aceitar o maldito “moralismo” dos países ricos que, quando acusados de serem os responsáveis por duzentos anos de emissões de GEEs, quiseram trazer ao mesmo barco países como a China, que, a despeito de ser o maior emissor atual, emite de forma relevante há 20 anos (ou estou muito errado?). Acho que a atribuição de responsabilidades quanto ao aquecimento global deve ser feita de uma forma mais coerente do que propõem as opiniões que prevalecem no cenário global. Falamos em PLANETA quando se trata do problema, o que é correto, mas insistimos em falar em PAÍSES na hora de discutir as soluções. Afinal, até que ponto somos uma só humanidade? Ora, para responder a isso, é só pensar no fato de que não interessa ao mercado que sejamos efetivamente uma só humanidade, por motivos óbvios (e que não cabem aqui). Para mim, resumir o debate ao âmbito das nações só interessa justamente aos maiores responsáveis pelo aquecimento global. Acho que falta aos formadores de opinião incluir no debate a questão da necessidade de uma governança global, que poderia dirimir as desigualdades globais em todos os aspectos, inclusive na questão ambiental. Com um mínimo de bom senso, essa governança global decidiria que o preço da mitigação seria pago principalmente por aqueles que dispõem de mais recursos — que, coincidentemente ou não, são os países que têm as tais responsabilidades históricas. Segundo esse raciocínio (que eu sujeito agora à sua avaliação), percebe-se que o centro da questão não são as responsabilidades históricas, mas sim a coerência do discurso de que somos uma só humanidade. Para mim, urge que a ideia de uma só humanidade saia da esfera do discurso e que ganhe vida — que ela seja adotada integralmente por todos, até as últimas consequências. As fronteiras constituem, cada vez mais, elementos artificiais, simplificadores e anacrônicos. Parabéns pelo seu blog, e um grande abraço. Paz e bem!

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Eco BalaioCarolina Derivi

Carolina Derivi é jornalista especializada em sustentabilidade. Começou há sete anos, como estagiária na ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e de lá pra cá foi repórter e subeditora da revista Página22. Hoje, como freelancer, colabora com diversos projetos de comunicação. Desde que passou uma temporada como voluntária na Chapada dos Veadeiros (GO), aos 18 anos, não perdeu mais a mania de encontrar relações entre meio ambiente e tudo o mais que há na vida. Aqui, discorre sobre as múltiplas conexões entre sustentabilidade, política e economia.

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