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Ressaca florestal Carolina Derivi - 25/05/2011 às 14:21
Pois ontem foi um dia tão duro para as florestas brasileiras que estou até agora com o estômago embrulhado. Em plena quarta-feira, a sensação é de ressaca. E hoje ainda fiquei sabendo que a iniciativa de José Sarney Filho de mencionar o assassinato do líder extrativista José Claudio Ribeiro durante a seção na Câmara motivou uma vaia ruralista. Cinismo e desfaçatez que não têm limites.Tinha esperança de escrever "o não-post sobre o Códiigo Florestal" essa semana. Achava que já tinha esgotado tudo que eu tinha para dizer sobre esse assunto e que os leitores já deveriam estar enfadados. Mas a barbaridade de ontem não me deixa saída.
É legítimo que se aponte o dedo para o ruralismo, cujos representantes não tem outra agenda senão seus próprios interesses. Mas esta não é apenas uma vitória do pensamento retrógrado que vem do campo. Este é um fracasso do governo, do Ministério do Meio Ambiente, do Itamaraty, da Frente Parlamentar Ambientalista (a maior da Câmara, sabia?), da comunidade científica e das ONGs. Todos que estavam do outro lado deveriam usar esse momento para refletir sobre seus próprios erros.
Trabalho na cobertura do Código Florestal desde 2007. Em todos esses anos, encontrei cientistas, ativistas e políticos esclarecidos para quem era necessário, acima de tudo, apresentar uma proposta alternativa, conciliadora e moderna, focada no imenso potencial competitivo de uma agropecuária sustentável. Mas a voz da inovação não ganhou massa crítica quando deveria.
Movimentos socioambientais estiveram, esse tempo todo, muito mais preocupados em evitar os piores desmandos que em assumir um papel propositivo. Tinha razão Aldo Rebelo quando os acusava de reclamar muito e contribuir pouco. Em janeiro, em contato com representantes das maiores ONGs em atividade no país, descobri que tinham finalmente percebido que a atitude apenas defensiva não resolve. Foi tarde demais.
O governo, com melindres de perturbar a sua inabalável base aliada, foi empurrando com a barriga. Perdeu, pela primeira vez nesta gestão, com o PT rachado ao meio. O MMA só entrou de fato no jogo propositivo há menos de seis meses. A comunidade científica observou calada a desqualificação de leigos sobre os critérios técnicos da legislação. O documento O Código Florestal e a Ciência, lançado em abril, foi a última cobrança de falta nos acréscimos de um jogo perdido. E por acaso algum dos parlamentares ambientalistas aventou a possibilidade de formular um projeto de lei com as verdadeiras soluções?
Como jornalista, conheço diversas maneiras de apaziguar os interesses de produtores rurais e ambientalistas, porque elas sempre estiveram aí, disponíveis para quem as quisesse conhecer e fazer com que ganhassem escala. Ficava danada da vida quando o lado verde alegava que não se podia passar o projeto sem debate. Houve debate, sim. Aliás, um debate exaustivo, enjoado, esgotante. O que não houve é o debate produtivo.
Para terminar, quero citar aqui a minha amiga americana, Jenny Miller, loira de olhos azuis e apaixonada pelo Brasil. Sua interpretação, depois de três anos vivendo aqui, é que nós já fomos tão aviltados e decepcionados no passado que ninguém mais se atreve a acreditar num país decente. A gente vai levando. O que falta ao brasileiro, diz a Jenny, é a ousadia de pensar grande. O dia de ontem em Brasília escancarou exatamente isso.
Foto: Paulo Tonetti
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26/05/2011 às 19:14 Anonymous - diz:
Mariana Lopes – diz:Chorei…Triste demais.
26/10/2011 às 19:34 #Florestafazadiferença - Eco Balaio - diz:
[...] (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciência (ABC). Na etapa da Câmara, com seu fim trágico, critiquei ambas as entidades por terem demorado muito a se manifestar, sempre com aquele argumento emburrado, [...]
07/12/2011 às 17:00 Calar com convicção - Eco Balaio - diz:
[...] Venho dizendo, desde a aprovação do relatório de Aldo Rebelo, na Câmara dos Deputados, que gostaria de ter visto mais colaboração, em lugar de confrontação. A porrada, em sentido figurado, também tem o seu valor, como demonstrou o Greenpeace nos últimos 40 anos. Uma organização que se torna alvo de ataques públicos de repente passa a ser muito mais propensa ao diálogo. Mas se todos estão concentrados nos ataques, quem é que agarra na ponta do diálogo? [...]
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Carolina Derivi é jornalista especializada em sustentabilidade. Começou há sete anos, como estagiária na ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e de lá pra cá foi repórter e subeditora da revista Página22. Hoje, como freelancer, colabora com diversos projetos de comunicação. Desde que passou uma temporada como voluntária na Chapada dos Veadeiros (GO), aos 18 anos, não perdeu mais a mania de encontrar relações entre meio ambiente e tudo o mais que há na vida. Aqui, discorre sobre as múltiplas conexões entre sustentabilidade, política e economia.
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